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"A ARTE IMITA
A ARTE"
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"O ANO PASSADO NA ITÁLIA:
VIAGEM À MARIENBAD"
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O cineasta iraniano Abbas Kiarostami acena para sair
da sua zona de conforto ao deixar de filmar em seu habitat
para o que pode ser um novo rumo na carreira - a internacionalização
de seu cinema, disposto a gravar na Europa. Mas esse movimento
pode ser apenas um ponto fora da reta, tendo como passo
seguinte um retorno ao seu nicho, tal o fez Wong Kar-Wai:
após rodar nos EUA "Um Beijo Roubado", ele tornou
a Hong Kong para novo trabalho.
Na realização de "Cópia Fiel", Kiarostami gravou
na Toscana, belíssima região italiana, e trabalhou com
um duo europeu de atores principais: o barítono - e ator
eventual de TV - inglês William Shimell e a aclamada atriz
francesa Juliette Binoche. Na trama, um escritor britânico,
James Miller (Shimell), vai à cidade de Lucignano promover
seu laureado livro "Copia Conforme" e acaba se
encontrando com uma francesa (Binoche) radicada na Itália,
proprietária de galeria de arte, a qual se propõe a levá-lo
para um passeio na cidade, ocasião que será reveladora
de e para esses personagens.
Na primeira metade do filme, há uma constante discussão
entre os protagonistas acerca da originalidade. Uma cópia
pode ter o mesmo valor do artigo original? É a percepção
do espectador quem determina esse juízo de valor? Qual
a real função da representação na Arte? Na segunda parte,
a clave muda a partir de um episódio cênico e se começa
a sugerir que o inglês e a francesa já se conheciam e
compartilharam um passado em comum (Ou seria isso uma
encenação?).
"Cópia Fiel" se acha bem abastecido de metáforas
e simbolismos, mas além disso é em si um exercício de
metalinguagem e um filme-tese. As questões do simulacro,
da percepção e da representação (esta, em diferentes sentidos)
invadem a película e instigam o espectador.
Que momento seria mais propício do que este para se falar
de "original vs. cópia", em se tratando de Cinema? Proliferam
remakes e ideias recicladas nos tempos atuais,
sobretudo em Hollywood. As referências a outras obras
(bem como as casualidades) se tornaram comuns. Elas estão
espalhadas aos borbotões pelos filmes modernos, e disso
nem mesmo "Cópia Fiel" escapa (Intencionalmente
- ou não?). As diferenças culturais dos personagens, o
uso plural de línguas, o tom discursivo e o foco filosófico
permanente remetem a filmes de Manoel de Oliveira; a segunda
metade da obra é "Jogo de Cena", do nosso Eduardo
Coutinho, em pura ação; "Viagem à Itália", grande
clássico de Rossellini (já citado por Almodóvar no belo
"Abraços Partidos"), se situa como uma referência
inegável; e a parte final do longa recicla o leitmotiv
de "O Ano Passado em Marienbad", obra-prima de
Resnais. Para não se falar na autorreferência a "Através
das Oliveiras", também do iraniano.
As atuações seguras - sobretudo a de Binoche, linda e
inclusive sensual no esplendor de seus 47 anos -, assim
como o roteiro afiado, dão garantia de bom andamento à
obra. A câmera bem postada de Kiarostami (que vai do uso
do plano fixo à elaboração de planos-sequência típicos
de Amos Gitai, com forte sentido de retratar longamente
o "walk and talk" em cena) é um caso à parte. Ora
fazendo um notável uso de espelhos para ilustrar o contraplano,
ora se colocando de modo que os mais reveladores diálogos
se dêem diretamente a ela - o que confunde a câmera subjetiva
a um "olhar nos olhos" do espectador -, a lente do cineasta
se sobressai. E como autor que se preze, Abbas também
acaba referenciando a si próprio nesse sentido com uma
sequência pessoal, característica: diálogos a bordo de
um carro em movimento, tal qual "Dez" (cabe ali
também um destaque para a sensibilidade extrema do cineasta,
ao captar a paisagem "passando" pelos viajantes através
do reflexo da mesma no vidro dianteiro do veículo).
A ruptura ou a mesmo a indissociação entre realidade e
irrealidade, a questão da percepção e o papel do espectador,
as relações entre objeto e representação, e inclusive
a complexidade das relações humanas (Vividas? Encenadas?
Imaginadas?) são alguns dos temas de um filme que lhe
faz pensar para bem depois de as luzes da sala de cinema
se acenderem, algo raro hoje em dia.
CÓPIA FIEL (Copie Conforme, França/Itália/Bélgica,
2010)
Direção: Abbas Kiarostami.
Elenco principal: Juliette Binoche, William Shimell,
Jean-Claude Carrière.
Cotação: *****
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