FRATERNIDADE NOS OMBROS
Alexandre Mesquita
 
 

A Argentina chegou a ser diagnosticada como morta por alguns economistas. E cinematograficamente isso foi a melhor coisa que aconteceu ao nosso país vizinho. Analisar, exorcizar, detonar a crise deu de comer para um inesgotável número de roteiros e roteiristas. Nessa malhação de Judas toda ninguém conseguiu falar mal tão bem da sua querida Argentina quanto Juan José Campanella. Campanella trabalha nos EUA dirigindo episódios de séries para TV como Law and Order. Mas, quando chegam as férias no hemisfério norte, ele corre de volta para casa e nos presenteia com delícias como O Mesmo Amor, A Mesma Chuva (1999) e O Filho da Noiva (2001). Em seu mais recente filme, Clube da Lua (Luna de Avellaneda, Argentina/Espanha, 2004), o diretor traz o urbanismo decadente como pano de fundo para nos convidar a mais uma degustação do socialismo romântico-existencial que tanto adora.

O Clube de la Luna de Avellaneda era um símbolo da força comunitária no distrito industrial de Avellaneda, em Buenos Aires. Román Maldonado (Ricardo Darín) nasceu na época que o Clube tinha oito mil sócios. Nasceu inclusive na frente dos oito mil sócios. Quarenta anos mais tarde, ou seja hoje, sobraram sessenta e dois sócios, goteiras e contas impagáveis. O que mantém o clube ativo é a persistência de alguns, como o presidente fundador Don Aquiles (José Luiz López Vázquez), a recém-divorciada Graciela (Mercedes Móran), o bebum gente-boa Amadeo (Eduardo Blanco) e o próprio Román, que sacrifica seus momentos de folga no táxi para manter a faxina em dia. Cada um deles pronuncia "manutenção do clube" como se falasse em nome de um ideal. O clube precisa continuar existindo, pela memória dos pais falecidos que o amaram, pela memória dos bons momentos vividos lá, pelo time de basquete que um dia merece a chance de terminar um campeonato na frente do último colocado, ou pelas crianças como Dalma (Micaela Moreno) que não têm dinheiro para comer, mas têm amor por dançar no clube. Porém, basta um olhar mais cuidadoso para perceber que o elo é mais embaixo. A vida de cada um deles é uma metáfora do estado do clube (ou vice-versa). Amadeo tenta conquistar a garota dos seus sonhos levando-a para um romântico passeio de barco por um canal de esgoto, Román não tem residência fixa e vive de colchão velho em colchão velho, e quem tem teto mora em prédios de condomínio que parecem brincadeiras de mau gosto, isso só para mencionar a parte rica. Contra eles, um sócio de muito bom papo e funcionário da prefeitura, Alejandro (Daniel Fanego), acha que a coisa mais inteligente que o clube pode fazer a si mesmo é virar um cassino. Todos os bate-bocas levam ao confronto final idealismo antigo versus pés no chão moderno.

O estilo Campanella vai familiarizando seu público. Como nas obras anteriores, cada personagem guarda uma história de encanto e humanidade, e a conta num momento-chave com o olhar vidrado pela paixão que ela representa. O humor continua do tipo vale o ingresso: a loja de perfumes com anexo na calçada, a retirada do aparelho dentário do filho de Graciela e, de novo, o Don Juan Amadeo convidando sua amada para jantar num restaurante escocês muito bom que ele conhece: a câmera corta para a entrada do McDonalds. A grande habilidade de Campanella com músicas-clima também está lá. Sem dúvida, é um diretor que nasceu com potencial para a boa relação com crítica e público. E há ainda o impressionante fator chamado elenco. Ricardo Darín, a presença mais representativa do atual cinema argentino, está se acostumando a interpretar Don Quixotes sociais, tendo como seu Sancho outro carismático, Eduardo Blanco. Excepcionais esses caras, é muito bom vê-los atuando. E no pacote vem junto a ótima Mercedes Moran, e o surpreendente, pelo menos para mim que não o conhecia, Daniel Fanego como um inescrupuloso de voz calma e presença hipnótica.

Entretanto, há pontos baixos. A trama é diversificada demais, muitos personagens tentando resolver muitos dramas e acabando em lugar nenhum. Algumas histórias soam confusas e duram, duram...e quando parece que vão para os finalmentes, duram mais ainda. Pior, não convencem que devemos ter algum apreço por elas. Quem conhece e admira sabe que isso é um problema sério para o estilo Campanella, que com sua equipe de roteiristas (Fernando Castets, Juan Pablo Domenech neste filme) busca sempre tornar o espectador um torcedor, um sofredor, um emotivo, enfim um ser humano em ação.

Mas também é muito relativo o quanto estes pontos baixos prejudicam Clube da Lua como bom filme. Seu real problema na verdade é outro, e de fácil diagnóstico: suceder o estupendo O Filho da Noiva. Eu o chamaria de "O Filho Azarado", um cara legal num momento exigente.

CLUBE DA LUA (Luna de Avellaneda, 2004)

Direção: Juan José Campanella.

Elenco: Ricardo Darín, Eduardo Blanco, Mercedes Morán, Daniel Fanego.

COTAÇÃO: ***