OS DOIS LADOS DE UMA BATALHA
Adriano de Oliveira
 
 

O que era para ser um único filme sobre a batalha de Iwo Jima, ocorrida no front do Oceano Pacífico durante a II Guerra Mundial, acabou se transformando em dois: insatisfeito em mostrar somente a versão americana do conflito no longa "A Conquista da Honra", o diretor Clint Eastwood optou por fazer um contraponto, realizando também "Cartas de Iwo Jima", o qual traz o viés japonês do fato.

O resultado, como um todo, apresenta-se bom, embora irregular. Caso típico de sobremesa melhor do que o prato principal, "Cartas.." vem a figurar superior ao filme do outro lado do díptico, que assim se torna coxo. Ocorre aqui o que falamos anteriormente em outro artigo, sobre a relação entre "Babel" e as outras duas películas da tríade dirigida por Alejandro Iñárritu - fosse aquela um tripé, a obra mais recente seria a perna quebrada do artefato.

Como um filme complementa o outro, observando ambos podemos melhor compreender, assim como fazer interpolações, de certas histórias das tramas, como aquela dos corpos explodidos de soldados japoneses dentro de túneis na ilha onde a batalha ocorre. Enquanto na vista ocidental, os americanos ficam chocados com tal descoberta, na contrapartida nipônica vemos por que eles cometeram essa imolação. O problema do duo está na falta de foco de uma das partes: "A Conquista.." se detém mais em conseqüências, políticas e pessoais, da batalha de Iwo Jima, ao passo que "Cartas.." apega-se principalmente ao confronto em si e em fatos particulares anteriores a ele. Por mais que os adoradores de Clint insistam do contrário, fica difícil negar que os dois filmes não são uma obra unívoca e harmônica entre as partes, restando entre elas somente três traços dignos de união: a referida batalha em comum, o aspecto do sentimento de companheirismo entre os soldados - tomado por universal -, e a fotografia dessaturada de Tom Stern (funcional como instrumento em passar à platéia a melancolia das situações enfocadas).

Um dos motivos pelos quais "A Conquista da Honra" não vem a ser, artisticamente falando, equivalente ao seu par, reside nas atuações de seu elenco. A diretora de casting Phyllis Huffman, em seu penúltimo trabalho (ela faleceu em março de 2006), não fez boa escolha, juntamente a Eastwood, em recrutar atores fracos como Adam Beach (caricato no papel do nativo Ira Hayes; uma coisa é fazer "Códigos de Guerra", voltado para uma estética de ação, outra é assumir um papel dramático de peso) e Jesse Bradford (Deus, onde estavam com a cabeça ao pinçar um "ator" como esse, com um currículo pontuado por atuações notadamente ruins?), bem como o claudicante Ryan Phillippe. O único papel, no elenco inteiro, que surpreende muito positivamente por seu desempenho cabe à rápida participação de David Patrick Kelly, impressionante por sua caracterização do presidente estadunidense Harry S. Truman.

A visão americana, em forma de filme, do conflito também falha ao se debruçar em uma montagem ambiciosa demais - a três tempos -, que atravanca a narrativa e desconsola a platéia: simplesmente, a projeção não flui, arrítmica, e se torna indigesto o ato de obter empatia pelo descortinamento da trama. Já esta, só ganha genuinidade ao tratar da verdadeira história por trás da célebre fotografia da bandeira americana hasteada em solo japonês (fato que ajudou a vender bônus de guerra, como a obra frisa). No mais, a trama volta a apresentar, por meio das mãos de um de seus autores, os já característicos momentos "Paul Haggis", roteirista que confunde humanismo com sentimentalismo excessivo e adora um apelo ao choro: em uma seqüência próxima ao final de "A Conquista.." só faltou entrar em cena o próprio Clint a desligar os aparelhos hospitalares de um paciente em estado grave, a exemplo do que fez seu personagem no dramalhão "Menina de Ouro", para completar a indução ao pranto. Ainda mais, a ode ao companheirismo dos soldados entoada pelo roteiro de Haggis não se mostra tão original quanto se louvou por aí. Basta recordar que "Além da Linha Vermelha", dirigido por Terrence Mallick, passou o mesmo recado, e de forma mais sutil e poética.

As cenas de combate de "A Conquista da Honra" também não são de trazer fato novo, se resumindo a um déjà vu daquelas de "O Resgate do Soldado Ryan" e "Band of Brothers" e em quantidade razoavelmente pequena. Pudera, a produção é de Spielberg, tais o filme e a série de TV citados. Não procure aqui um grande "filme de guerra" com todas as letras; como "drama com fundo de guerra", "A Conquista.." funciona de modo aceitável, e somente isso.

"Cartas..." rende mais, não apenas por mostrar um elenco convincente no plano dramático, mas também por sua direção firme e pela montagem linear com um uso propício de flashbacks. É um filme muito mais econômico e lírico em relação ao seu antecessor. A história tem momentos memoráveis, créditos do roteiro de Iris Yamashita (felizmente, aqui Haggis só entrou com o argumento, o que diminui em muito os níveis de pieguice), o qual se apóia na visão japonesa do combate, a mostrar claramente a distinção entre os soldados orientais e os americanos: os primeiros realmente não tinham de medo de morrer pelo Império que defendiam. Um trunfo substancioso do texto de Yamashita está em criar um personagem de imediata identificação com o espectador - o soldado Saigo (interpretado de forma brilhante por Kazunari Ninomiya), um simples padeiro que se vê alçado a lutar por sua pátria. Saigo que lembra um papel inesquecível, o do Cabo Upham, vivido estupendamente por Jeremy Davies no imortal "O Resgate do Soldado Ryan".

No final das contas, "Cartas de Iwo Jima" acabou se tornando uma carta na manga de Eastwood. Ao se surpreender pelo desempenho abaixo do esperado - tanto em público como em crítica - de "A Conquista da Honra" nos cinemas americanos, ao final do ano passado, diretor e estúdio resolveram antecipar a estréia da chamada "versão japonesa", prevista para entrar em cartaz nos EUA somente em fevereiro, com o claro propósito de não deixar o veterano diretor-ator de fora do Oscar, o que seria humilhante a um cineasta tido por aclamado, como é o caso dele. "Cartas..." seria a garantia da presença do realizador no Oscar de 2008, já que ele não está envolvido em projeto algum para um futuro próximo. Clint "Dirty Harry" disparou sua bala-reserva, veremos agora se ela acerta o alvo - os prêmios da Academia para os quais foi indicada.

A CONQUISTA DA HONRA (Flags of Our Fathers, 2006)

Direção: Clint Eastwood.

Elenco: Ryan Phillippe, Adam Beach, Jesse Bradford, Jamie Bell, Melanie Lynskey, Neal McDonough, David Patrick Kelly.

COTAÇÃO: **


CARTAS DE IWO JIMA (Letters from Iwo Jima, 2006)

Direção: Clint Eastwood.

Elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Shido Nakamura.

COTAÇÃO: ****