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Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. Com
esta frase, um grande diretor brasileiro resumiu todo
um modo de fazer cinema décadas atrás.
A nova brincadeira do produtor J.J. Abrams, criador
das ótimas séries Lost e Alias, e diretor
do fraquíssimo Missão: Impossível III, se chama
Cloverfield - Monstro (Cloverfield, EUA,
2008) e partiu de uma idéia muito, mas muito interessante,
facilmente resumida como A Bruxa de Blair encontra
Godzilla, Meg Ryan e Tom Hanks em Nova York.
Rob (Michael Stahl-David) ganha uma promoção de vice-presidente
em uma empresa e precisará se mudar para o Japão. O
irmão Jason e a namorada deste, Lily (Mike Vogel e Jessica
Lucas), organizam uma festa de despedida. Elisabeth
(Odette Yustman) não garantiu presença. Rob ama Elisabeth
desde a infância. Mas somente duas semanas antes da
festa tiveram o primeiro e único contato amoroso. Depois
Rob a esnobou. Elisabeth aparece na festa acompanhada
de outro cara. Tensão. Rob confessa que a menosprezou
porque teria de morar longe dela. Todo este imbróglio
amoroso está sendo filmado pelo meio bobão Hub (T. J.
Miller), cinegrafista de última hora, e apaixonado por
uma tal de Marlena (Lizzy Caplan), que também aparece
na festa. A coisa transcorre em direção ao pior quando,
bum! Um prédio próximo está em chamas, ninguém
sabe o que aconteceu. Outra explosão. Desespero, correria.
Na rua, um vulto gigantesco aparece entre os prédios
e de repente, melhor seqüência do filme, a cabeça da
Estátua da Liberdade aterrisa na avenida. A câmera de
Hub não perde nada, capricha no zoom. Tentativas
de fuga da ilha e de sobrevivência misturadas com a
persistência de Rob em recuperar o romance com Elisabeth,
nem que morra levando todo mundo junto, se encarregam
do meio e do fim.
A câmera tremida pode causar enjôo em alguns espectadores,
o que será ótimo. A idéia é simular documentário amador
real, tipo correspondente de guerra no meio do tiroteio.
Os personagens, azar deles, devem ter atitudes condizentes
com essa idéia e fugir de um monstro ao mesmo tempo.
Se não, é violada a coerência interna da proposta. O
maior problema é o espectador ter imagens para acompanhar
o que está acontecendo, ou seja, a câmera não pode parar:
como convencer que alguém prestes a ser esmagado que
deve conseguir a imagem da gigantesca pata chegando?
Penso que o diretor Matt Reeves e o roteirista Drew
Goddard acharam uma saída interessante, incumbindo a
maior parte das filmagens para o bobão da turma (mim
receber ordem de filmar tudo, mim filmar tudo, mim o
máximo). Se não satisfaz totalmente, pelo menos
atenua a situação forçada.
Porém, o que não atenua é a história em si. Além de
diálogos que diluem em água o desenvolvimento da mesma,
guarda alguns pontos fracos, e eles conseguem dar a
incrível impressão de que lidar com um monstro gigante
do jeito que os personagens estão fazendo é fantasioso
e/ou absurdo demais. Exemplo, o grupo a um passo de
escapar, de repente aceita voltar para o perigo como
fiéis escudeiros de Rob, que quer se redimir salvando
a amada Elisabeth. O que Marlena, que mal conhecia ambos,
está fazendo no meio?
Entrementes, o lance de apresentar o monstrão e derivados
progressivamente é bem executado. Mantém firme o interesse.
E, mais legal, no fim, mesmo com alguns closes mais
camaradas, ficamos sem saber a forma completa do bicho.
Se me pedissem para fazer um retrato falado, a polícia
prenderia outro monstro. Jóia também o esquema do tempo
de duração do filme, exatamente o mesmo de uma fita
na filmadora.
Porém, fundamental mesmo são os atores, e A Bruxa
de Blair deixou bem claro isso. No elenco não há
ninguém que se destaque e nem ninguém terrivelmente
mal. Mas na média, a galera ao gritar e correr daquele
jeito, pouco fazem para esconder um debochado "o
que eu tô fazendo aqui"? A birra mais ácida recai
sobre o ator principal Stahl-David e seu Rob, que não
consegue convencer nem a si mesmo que é alguém capaz
de esquecer da própria vida por amor sem ficar segurando
o riso.
Entre positivos e negativos, creio que Cloverfield
- Monstro fica no zero a zero. O desempate pró-filme
vem do fato de ele se apresentar como semente.
Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. Com
esta frase um grande diretor brasileiro resumiu todo
um modo de fazer cinema décadas atrás. Acho que tirando
cabeça, que não é uma palavra que tenha muita
importância nos filmes atuais, podemos terminar simplesmente
com a idéia da câmera na mão e presenciar o nascimento
de um novo jeito de fazer cinema. Imagine alguém com
uma câmera, pode ser de celular mesmo, passeando no
jardim de sua casa quando o Rambo pula o muro atrás
de terroristas, ou vice-versa. Ou filmando um batizado
quando o padre sai correndo atrás do padrinho com fama
de vilão, e descobrimos que o padre era 007 disfarçado?
Ai do cameraman se perder um detalhe.
CLOVERFIELD - MONSTRO (Cloverfield, EUA,
2008)
Direção: Matt Reeves.
Elenco: Michael Stahl-David, Mike Vogel, Jessica
Lucas, T. J. Miller, Lizzy Caplan, Odette Yustman.
COTAÇÃO: ***
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