A SOPA DO BEM E DO MAL
Alexandre Mesquita
 
 
Jesus Cristo e Maria Madalena foram casados e ela seria o verdadeiro Santo Graal. Quando Jesus foi crucificado, Madalena fugiu para a França carregando em seu ventre um descendente do marido: uma menina. Em solo francês, quatro séculos depois, a descendência da descendência de Jesus casou-se com um nobre francês, fundando a linhagem dos reis Merovíngios. O segredo de sua origem foi durante séculos protegido por uma sociedade secreta, o Priorado de Sião, do qual teriam feito parte nomes como Leonardo da Vinci, Isaac Newton e o escritor Victor Hugo. Essa é a tese polêmica do famoso livro O Código Da Vinci, do escritor americano Dan Brown, baseada em supostas evidências provenientes de evangelhos apócrifos, histórias de cavaleiros Templários, obras artísticas, etcétera (na verdade, o livro Holy Blood, Holy Grail de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, lançado em 82 como não-ficção especulativa, trazia a tese pronta. O que Brown fez foi colocar o rótulo verdade incontestável e bolar uma trama policial). Implicações: várias. Uma, existem descendentes de Cristo hoje, caminhando entre nós, talvez torcendo na Copa do Mundo que há poucos meses foi realizada. Outra, o Novo Testamento foi golpeado em choque direto, que pode ocasionar uma ferida mortal nas religiões cristãs. Mais outra, fazer um filme com essa tese poderia render mais de um bilhão de dólares.

Aliás, o cinema já vinha servindo esse assunto em conta-gotas. Na Trilogia Matrix, encontramos Zion (Sião) e o Merovíngio. Em Stigmata, são mencionados os evangelhos apócrifos. Tenho impressão que Hollywood só esperava uma sopa que reunisse todos os ingredientes. E que sopa! Tão rica em nutrientes provocativos que parece capaz de garantir a própria imortalidade. Por exemplo, o documentário O Código da Vinci Revelado, da National Geographic, mostrou que a única prova da existência do Priorado de Sião, os Dossiers Secrets, descobertos na Biblioteca Nacional de Paris em 1975 pelo jornalista Pierre Plantard foram forjados pelo próprio, que na cara-dura inseriu seu nome entre um Luis XV e um Napoleão alguma coisa para passar por membro da realeza Merovíngia. Isso sim, seria uma ferida mortal. Mas a polêmica foi novamente encorpada pela mesma National Geographic, que meses depois, revelou ao mundo um documento datado possivelmente do século dois depois de Cristo, interpretado como o Evangelho de Judas Iscariotes, provavelmente escrito pela corrente cristã dos Gnósticos. Trazia uma visão também nada tradicional a respeito do homem mais odiado de todos os tempos. Para mim, totalmente leigo nesses assuntos, o mérito de O Código da Vinci e suas mídias é levar e instigar ao grande público conhecimento e reflexão sobre as origens do cristianismo. Agora sei que nos primeiros séculos depois da morte de Cristo existiram muitos evangelhos e correntes cristãs diferentes disseminadas pelo império romano e arredores. Os Evangelhos do Novo Testamento foram selecionados pelo imperador Constantino, primeiro todo-poderoso romano a se tornar cristão, com o critério de corroborar apenas textos que acentuassem a natureza divina de Jesus Cristo. Os Gnósticos e outras correntes da linha humana ficaram de fora. Mas suas palavras estão sendo (re)descobertas. No deserto egípcio de Nag Hammadi, em 1945, por exemplo, pastores encontraram o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Pedro e da própria Maria Madalena (a qual contribui muito para a sopa de Dan Brown). Chamados apócrifos devido às versões alternativas de Cristo e seus apóstolos. Naturalmente incomodam, naturalmente todo esse assunto vai muito longe e naturalmente não há a menor intenção aqui de abordá-lo. A referência a ele e sua complexidade instigante no imaginário popular foi feita para mostrar que a direção do filme O Código da Vinci, que os atores do filme O Código da Vinci, que o roteiro do filme O Código da Vinci talvez sejam os menores culpados por me obrigar a ir para a fila do cinema levando colchonete e comida para três dias, enquanto os produtores nadavam no um bilhão de renda.

Vamos ao dito cujo, O Código da Vinci (The Da Vinci Code, EUA, 2006) do diretor Ron Howard (Uma Mente Brilhante). O especialista em símbolos Robert Langdon (Tom Hanks, com cara de quem investiga o sumiço da própria interpretação) é chamado ao Museu do Louvre para analisar o cadáver do curador do museu, Jacques Sauniere (Jean Pierre Marielle), assassinado horas antes. A vítima estava pelada, em posição curiosa e escreveu estranhas palavras no chão com o próprio sangue. De cara, se percebe a necessidade desesperada do roteiro de costurar o máximo de informações históricas com as guinadas de cento e oitenta graus dos thrillers de polícia. Ao chegar no local, em três segundos Langdon percebe que Sauniere morreu plagiando um desenho de Leonardo Da Vinci, em oito segundos conhece a criptógrafa Sophie Neveu Plantard, neta de Sauniere (Audrey Tautou, a gracinha da Amelie Poulain), em treze segundos são velhos conhecidos e trocam informações praticamente sem respirar (parece uma conversa entre dois atendentes de 0800), em vinte e três segundos de raciocínio privilegiado, Langdon mata a charada do akadoaisf oioinajeaiuhoa kvoiajoea aoadijoi adoidfowh escrito em sangue. "É um anagrama, fala de Leonardo da Vinci e Mona Lisa", diz para Sophie. E Sophie, entusiasmada, estende o dedo e revela ao mundo o primeiro grande segredo do filme: "A Mona Lisa? Ela está logo ali". Langdon, que tinha a obrigação moral de cair na gargalhada, ou pelo menos falar o mais debochado que pudesse "Mona Lisa, aqui no Louvre? Não brinca!", só faltou olhar para o céu (ou para o chão como descobriremos no final) e agradecer à força maior que pôs aquela informação no seu caminho. O desenrolar das circunstâncias coloca Langdon como o principal suspeito da morte de Sauniere. Ele e Sophie são agora fugitivos da polícia francesa, e em especial do obstinado capitão de polícia Bezu Fache (Jean Reno, em seu habitat e no topo da cadeia alimentar), membro da congregação católica ultra-conservadora Opus Dei, chefiada pelo muito malvado bispo Aringarosa (Alfred Molina) que quer eliminar, através do monge albino Silas (Paul Bettany, de Uma Mente Brilhante e Wimbledon), qualquer resquício de um tal Priorado de Sião e de um tal segredo.

Com Langdon e Sophie fugindo para encontrar o verdadeiro culpado e seguindo a histórica Linha Rosa sob a qual estaria escondido o Santo Graal, o cinemão americano aproveita para saltar sobre a platéia como um canibal esfomeado. Fugas espetaculares por janelas, por caminhões de lixo e por aviões em movimento. Perseguições de carro espíritas (participei de um bookmaker para saber como Sophie com seu pequeno Smart conseguiu deixar os carros da polícia para trás passando por dois caminhões nas apertadas ruas de Paris. Pé-no-chão, apostei em tele-transporte e acho que ganhei). Música para extrair emoção na marra. Trama cheia de reviravoltas que não fecham ou são muito forçadas. E, como não poderiam faltar, cenários-pacotes-turísticos: Rennes-le-Chateuau, Abadia de Westminster, Igreja de Saint Sulpice, Igreja dos Cavaleiros Templários em Londres, e outros.

A tese polêmica é revelada ao espectador quando nossos heróis vão ao Chateau de Villette, casa do especialista em Graal, Leigh Teabing (Ian MacKellen). Teabing utiliza alta tecnologia para fazer um jogo de imagens envolvendo a pintura A Última Ceia de Da Vinci e insinua que o grande artista quis em suas obras dizer mais do que todo mundo pensava. Sophie treme as bases ao perceber que pode estar envolvida numa teoria conspiratória de dois mil anos.

Nesta altura do filme a tese mais revelada é a que explica o sumiço da interpretação de Tom Hanks. Na verdade não há interpretação por parte dele, e nem seria justo esperá-la, apesar do cachê. Ele e Ian MacKellen (alguns o acharam bem, mas acho que ele foi até seu arquivo de interpretações feijão com arroz e puxou a pasta personagem cínico e elegante, ou seja, o de sempre) precisam colocar quilos e quilos de informações sobre história geral e história da arte em duas horas e meia. Pra quem leu o livro, soa como piada. E a maioria do elenco ao pegar o script também sacou que não havia muito espaço para trabalho artístico original. Os poucos que tentaram algo mais, experimentaram resultados diferentes. Danoso para a boa Audrey Tautou, que compôs uma Sophie frágil e forte, decidida e perdida, criptógrafa e desinformada, e se tornou uma sensacional barata tonta. E ótimo para Paul Bettany e seu Silas Cilício, o monge albino que não vai com a própria cara, nem com as coxas, nem com as costas. Colocando um olhar aguado no horizonte e deixando-o lá todo o tempo em que venerava e matava, Bettany conseguiu um trabalho bem superior aos demais. Aproveitando este raro momento de aspectos positivos, exalto também a beleza bem sacada que foi a entrada da Última Ceia para revelar Maria Madalena/Santo Graal. Juro que vou ter aquele conjunto de datashow, computador e viva-voz quando eu crescer.

O roteiro de Akiva Goldsman (do bom Uma Mente Brilhante e do blearghhhhh! Batman e Robin) não foi de todo o fiel ao livro, algumas partes importantes nos acontecimentos e na psicologia dos personagens foram alteradas, mas acho que o muita coisa por dizer já justifica modificações na transposição para a tela grande.

Na balança cinematográfica, muita crítica de um lado e pouca coisa positiva do outro. O que temos? Superpondo gregos e troianos, temos uma entidade que, depois dos créditos finais, enquanto levantamos da cadeira, tiramos a pipoca do colo e caminhamos em direção à saída, olha na nossa cara e diz: "Tudo bem, pode me chamar de cinemão americano. Mas eu vi você segurando a guarda da cadeira nas minhas correrias que violam as leis da física, eu vi você com os olhos vidrados nas minhas reviravoltas absurdas, eu vi você emocionado com a minha forçada de barra no final. E nem perceber minhas duas horas e meia passando você conseguiu, oh, pobre vítima de uma sopa".

Há coisa mais irritante do que blockbuster com razão? Tudo culpa daquele Constantino ("Pô!" "É sim. E pára de dar volta nessa tumba!").

O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code, 2006)

Direção: Ron Howard.

Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Paul Bettany, Jean Reno, Jurgen Prochnow, Alfred Molina.

COTAÇÃO: ***