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Contra
o Tempo (Source Code, EUA, 2011) é daqueles filmes
que começam ganhando o espectador. A sequência de abertura - usando planos gerais
e regada pela música incidental de Chris Bacon a lembrar
muito a do saudoso John Barry
- nos dá um clima de tensão que desemboca na
primeira cena pós-créditos iniciais apresentando um
passageiro de trem (Jake Gyllenhaal) que desperta confuso
em meio a uma viagem a Chicago: não sabendo porque está
ali, também enfrenta problemas de identidade. Oito minutos
depois, o trem no qual se encontra vem a ser destruído
por uma explosão (que saberemos além, é criminosa) a
qual atinge também uma outra composição – esta, de carga
- na linha férrea ao lado. Aparentemente, não há sobreviventes.
Então, o tal passageiro, o militar Colt Stevens, como
que acordando de um pesadelo, descobre que está sendo
utilizado como cobaia de um projeto de vanguarda chamado
de Código-Fonte, pertencente ao Departamento de Defesa
do governo americano. Stevens possui um biotipo e mais
do que isso, uma mente compatível com um professor de
História que morreu no acidente referido, e por isso
pode ser teleguiado através de um revolucionário
experimento científico ao cérebro daquele durante os
oito últimos minutos de vida do sujeito. O objetivo
da missão do militar é descobrir o terrorista causador
da explosão antes que o mesmo deflagre um novo atentado
na maior cidade de Illinois (Chicago não constitui,
como muitos acham, a capital desse estado americano;
aquela é Springfield). Tal procedimento pode ser repetido
o quanto for necessário até que a tarefa seja cumprida
a contento por parte da pobre cobaia, numa posição
onde o relógio joga duplamente contra ela: não bastasse
a pressa demandada pela situação, são apenas oito minutos
para cada nova chance de investigação.
Essa premissa básica se mostra mais
do que suficiente para chamar a atenção da plateia e
se desdobra com eficiência na maior parte do tempo de
projeção, não escapando de eventuais derrapadas das
quais falaremos mais adiante. Direção (de Duncan Jones,
da bela ficção científica Lunar) e montagem (do veterano Paul Hirsch,
de Star Wars)
trabalham muito bem para que a coisa ande com desenvoltura.
O problema de fato está no roteiro de Contra
o Tempo, que se mostra anticlimático e, ao permitir
uma solução adocicada (e ilógica) ao final da trama,
acaba cedendo ao cinema hollywodiano mais convencional
– o que se revela um desperdício para uma ideia
bacana. Claro, bacana, mas não muito original.
Há ecos de Feitiço do Tempo, A Cela, Matrix e Déjà Vu ali, assim como o filme não renega
suas origens em fundamentos do suspense hitchcockiano
e inspiração na sci-fi dos escritos de Philip K. Dick.
Gyllenhaal segura bem a barra como
protagonista, amparado por atrizes coadjuvantes belas
e talentosas, como Vera Farmiga com sua cativante expressividade
e Michelle Monaghan, “a namoradinha que todos gostariam
de ter”, com seu ar cândido e fonte de interesse romântico
da trama. Quem destoa do time entrosado é Jeffrey Wright,
um ponto fora da reta no papel do cientista coordenador
do projeto.
Falando em ciência, as poucas explicações
que o filme fornece para o fenômeno que permite ligar
as consciências entre a cobaia e o falecido realmente
não convencem. Mecânica Quântica? Ok, o entrelaçamento
quântico está aí para embasar isso: realidades paralelas
(se bem que deixar de invocar a ideia relativística
de wormholes
para justificar o experimento parece oportunidade desaproveitada).
Mas... cálculo parabólico? Hum,
duvidamos de que algo que se ensine num curso
básico de Geometria Analítica para alunos universitários
de Exatas possa dar conta do recado. E por que o roteiro
não cita, mesmo que rasamente, redes neurais - uma explanação
adequada à fenomenologia em questão? “Halo” de uma
lâmpada que se quebrou como analogia à propagação de
um campo eletromagnético a partir de uma fonte que se
esgotou? Melhor optar pela teoria dos “21 gramas”. Persistência
de memória recente em um corpo sem vida cerebral?
O roteirista Ben Ripley parece ter misturado de maneira
solta conceitos de textos de divulgação científica e
exagerado na fantasia, mesmo para uma aventura de sci-fi.
A outra alternativa ao problema seria reduzir ao máximo
justificativas científicas e esconder esclarecimentos
à luz da razão, como fez o longa A Origem - embora, para alguns, isso igualmente
não satisfaça.
Ainda bem que Ripley teve o dom de
sintetizar com rara competência a paranoia americana
pós-11 de setembro a respeito do terrorismo. Junte-se
isso à capacidade de entreter e descontem-se os pontos
fracos, o saldo do filme se mostra positivo em meio
à uma época de carestia nos
gêneros ficção e ação. Mas Contra
o Tempo poderia ser bem mais... Ah, isso poderia.
Com menos concessões ao comercialismo, o resultado seria
outro, pois o potencial estava lá, tinindo. O cavalo
passou encilhado, como dizem os gaúchos.
CONTRA
O TEMPO (Source Code, EUA, 2011)
Direção:
Duncan Jones.
Elenco: Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga,
Jeffrey Wright, Russell Peters, Michael Arden, Craig
Thomas.
Cotação: ***
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