O TÁXI DO MEDO
Adriano de Oliveira
 
 

Pouco antes da projeção para a imprensa especializada porto-alegrense de "Colateral", o sábio crítico Hélio Nascimento vaticinou:

- Acho que vai ser um filmaço.

Como de costume, o mestre Hélio estava certo. O novo filme de Michael Mann é uma bela fita. Tem suas imperfeições, sim, mas é de um bom gosto indiscutível.

O roteiro é simples: taxista de Los Angeles (Jamie Foxx, bem em cena) conduz um passageiro aparentemente comum, que na verdade é um assassino profissional (Tom Cruise, na sua melhor atuação desde "Magnólia"), o qual forçosamente faz do motorista seu chofer particular em uma jornada de medo e execuções. Essa trama linear é ricamente explorada pelo diretor, que realiza um suspense convincente e pontuado de tensão.

A perspectiva colorida e dinâmica da cidade de L. A. à noite é o cativante pano de fundo com o qual Mann dá consistência às imagens, ganhando o complemento da discreta e apropriada trilha de James Newton Howard (com música adicional do brasileiro Antônio Pinto). Diálogos inspirados ora aliviam a tensão com bom humor, ora acentuam o drama psicológico. À exceção da pouco crível passagem do tiroteio na boate e de alguns poucos erros de encenação e continuidade, "Colateral" funciona com muita eficiência.

O diretor retorna a elementos utilizados em seus filmes anteriores. O diálogo do assassino com um músico em uma casa de jazz permite lembrar um pouco o face-a-face em um café de Al Pacino e De Niro em "Fogo Contra Fogo", descontraído e nervoso ao mesmo tempo. Deste, temos também a reminiscência da cena da estação do metrô, que o abria e agora serve de epílogo à produção presente. Se em "O Informante" havia um protagonista de cabelos grisalhos prematuros interpretado por Russell Crowe, aqui Cruise realiza tal papel. Mann resgata de seus trabalhos prévios, velhos conhecidos como Foxx, Bruce McGill e Debi Mazar, mas também traz o ótimo Javier Bardem.

Cruise, como vilão, dá uma credibilidade ainda maior a "Colateral", ao desmistificar a personificação do mal, que não depende de rosto ou expressão facial, podendo estar ao nosso lado, insidiosamente, colateralmente.

COLATERAL (Collateral, 2004)

Direção: Michael Mann.

Elenco: Tom Cruise, Jamie Foxx, Mark Ruffalo, Jada Pinkett Smith,Bruce McGill, Irma P. Hall, Jason Statham, Javier Bardem.

COTAÇÃO: ****