LIMITES
ou
UM DIA E MEIO EM LOS ANGELES
Adriano de Oliveira
 
 

Os filmes corais, normalmente caracterizados por histórias dramáticas paralelas e entrelaçadas, com elenco de renome, são um sub-gênero que em grande parte das vezes consegue arrebatar público e crítica, vide alguns recentes exemplos como "Short Cuts - Cenas da Vida" (1993) do mestre no assunto Robert Altman e "Magnólia" (1999) de P. T. Anderson.

"Crash - No Limite" ora segue usualmente a cartilha dos predecessores, ora tenta ousar um pouco, mas finda oferecendo apenas uma obra mediana. Quando um filme promete mais do que cumpre, é este o caso, se faz necessário analisar as causas de tal ocorrência. Tudo começa pela grande expectativa de que se cercou um trabalho do roteirista (e aqui também diretor) Paul Haggis, aclamado pela maioria da crítica devido ao supervalorizado "Menina de Ouro", do qual ele fora responsável pelo roteiro adaptado. Haggis repete em "Crash", ainda que em grau menor, os excessos dramáticos, a pieguice, a forçosidade e a construção claramente premeditada em torno de twists (às vezes, previsíveis, e por isso menos eficientes) que assolaram o injustamente multipremiado "apelativo drama-sobre-doença/deficiência mascarado de obra-prima" dirigido por Clint Eastwood.

Em seu novo trabalho, o autor dilui esses fatores por entre os múltiplos protagonistas, o que colabora para aliviar a tinta forte do dramalhão, porém não consegue escapar da síndrome que muitas vezes acometeu os longas dirigidos por Mimi Leder e por Steven Spielberg: a necessidade imperiosa de passagens destinadas à comoção da platéia, a qualquer custo.

O roteiro toca em dois temas tão interessantes quanto delicados: as questões da intolerância racial e da falta de entendimento entre as pessoas. Em tal tarefa, obtém um certo êxito, primando pela isenção e pela denúncia bem-realizada. Esbarra, no entanto, em suas próprias armadilhas, como, por exemplo, ao insistir em que tais faltas só são percebidas em situações-limite individuais, quando certamente elas estão o tempo todo impregnadas nas personificações.

Na execução, há absorções evidentes de outros filmes corais. Não bastasse extrair de "Magnólia" o uso de canções onipresentes nos momentos dramáticos, "Crash" tem boa parte de seu argumento baseada em uma obra pouco conhecida do público: a fita "Fúria Urbana" ("It's the Rage"), dirigida pelo desconhecido James D. Stern, que no Brasil foi distribuída diretamente no mercado de vídeo em 1999.

A tensão crescente é um dos trunfos do filme; possivelmente, o seu ponto mais forte. A angústia e a melancolia presentes ao longo de toda a projeção colaboram decisivamente para potencializar esse fator. É fato que emerge mais devido ao roteiro do que pelo irregular corpo de atuações: Don Cheadle é sub-aproveitado, Ryan Phillippe surpreende positivamente, Matt Dillon está costumeiramente bem, Thandie Newton continua bela e limitada, Terrence Howard e Ludacris despejam energia, Sandra Bullock se mostra dispensável. Neste campo, nada de realmente extraordinário, nem para bem, nem para mal. Há um nítido exagero nas coincidências da trama e pasteurização dos papéis, falhas de um enredo que procura canalizar fixamente numa idéia central de toda a maneira.

O filme abarca uma série de eventos que ocorrem em Los Angeles durante um período de um dia e meio, em uma data próxima ao Natal, conectando entre si personagens à beira de colapsar suas emoções, diferentes na etnia e nas classes sócio-econômicas. De uma maneira menos dramática, menos pretensiosa, e mais terna, "Anjo de Vidro", de Chazz Palminteri, lançado há cerca de um ano atrás, fez tarefa semelhante, numa ambientação nova-iorquina e menor número de personagens primários.

Haggis ataca bem o tema da crítica social, mas se esquece de dar mais conteúdo aos seus personagens, em prol de um inconsciente coletivo que os permeia. Talvez seja esse, dentre o rol de problemas de "Crash", o maior: é coral demais.

CRASH - NO LIMITE (Crash, 2004)

Direção: Paul Haggis.

Elenco: Sandra Bullock, Don Cheadle, Terrence Howard, Matt Dillon, Ryan Phillippe, Larenz Tate, Loretta Devine, William Fichtner, Jennifer Esposito, Thandie Newton, Ludacris, Bahar Soomekh, Brendan Fraser.

COTAÇÃO: **