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O que era para ser um único filme sobre a batalha de
Iwo Jima, ocorrida no front do Oceano Pacífico
durante a II Guerra Mundial, acabou se transformando
em dois: insatisfeito em mostrar somente a versão americana
do conflito no longa "A Conquista da Honra",
o diretor Clint Eastwood optou por fazer um contraponto,
realizando também "Cartas de Iwo Jima", o qual
traz o viés japonês do fato.
O resultado, como um todo, apresenta-se bom, embora
irregular. Caso típico de sobremesa melhor do que o
prato principal, "Cartas.." vem a figurar superior
ao filme do outro lado do díptico, que assim se torna
coxo. Ocorre aqui o que falamos anteriormente em outro
artigo, sobre a relação entre "Babel" e as outras
duas películas da tríade dirigida por Alejandro Iñárritu
- fosse aquela um tripé, a obra mais recente seria a
perna quebrada do artefato.
Como um filme complementa o outro, observando ambos
podemos melhor compreender, assim como fazer interpolações,
de certas histórias das tramas, como aquela dos corpos
explodidos de soldados japoneses dentro de túneis na
ilha onde a batalha ocorre. Enquanto na vista ocidental,
os americanos ficam chocados com tal descoberta, na
contrapartida nipônica vemos por que eles cometeram
essa imolação. O problema do duo está na falta de foco
de uma das partes: "A Conquista.." se detém mais
em conseqüências, políticas e pessoais, da batalha de
Iwo Jima, ao passo que "Cartas.." apega-se principalmente
ao confronto em si e em fatos particulares anteriores
a ele. Por mais que os adoradores de Clint insistam
do contrário, fica difícil negar que os dois filmes
não são uma obra unívoca e harmônica entre as partes,
restando entre elas somente três traços dignos de união:
a referida batalha em comum, o aspecto do sentimento
de companheirismo entre os soldados - tomado por universal
-, e a fotografia dessaturada de Tom Stern (funcional
como instrumento em passar à platéia a melancolia das
situações enfocadas).
Um dos motivos pelos quais "A Conquista da Honra"
não vem a ser, artisticamente falando, equivalente ao
seu par, reside nas atuações de seu elenco. A diretora
de casting Phyllis Huffman, em seu penúltimo
trabalho (ela faleceu em março de 2006), não fez boa
escolha, juntamente a Eastwood, em recrutar atores fracos
como Adam Beach (caricato no papel do nativo Ira Hayes;
uma coisa é fazer "Códigos de Guerra", voltado
para uma estética de ação, outra é assumir um papel
dramático de peso) e Jesse Bradford (Deus, onde estavam
com a cabeça ao pinçar um "ator" como esse, com um currículo
pontuado por atuações notadamente ruins?), bem como
o claudicante Ryan Phillippe. O único papel, no elenco
inteiro, que surpreende muito positivamente por seu
desempenho cabe à rápida participação de David Patrick
Kelly, impressionante por sua caracterização do presidente
estadunidense Harry S. Truman.
A visão americana, em forma de filme, do conflito também
falha ao se debruçar em uma montagem ambiciosa demais
- a três tempos -, que atravanca a narrativa e desconsola
a platéia: simplesmente, a projeção não flui, arrítmica,
e se torna indigesto o ato de obter empatia pelo descortinamento
da trama. Já esta, só ganha genuinidade ao tratar da
verdadeira história por trás da célebre fotografia da
bandeira americana hasteada em solo japonês (fato que
ajudou a vender bônus de guerra, como a obra frisa).
No mais, a trama volta a apresentar, por meio das mãos
de um de seus autores, os já característicos momentos
"Paul Haggis", roteirista que confunde humanismo com
sentimentalismo excessivo e adora um apelo ao choro:
em uma seqüência próxima ao final de "A Conquista.."
só faltou entrar em cena o próprio Clint a desligar
os aparelhos hospitalares de um paciente em estado grave,
a exemplo do que fez seu personagem no dramalhão "Menina
de Ouro", para completar a indução ao pranto. Ainda
mais, a ode ao companheirismo dos soldados entoada pelo
roteiro de Haggis não se mostra tão original quanto
se louvou por aí. Basta recordar que "Além da Linha
Vermelha", dirigido por Terrence Mallick, passou
o mesmo recado, e de forma mais sutil e poética.
As cenas de combate de "A Conquista da Honra"
também não são de trazer fato novo, se resumindo a um
déjà vu daquelas de "O Resgate do Soldado
Ryan" e "Band of Brothers" e em quantidade
razoavelmente pequena. Pudera, a produção é de Spielberg,
tais o filme e a série de TV citados. Não procure aqui
um grande "filme de guerra" com todas as letras; como
"drama com fundo de guerra", "A Conquista.."
funciona de modo aceitável, e somente isso.
"Cartas..." rende mais, não apenas por mostrar
um elenco convincente no plano dramático, mas também
por sua direção firme e pela montagem linear com um
uso propício de flashbacks. É um filme muito
mais econômico e lírico em relação ao seu antecessor.
A história tem momentos memoráveis, créditos do roteiro
de Iris Yamashita (felizmente, aqui Haggis só entrou
com o argumento, o que diminui em muito os níveis de
pieguice), o qual se apóia na visão japonesa do combate,
a mostrar claramente a distinção entre os soldados orientais
e os americanos: os primeiros realmente não tinham de
medo de morrer pelo Império que defendiam. Um trunfo
substancioso do texto de Yamashita está em criar um
personagem de imediata identificação com o espectador
- o soldado Saigo (interpretado de forma brilhante por
Kazunari Ninomiya), um simples padeiro que se vê alçado
a lutar por sua pátria. Saigo que lembra um papel inesquecível,
o do Cabo Upham, vivido estupendamente por Jeremy Davies
no imortal "O Resgate do Soldado Ryan".
No final das contas, "Cartas de Iwo Jima" acabou
se tornando uma carta na manga de Eastwood. Ao se surpreender
pelo desempenho abaixo do esperado - tanto em público
como em crítica - de "A Conquista da Honra" nos
cinemas americanos, ao final do ano passado, diretor
e estúdio resolveram antecipar a estréia da chamada
"versão japonesa", prevista para entrar em cartaz nos
EUA somente em fevereiro, com o claro propósito de não
deixar o veterano diretor-ator de fora do Oscar, o que
seria humilhante a um cineasta tido por aclamado, como
é o caso dele. "Cartas..." seria a garantia da
presença do realizador no Oscar de 2008, já que ele
não está envolvido em projeto algum para um futuro próximo.
Clint "Dirty Harry" disparou sua bala-reserva, veremos
agora se ela acerta o alvo - os prêmios da Academia
para os quais foi indicada.
A CONQUISTA DA HONRA (Flags of Our Fathers,
2006)
Direção: Clint Eastwood.
Elenco: Ryan Phillippe, Adam Beach, Jesse Bradford,
Jamie Bell, Melanie Lynskey, Neal McDonough, David Patrick
Kelly.
COTAÇÃO: **
CARTAS DE IWO JIMA (Letters from Iwo Jima,
2006)
Direção: Clint Eastwood.
Elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi
Ihara, Ryo Kase, Shido Nakamura.
COTAÇÃO: ****
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