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FANTASIA
SOBRE UM TEMA DE TCHAIKOVSKY
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Adriano de Oliveira
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O Concerto para Violino e Orquestra de Piotr
Tchaikovsky é uma das peças para o instrumento de maior
dificuldade no gênero concerto erudito, ao lado do exuberante
Opus 26 de Max Bruch e dos dois exemplares deliciosamente
diabólicos de Niccolò Paganini. Essa obra está gravada
a fogo na memória do ex-maestro russo Andrei Filipov,
que teve, na trama ficcional de "O Concerto" ("Le
Concert", 2009), sua carreira interrompida em represália
a não se submeter a uma decisão do governo linha-dura
do então presidente soviético Brezhnev justamente numa
apresentação pública de tal peça.
Décadas depois, Filipov é uma sombra daquilo que foi,
trabalhando como faxineiro do famoso Teatro Bolshoi de
Moscou desde aquele episódio. Limpando o gabinete de seu
chefe, ele toma conhecimento de um convite enviado por
fax e vindo de Paris para uma apresentação da orquestra
do teatro por lá. O ex-regente esconde o convite de seu
superior e passa a pôr em prática uma absurda ideia: convocar
seus amigos que foram injustiçados pelo antigo regime
para se apresentarem no palco francês como se fossem a
própria formação oficial do conjunto sinfônico do lendário
teatro moscovita.
Você precisa abraçar esse argumento quase irracional para
poder desfrutar de "O Concerto" sem maiores incomodações.
A fuga da realidade, por exemplo, aqui se dá de um modo
mais intenso que em um dos filmes anteriores do romeno
Radu Mihaileanu, "Trem da Vida" (1998). Deste filme,
o diretor resgata aqui o humor judaico e o non-sense,
ainda que um bocado longe daqueles resultados mais que
efetivos obtidos anteriormente. E, se em "Trem da Vida"
o non-sense era visto como alívio cômico em meio a um
drama, aqui ele vai de mola-mestra e se acha deflagrado
em uma espiral crescente: da delirante proposta inicial
à apresentação em um teatro lotado de uma orquestra que
não ensaiou antes, tudo soa um bocado dalinesco.
O bom ator Aleksey Guskov interpreta Filipov, apoiado
em cena pelo trabalho competente de Dmitri Nazarov como
"Sasha" Grosman, o melhor amigo do antigo condutor de
orquestra. A bela Mélanie Laurent, um dos nomes principais
do elenco de "Bastardos Inglórios" - com quem "O
Concerto" faz par na absurdidade, por sinal -, ocupa-se
do papel de uma violinista de renome, saindo-se muito
bem. Houvesse de se apontarem similaridades com personagens
da vida real, Filipov equivaleria, embora em grau bem
menor, ao gênio Mstislav Rostropovich, maestro (e violoncelista
extraordinário) russo que teve de se exilar no exterior
por atritos com o governo da URSS, enquanto Anne-Marie
Jacquet (papel de Laurent) seria uma versão, na similaridade
física e no reconhecimento mundial, da Anne-Sophie Mutter
de duas décadas atrás, um raro talento do violino.
Ao abordar em si a realização do tal concerto que dá título
ao filme, Mihaileanu foge um pouco das convenções que
um suite master televisivo usualmente faria - o
uso de closes nos rostos, por exemplo, parece ter
a dupla função de maquiagem cinematográfica
e ampliação de emoções - ,
sendo que boa parte dessa fuga se acha apoiada pela montagem.
A mesma montagem que valoriza a dramaticidade em cena
é um veneno para a verossimilhança, pois quem não
conhece a peça em questão poderia pensar que ela possui
um movimento único (mesmo que usualmente não haja
pausa entre o segundo e o terceiro), assim como uma noite
de gala certamente não começaria com uma obra concertista,
conforme o sugerido. Neste ponto, também cabe uma crítica
ao modo com que o roteiro e o protagonista tratam de Sergei
Prokofiev, um compositor russo certamente menos conhecido
que Tchaikovsky, mas de quem não deveriam constituir suas
peças mera obrigação formal ou escada de repertório como
da maneira tão pouco grata com que são colocadas as obras
dele em diálogos na trama (nem é preciso dizer que sequer
são executadas em cena).
"O Concerto" representa, como já dissemos,
uma obra fílmica que inelutavelmente exige uma
cumplicidade para com ela de parte do espectador; algo
que nem todos, ou ao menos não pelo tempo todo, têm para
lhe dar em troca. Mesmo assim, guarda lá seus bons momentos,
seja em seu humor, seja no esforço de conclui-la de um
modo que arrebate e ao mesmo tempo resolva-lhe bem, dentro
do espírito que ela guarda.
O CONCERTO (Le Concert, França/Romênia/Rússia/Itália/Bélgica,
2009)
Direção: Radu Mihaileanu.
Elenco principal: Aleksey Guskov, Dmitri Nazarov,
Mélanie Laurent, Miou Miou, François Berléand.
Cotação: *** |
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