SIMPLICIDADE, HUMANIDADE E ANARCO-APOSENTADORIA TIPO EXPORTAÇÃO
Alexandre Mesquita
 
 
Ao pegarmos uma barra de chocolate suíço, antes mesmo de comê-la sabemos que, quando acabar, deixará saudade. É praxe que o nome do lugar que produz um produto de qualidade vire um adjetivo. Algo assim está surgindo na atual produção cinematográfica argentina. De uns cinco anos para cá recebemos uma safra notável de filmes: Nove Rainhas, O Filho da Noiva, Cleopatra, Plata Quemada, Kamchatka, dentre outros. Em alguns deles, percebe-se uma tendência ao filão de histórias simples e humanas, que envolvem personagens perdidos no cotidiano, geralmente tendo como pano de fundo a crise econômica recente. De improviso, cito a trinca: O Filho da Noiva, Cleopatra e o mais recente Conversando com Mamãe (Conversaciones com Mamá, Argentina, 2004), do diretor e roteirista Santiago Carlos Oves.

Em Conversando com Mamãe, Eduardo Blanco (o Juan Carlos de O Filho da Noiva) é Jaime, um homem de cinqüenta anos que tinha bom emprego, capaz de dar à esposa e aos dois filhos casa com piscina e viagens ao exterior quando o dólar era favorável. Com a crise econômica, veio a demissão. A única alternativa para manter o padrão de vida, exigência da esposa, é a venda um apartamento de propriedade da família. Só que a mãe de Jaime (China Zorrilla) mora nele, e nem lhe passa pela cabeça sair. Embora sua relação com a mãe não fosse das melhores, Jaime não queria conduzir uma expulsão materna e tenta convencê-la na base da conversa. E no papo vai, papo vem, emerge o passado. Uma relação recheada de culpas, falhas e lacunas entre mãe e filho. E como se não bastasse, a mãe de oitenta anos ainda arrumou um namorado (!). Aí está o grande segredo da receita da atual culinária cinematográfica Argentina: toma-se uma situação cotidiana que sufoca o personagem principal, coloca-se ele diante de uma circunstância totalmente fora dos padrões e aí...mundo com novos olhos. Jaime percebe que os filhos já estão crescidos, capazes de escolher o próprio futuro, percebe que a mulher já o abandonara há muito tempo, e que só estavam juntos por causa do padrão de vida que ele dava até então. E percebe, por fim, que dentro dele há alguem não totalmente perdido, "Nossa, como pude não ser tão eu mesmo todos esses anos?". Tudo isso mostrado através de um roteiro enxuto e interpretações calcadas na emoção, mas sem apelos, o que já faz a película digna de respeito.

Mas um elemento adicional acentua muito o interesse do filme. Chama-se Gregório (Ulises Dumont), o namorado. Figuraça. Intitula-se um anarco-aposentado. Passa o dia na rua, bradando contra as injustiças do governo, especialmente, com o descaso a desempregados velhos como ele. Um anarquista que, aos sessenta e tantos anos, só conheceu a namorada porque, para se alimentar, roubava comida dos gatos dela. Que já foi de tudo - encanador, pedreiro, leiteiro, padeiro -, mas que só conseguia atendimento médico quando ficava vermelho demais no meio de um discurso inflamado em praça pública. Sem dúvida, um personagem muito interessante, que pode atrair muitas análises. Para mim, a passagem mais bacana do filme acontece quando Gregório, cansado ao final de mais um dia de discursos, identifica no meio de um parque uma platéia boa para um desabafo. Ele senta num banco e com sua velha mania de resmungar, meio para si, meio para dez mil pessoas, pergunta se ainda vale a pena gastar o que lhe resta da vida levantando sua voz solitária contra as injustiças sociais sem nunca ser escutado. Frente à resposta do único membro da platéia que parecia interessado, um cachorro vira-latas, ele concluiu que vale.

Daqui a um tempo, quando você estiver pensando se vale a pena ir ao cinema, pegar o jornal e deparar-se com o anúncio de um filme humano simples argentino, saberá que tem uma história sensível e bem contada, com personagens carismáticos, capaz de emocionar e fazer rir, e que, na saída do cinema te colocará de volta à vida real, mas de bem com a mesma. Melhor que isso, só um Toblerone.

CONVERSANDO COM MAMÃE (Conversaciones com Mamá, Argentina, 2004)

Direção: Santiago Carlos Oves.

Elenco: Eduardo Blanco, China Zorrilla, Ulises Dumont.

COTAÇÃO: *****