Aquele certo prestígio e o status de entretenimento popular bem-feitinho que Conan, o Bárbaro (1982) – direção de John
Milius e roteiro dele com Oliver Stone - granjeou,
foram caindo com as sequências que surgiram. Conan,
o Destruidor (1984) se encarregou de destruir,
com o perdão do trocadilho, parte dessa fama; tarefa
que foi arrematada com o duro revés perpetrado pela
mediocridade de Guerreiros do Fogo (1985), um spin-off da franquia. O experiente Richard
Fleischer (codiretor de Tora!
Tora! Tora! e realizador
do clássico da sci-fi No Mundo de 2020) sucumbiu a esses dois
fracos roteiros e pouco pôde fazer.
Talvez o golpe de misericórdia seja Conan, o Bárbaro (2011), que não é um remake do filme de 82, embora tenha uns pontos em comum com aquele.
Mesmo que mais fiel em seu cerne às histórias originais
do personagem criado por Robert E. Howard do que o
exemplar de há quase trinta anos atrás, o longa carece
de elementos que possam lhe dar melhor condição e
ameaça cair na vala comum de irrisórios filmes do
subgênero que aportam todo
santo mês nas prateleiras das locadoras. Para começo
de conversa, o diretor Marcus Nispel, especializado
em refilmagens e assemelhados, não possui a mesma
visão cinematográfica de qualidade que John Milius
(Dillinger – O Gângster dos Gângsters, O Vento e o Leão, Amanhecer Violento, bons exemplares fílmicos) tem – visão essa que
fez a diferença na versão antiga. O roteiro também
não colabora, ao querer costurar
uma cena de ação na outra (filmadas de modo genérico)
com breves intercalações rasas quanto ao conteúdo.
Um dos pontos fracos na obra primeva,
o semi-mutismo e as caretas desintencionalmente hilárias
de um limitado Arnold Schwarzenegger, é corrigido
de modo razoável aqui por Jason Momoa como
protagonista, ainda que lhe falte carisma. Por sinal,
carisma é o que mais se ausenta dos atores no filme
de Nispel. A mocinha é vivida por Rachel Nichols -
uma mistura física de Milla Jovovich com Jodie Foster
-, que se mostra bela, fria e fraca. O vilão Khalar
Zym acha sua cara em
Stephen Lang, o insuportável antagonista
de Avatar, que, supercaricato, não mete medo
nem dá raiva. A feiticeira interpretada por Rose McGowan carrega
uma incrível ironia: a maquiagem e a aparência da
mesma mais parecem uma “homenagem” ao ex-namorado
de Rose, o bizarro cantor Marilyn Manson, o qual possivelmente
assustaria bem mais caso estivesse no lugar dela –
e isso sem fazer força ou precisar de make-up
extra. Já Ron Perlman, pelo jeito não se cansou
de fazer o mesmo personagem pela enésima vez. Comparar
esse pessoal aos coadjuvantes de Conan da antiga é covardia, remember
James Earl Jones, Sandahl Bergman e Max Von Sydow.
A produção se revela um tanto descuidada
em vários setores, dos efeitos visuais –
estes, por vezes estéreis – à cenografia,
possibilitando deslizes caso formos rigorosos, tal
o de surgir em cena uma luneta em plena Era Hiboriana,
ou seja, um objeto que seria criado cerca de 13.500
anos depois (Eita civilização avançada, esses cimérios!),
assim como só não vê quem não quer, que o personagem
Khalar Zym está evidentemente usando uma dentadura,
de tão artificial que é a prótese do intérprete. A
trilha sonora de Tyler Bates se acha abaixo da média,
só aumentando a saudade do épico Basil Poledouris
oitentista, e o design das coreografias de luta lembra
aquele do abominável A
Vingança do Mosqueteiro, longa conduzido por um
Peter Hyams em franca decadência. Falta um tanto de
ousadia ao novo Conan.
Ah, se Paul Verhoeven tivesse dirigido a recente versão
de O Retrato de Dorian Gray e este filme, quanta diferença!
Enquanto isso, Conan, o Bárbaro, vai sendo barbarizado
por Hollywood.
CONAN,
O BÁRBARO (Conan
the Barbarian, EUA, 2011)
Direção: Marcus Nispel.
Elenco principal: Jason Momoa, Stephen Lang, Rachel Nichols, Rose
McGowan, Leo Howard, Saïd Taghmaoui, Ron Perlman.
Cotação: *