|
"Click", de Frank Coraci, é uma grata surpresa,
tanto em termos de comédia quanto em outros quesitos,
a que ele se propõe e cumpre razoavelmente. Narrado
em tom de fábula, com algumas boas piadas e outras nem
tanto, mas são poucas a ponto de poderem ser "jogadas
para debaixo do tapete" no resultado moral, esta surpreendente
produção consegue abordar um tema recorrente nos tempos
modernos, a saber, o stress pela correria do
dia-a-dia, com bom humor e uma emotividade que bem poderia
cair na pieguice e no sentimentalismo barato, mas não
é isso que acontece no fim das contas. A história é
engraçada, os atores estão à vontade em cena, e vale
a pena investir quase duas horas em um filme que promete
ser puro entretenimento, porém vai um pouco mais do
que isso, principalmente se for visto despretensiosamente
e com o espírito leve das comédias hollywoodianas. O
porquê disto será desenrolado na seqüência.
Adam Sandler, um ator especialista em comédias e programas
de TV engraçados, e que esteve impagável em "Embriagado
de Amor", interpreta com muita naturalidade o arquiteto
Michael Newman (quase um homônimo do compositor inglês
Michael Nyman, que aparece no final de "Nove Canções",
o clip-erótico de Michael Winterbottom), um sujeito
altamente estressado com o seu trabalho, e que não tem
tempo para a sua família, a esposa Donna (Kate Beckinsale,
cada vez mais linda e meiga!), e seus dois filhos pequenos.
A fim de resolver seus problemas (e bem num espírito
de "seus problemas se acabaram", das Organizações Tabajara
do "Casseta e Planeta"), Michael sai um dia à
noite, agitadíssimo, em busca do "controle remoto universal",
um aparelho imaginário e ideal que controlaria todos
os seus eletrodomésticos.
Ao passar em frente a uma loja com o sugestivo nome
"Casa, Banho e Além", Newman entra no estabelecimento,
e vai na seção do "além", onde encontra Morty, um Christopher
Walken parodiando o Dr. Emmet "Doc" Brown do seu xará
Christopher Lloyd de "De Volta para o Futuro",
um vendedor/cientista excêntrico e de cabelos em pé
que oferta ao arquiteto o tão cobiçado controle, que
vai além do esperado, mas na medida para seu desesperado
usuário: é capaz de ordenar a vida de quem o utilizasse,
fazendo o tempo parar ou acelerar ao gosto do usuário,
que o empregaria em prol da sua comodidade e do seu
bem-estar.
Ao sair da loja, Michael Newman não leva muita fé no
Morty do além, mas ao passar a manusear o aparelhinho,
vai aprendendo, aos poucos, a controlar o seu mundo,
congelando momentos de estresse, viajando no tempo,
para o passado ou para o futuro, na condição de espectador
da sua vida, mas também interagindo com ela também e
tendo o poder de transformá-la, de mudá-la. No entanto,
as coisas saem do controle, literalmente, e Michael
perde-se em sua própria vida, envolvendo-se em diversas
situações-limite.
A vida "ideal" que ele criou para si não era tão ideal
assim, e ele agora tem que fazer as coisas de modo diferente
para ajustar a tudo e a todos à sua volta, como as suas
conturbadas relações com a sua família e com o seu emprego.
Para isso, tem que fazer um "bom uso" do controle remoto
universal, e saber utilizá-lo correta e sabiamente,
o que irá depender somente dele e das suas experiências
lisérgicas e viajantes nessas suas inúmeras e estafantes
"viagens temporais".
Quaisquer semelhanças, evidentemente guardadas as devidas
proporções e intenções também, é claro, com "Efeito
Borboleta" certamente não são coincidências. Independentemente
de haver alguma relação entre estes filmes (e provavelmente
não há mesmo, esta analogia é um mero exercício de imaginação,
por favor!), "Click" deve ter a função de nos
"ligar" mais no mundo, de fazer perceber no espectador,
sutilmente ou nem tanto, a quanto está a sua vida, e
se esta assemelhar-se um pouco à de Michael Newman,
de procurar urgentemente um controle remoto universal,
para dar um pause naquilo que está indo muito rápido,
ou retroceder, um "rewind", no que se deve para
mudar para melhor e fazer as coisas acontecerem de uma
forma natural e saudável, ou ainda ir para a frente
("forward"), jogando e articulando tudo isso.
Há que se ajustar o "tracking" também, para a
boa sintonia e imagem, e clicar no "slow-motion"
se estiver tudo acelerado, ou dar um "ff" naquilo
que está devagar demais e precisar de um "empurrão",
ou até mesmo de deixar tudo correr livremente no "piloto
automático". Fique "ligado" em "Click": vale
a pena, não é apenas uma comédia - há espaço para refletir,
também. E não esqueça, no final, de assistir aos "extras",
que incluem, nos agradecimentos, a emocionada homenagem
de Coraci aos seus entes queridos.
CLICK (idem, 2006)
Direção: Frank Coraci.
Elenco: Adam Sandler, Kate Beckinsale, Christopher
Walken, David Hasselhoff.
COTAÇÃO: ***
|