IDÉIA SEM CABEÇA
Alexandre Mesquita
 
 

Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. Com esta frase, um grande diretor brasileiro resumiu todo um modo de fazer cinema décadas atrás.

A nova brincadeira do produtor J.J. Abrams, criador das ótimas séries Lost e Alias, e diretor do fraquíssimo Missão: Impossível III, se chama Cloverfield - Monstro (Cloverfield, EUA, 2008) e partiu de uma idéia muito, mas muito interessante, facilmente resumida como A Bruxa de Blair encontra Godzilla, Meg Ryan e Tom Hanks em Nova York.

Rob (Michael Stahl-David) ganha uma promoção de vice-presidente em uma empresa e precisará se mudar para o Japão. O irmão Jason e a namorada deste, Lily (Mike Vogel e Jessica Lucas), organizam uma festa de despedida. Elisabeth (Odette Yustman) não garantiu presença. Rob ama Elisabeth desde a infância. Mas somente duas semanas antes da festa tiveram o primeiro e único contato amoroso. Depois Rob a esnobou. Elisabeth aparece na festa acompanhada de outro cara. Tensão. Rob confessa que a menosprezou porque teria de morar longe dela. Todo este imbróglio amoroso está sendo filmado pelo meio bobão Hub (T. J. Miller), cinegrafista de última hora, e apaixonado por uma tal de Marlena (Lizzy Caplan), que também aparece na festa. A coisa transcorre em direção ao pior quando, bum! Um prédio próximo está em chamas, ninguém sabe o que aconteceu. Outra explosão. Desespero, correria. Na rua, um vulto gigantesco aparece entre os prédios e de repente, melhor seqüência do filme, a cabeça da Estátua da Liberdade aterrisa na avenida. A câmera de Hub não perde nada, capricha no zoom. Tentativas de fuga da ilha e de sobrevivência misturadas com a persistência de Rob em recuperar o romance com Elisabeth, nem que morra levando todo mundo junto, se encarregam do meio e do fim.

A câmera tremida pode causar enjôo em alguns espectadores, o que será ótimo. A idéia é simular documentário amador real, tipo correspondente de guerra no meio do tiroteio. Os personagens, azar deles, devem ter atitudes condizentes com essa idéia e fugir de um monstro ao mesmo tempo. Se não, é violada a coerência interna da proposta. O maior problema é o espectador ter imagens para acompanhar o que está acontecendo, ou seja, a câmera não pode parar: como convencer que alguém prestes a ser esmagado que deve conseguir a imagem da gigantesca pata chegando? Penso que o diretor Matt Reeves e o roteirista Drew Goddard acharam uma saída interessante, incumbindo a maior parte das filmagens para o bobão da turma (mim receber ordem de filmar tudo, mim filmar tudo, mim o máximo). Se não satisfaz totalmente, pelo menos atenua a situação forçada.

Porém, o que não atenua é a história em si. Além de diálogos que diluem em água o desenvolvimento da mesma, guarda alguns pontos fracos, e eles conseguem dar a incrível impressão de que lidar com um monstro gigante do jeito que os personagens estão fazendo é fantasioso e/ou absurdo demais. Exemplo, o grupo a um passo de escapar, de repente aceita voltar para o perigo como fiéis escudeiros de Rob, que quer se redimir salvando a amada Elisabeth. O que Marlena, que mal conhecia ambos, está fazendo no meio?

Entrementes, o lance de apresentar o monstrão e derivados progressivamente é bem executado. Mantém firme o interesse. E, mais legal, no fim, mesmo com alguns closes mais camaradas, ficamos sem saber a forma completa do bicho. Se me pedissem para fazer um retrato falado, a polícia prenderia outro monstro. Jóia também o esquema do tempo de duração do filme, exatamente o mesmo de uma fita na filmadora.

Porém, fundamental mesmo são os atores, e A Bruxa de Blair deixou bem claro isso. No elenco não há ninguém que se destaque e nem ninguém terrivelmente mal. Mas na média, a galera ao gritar e correr daquele jeito, pouco fazem para esconder um debochado "o que eu tô fazendo aqui"? A birra mais ácida recai sobre o ator principal Stahl-David e seu Rob, que não consegue convencer nem a si mesmo que é alguém capaz de esquecer da própria vida por amor sem ficar segurando o riso.

Entre positivos e negativos, creio que Cloverfield - Monstro fica no zero a zero. O desempate pró-filme vem do fato de ele se apresentar como semente.

Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. Com esta frase um grande diretor brasileiro resumiu todo um modo de fazer cinema décadas atrás. Acho que tirando cabeça, que não é uma palavra que tenha muita importância nos filmes atuais, podemos terminar simplesmente com a idéia da câmera na mão e presenciar o nascimento de um novo jeito de fazer cinema. Imagine alguém com uma câmera, pode ser de celular mesmo, passeando no jardim de sua casa quando o Rambo pula o muro atrás de terroristas, ou vice-versa. Ou filmando um batizado quando o padre sai correndo atrás do padrinho com fama de vilão, e descobrimos que o padre era 007 disfarçado?

Ai do cameraman se perder um detalhe.


CLOVERFIELD - MONSTRO (Cloverfield, EUA, 2008)

Direção: Matt Reeves.

Elenco: Michael Stahl-David, Mike Vogel, Jessica Lucas, T. J. Miller, Lizzy Caplan, Odette Yustman.

COTAÇÃO: ***