DÊ UM PAUSE NA SUA VIDA!!
Ricardo Rangel
 
 

"Click", de Frank Coraci, é uma grata surpresa, tanto em termos de comédia quanto em outros quesitos, a que ele se propõe e cumpre razoavelmente. Narrado em tom de fábula, com algumas boas piadas e outras nem tanto, mas são poucas a ponto de poderem ser "jogadas para debaixo do tapete" no resultado moral, esta surpreendente produção consegue abordar um tema recorrente nos tempos modernos, a saber, o stress pela correria do dia-a-dia, com bom humor e uma emotividade que bem poderia cair na pieguice e no sentimentalismo barato, mas não é isso que acontece no fim das contas. A história é engraçada, os atores estão à vontade em cena, e vale a pena investir quase duas horas em um filme que promete ser puro entretenimento, porém vai um pouco mais do que isso, principalmente se for visto despretensiosamente e com o espírito leve das comédias hollywoodianas. O porquê disto será desenrolado na seqüência.

Adam Sandler, um ator especialista em comédias e programas de TV engraçados, e que esteve impagável em "Embriagado de Amor", interpreta com muita naturalidade o arquiteto Michael Newman (quase um homônimo do compositor inglês Michael Nyman, que aparece no final de "Nove Canções", o clip-erótico de Michael Winterbottom), um sujeito altamente estressado com o seu trabalho, e que não tem tempo para a sua família, a esposa Donna (Kate Beckinsale, cada vez mais linda e meiga!), e seus dois filhos pequenos. A fim de resolver seus problemas (e bem num espírito de "seus problemas se acabaram", das Organizações Tabajara do "Casseta e Planeta"), Michael sai um dia à noite, agitadíssimo, em busca do "controle remoto universal", um aparelho imaginário e ideal que controlaria todos os seus eletrodomésticos.

Ao passar em frente a uma loja com o sugestivo nome "Casa, Banho e Além", Newman entra no estabelecimento, e vai na seção do "além", onde encontra Morty, um Christopher Walken parodiando o Dr. Emmet "Doc" Brown do seu xará Christopher Lloyd de "De Volta para o Futuro", um vendedor/cientista excêntrico e de cabelos em pé que oferta ao arquiteto o tão cobiçado controle, que vai além do esperado, mas na medida para seu desesperado usuário: é capaz de ordenar a vida de quem o utilizasse, fazendo o tempo parar ou acelerar ao gosto do usuário, que o empregaria em prol da sua comodidade e do seu bem-estar.

Ao sair da loja, Michael Newman não leva muita fé no Morty do além, mas ao passar a manusear o aparelhinho, vai aprendendo, aos poucos, a controlar o seu mundo, congelando momentos de estresse, viajando no tempo, para o passado ou para o futuro, na condição de espectador da sua vida, mas também interagindo com ela também e tendo o poder de transformá-la, de mudá-la. No entanto, as coisas saem do controle, literalmente, e Michael perde-se em sua própria vida, envolvendo-se em diversas situações-limite.

A vida "ideal" que ele criou para si não era tão ideal assim, e ele agora tem que fazer as coisas de modo diferente para ajustar a tudo e a todos à sua volta, como as suas conturbadas relações com a sua família e com o seu emprego. Para isso, tem que fazer um "bom uso" do controle remoto universal, e saber utilizá-lo correta e sabiamente, o que irá depender somente dele e das suas experiências lisérgicas e viajantes nessas suas inúmeras e estafantes "viagens temporais".

Quaisquer semelhanças, evidentemente guardadas as devidas proporções e intenções também, é claro, com "Efeito Borboleta" certamente não são coincidências. Independentemente de haver alguma relação entre estes filmes (e provavelmente não há mesmo, esta analogia é um mero exercício de imaginação, por favor!), "Click" deve ter a função de nos "ligar" mais no mundo, de fazer perceber no espectador, sutilmente ou nem tanto, a quanto está a sua vida, e se esta assemelhar-se um pouco à de Michael Newman, de procurar urgentemente um controle remoto universal, para dar um pause naquilo que está indo muito rápido, ou retroceder, um "rewind", no que se deve para mudar para melhor e fazer as coisas acontecerem de uma forma natural e saudável, ou ainda ir para a frente ("forward"), jogando e articulando tudo isso.

Há que se ajustar o "tracking" também, para a boa sintonia e imagem, e clicar no "slow-motion" se estiver tudo acelerado, ou dar um "ff" naquilo que está devagar demais e precisar de um "empurrão", ou até mesmo de deixar tudo correr livremente no "piloto automático". Fique "ligado" em "Click": vale a pena, não é apenas uma comédia - há espaço para refletir, também. E não esqueça, no final, de assistir aos "extras", que incluem, nos agradecimentos, a emocionada homenagem de Coraci aos seus entes queridos.

CLICK (idem, 2006)

Direção: Frank Coraci.

Elenco: Adam Sandler, Kate Beckinsale, Christopher Walken, David Hasselhoff.

COTAÇÃO: ***