ENGENHARIA DE UM CRIME
Adriano de Oliveira
 
 
Na abertura de "Um Crime de Mestre", deparamos com o personagem de Anthony Hopkins, o engenheiro Ted Crawford, contemplando um perpetuum mobile possivelmente por ele idealizado. Pronto: a cena sintetiza tudo o que virá a seguir, é ela a amostra essencial do filme. Está ali sumariamente delineado o protagonista - um sujeito de raciocínio e habilidade, que supõe controlar o mundo que o cerca, consciente das leis da natureza e do homem.

Só que o cosmo de Crawford não se mostra perfeito e controlável como ele imagina. Sua esposa Jennifer (Embeth Davidtz, do inesquecível "A Lista de Schindler") o trai com um policial. O engenheiro atira na mulher adúltera, confessa o crime, é preso e vai a julgamento. No tribunal, Ted abdica de ter um advogado de defesa, e, engenhosamente, apresenta argumentos e situações capazes de absolvê-lo do crime cometido, causando a inconformidade do jovem promotor responsável pela acusação (Ryan Gosling), tido então como invicto em causas. Eis o momento em que o cientista-exato presume ter reassumido as rédeas de seu universo. Até prova em contrário.

O filme do experiente em dramas policiais e tribunalescos Gregory Hoblit (não por acaso, a presente obra lembra em parte o seu belo exemplar "As Duas Faces de um Crime", que revelou Edward Norton) possui uma característica notável: abrindo mão de grandes ações, mesmo assim prende a atenção do espectador. Com diálogos espertos, situações inusitadas, bom humor e ironia, a trama segura bem a si. Para realizar tal tarefa a contento, entretanto precisa ela de bons atores para os papéis principais. Gosling é correto, até demais, soando profissional em excesso e faltando-lhe transpiração. Hopkins, não de modo contrário, mas sim de maneira superlativa, acaba por eclipsar seu antagonista em cena, tamanha a força artística e o inegável carisma do veterano galês.

Como em "No Limite" e "Revelações", Sir Anthony é simplesmente o corpo e a alma do filme que estrela, ficando impossível imaginar como estes seriam sem ele. À moda de um alquimista cênico, Hopkins é capaz de transformar filmes razoáveis em bons, e os bons em excelentes. "Um Crime de Mestre" reafirma essa propriedade do ator em capitalizar as atenções da platéia, usando para tanto as poderosas ferramentas que possui na arte de atuar - um olhar, uma entonação diferenciada, um momento sardônico, um gesto, uma postura do respeitável ator falam por mil palavras. Poucos sabem como ele aproveitar o potencial de um texto...e às vezes mais: tirar água de pedra, até! (Não falei antes que se trata de um alquimista?)

Por mais que o final deste filme (recordando, nos seus últimos minutos de projeção, o espírito do bem-realizado "Risco Duplo", de Bruce Beresford) pareça meio apressado, e a cena derradeira, pouco confortável, Anthony Hopkins por si só, vale o ingresso. Na maior parte, a trama é boa, e "Um Crime de Mestre" atinge algo raro em nossos dias de cinema: entretém com garbo.


UM CRIME DE MESTRE (Fracture, 2007)

Direção: Gregory Hoblit.

Elenco: Anthony Hopkins, Ryan Gosling, Billy Burke, Rosamund Pike.

COTAÇÃO: ****