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Os filmes corais, normalmente caracterizados
por histórias dramáticas paralelas e entrelaçadas, com
elenco de renome, são um sub-gênero que em grande parte
das vezes consegue arrebatar público e crítica, vide
alguns recentes exemplos como "Short Cuts - Cenas
da Vida" (1993) do mestre no assunto Robert Altman
e "Magnólia" (1999) de P. T. Anderson.
"Crash - No Limite" ora segue usualmente a cartilha
dos predecessores, ora tenta ousar um pouco, mas finda
oferecendo apenas uma obra mediana. Quando um filme
promete mais do que cumpre, é este o caso, se
faz necessário analisar as causas de tal ocorrência.
Tudo começa pela grande expectativa de que se cercou
um trabalho do roteirista (e aqui também diretor) Paul
Haggis, aclamado pela maioria da crítica devido ao supervalorizado
"Menina de Ouro", do qual ele fora responsável
pelo roteiro adaptado. Haggis repete em "Crash",
ainda que em grau menor, os excessos dramáticos, a pieguice,
a forçosidade e a construção claramente premeditada
em torno de twists (às vezes, previsíveis,
e por isso menos eficientes) que assolaram o injustamente
multipremiado "apelativo drama-sobre-doença/deficiência
mascarado de obra-prima" dirigido por Clint Eastwood.
Em seu novo trabalho, o autor dilui esses fatores por
entre os múltiplos protagonistas, o que colabora para
aliviar a tinta forte do dramalhão, porém não consegue
escapar da síndrome que muitas vezes acometeu os longas
dirigidos por Mimi Leder e por Steven Spielberg: a necessidade
imperiosa de passagens destinadas à comoção da platéia,
a qualquer custo.
O roteiro toca em dois temas tão interessantes quanto
delicados: as questões da intolerância racial e da falta
de entendimento entre as pessoas. Em tal tarefa, obtém
um certo êxito, primando pela isenção e pela denúncia
bem-realizada. Esbarra, no entanto, em suas próprias
armadilhas, como, por exemplo, ao insistir em que tais
faltas só são percebidas em situações-limite individuais,
quando certamente elas estão o tempo todo impregnadas
nas personificações.
Na execução, há absorções evidentes de outros filmes
corais. Não bastasse extrair de "Magnólia" o
uso de canções onipresentes nos momentos dramáticos,
"Crash" tem boa parte de seu argumento baseada
em uma obra pouco conhecida do público: a fita "Fúria
Urbana" ("It's the Rage"), dirigida
pelo desconhecido James D. Stern, que no Brasil foi
distribuída diretamente no mercado de vídeo em 1999.
A tensão crescente é um dos trunfos do filme; possivelmente,
o seu ponto mais forte. A angústia e a melancolia presentes
ao longo de toda a projeção colaboram decisivamente
para potencializar esse fator. É fato que emerge
mais devido ao roteiro do que pelo irregular corpo de
atuações: Don Cheadle é sub-aproveitado, Ryan Phillippe
surpreende positivamente, Matt Dillon está costumeiramente
bem, Thandie Newton continua bela e limitada, Terrence
Howard e Ludacris despejam energia, Sandra Bullock se
mostra dispensável. Neste campo, nada de realmente extraordinário,
nem para bem, nem para mal. Há um nítido
exagero nas coincidências da trama e pasteurização
dos papéis, falhas de um enredo que procura canalizar
fixamente numa idéia central de toda a maneira.
O filme abarca uma série de eventos que ocorrem em
Los Angeles durante um período de um dia e meio, em
uma data próxima ao Natal, conectando entre si personagens
à beira de colapsar suas emoções, diferentes na etnia
e nas classes sócio-econômicas. De uma
maneira menos dramática, menos pretensiosa, e mais terna,
"Anjo de Vidro", de Chazz Palminteri, lançado
há cerca de um ano atrás, fez tarefa semelhante, numa
ambientação nova-iorquina e menor número de personagens
primários.
Haggis ataca bem o tema da crítica social, mas se
esquece de dar mais conteúdo aos seus personagens, em
prol de um inconsciente coletivo que os permeia. Talvez
seja esse, dentre o rol de problemas de "Crash",
o maior: é coral demais.
CRASH - NO LIMITE (Crash, 2004)
Direção: Paul Haggis.
Elenco: Sandra Bullock, Don Cheadle, Terrence
Howard, Matt Dillon, Ryan Phillippe, Larenz Tate, Loretta
Devine, William Fichtner, Jennifer Esposito, Thandie
Newton, Ludacris, Bahar Soomekh, Brendan Fraser.
COTAÇÃO: **
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