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Nina é uma esforçada bailarina de uma companhia de
balé de Nova York. Seus dias, como os de todos nessa
profissão, são inteiramente consumidos pela dança. A
jovem mora com a mãe, Erica, uma bailarina aposentada
e frustrada, que incentiva a ambição profissional da
filha e a trata como uma criança mimada, sem liberdade
ou privacidade.
A vida de Nina começa a mudar quando o diretor artístico
da companhia, Thomas Leroy, decide substituir a primeira
bailarina, Beth, na apresentação de abertura da temporada:
O Lago dos Cisnes, um balé dramático composto pelo russo
Tchaikovsky.
Apesar de Leroy ter Nina como primeira opção, Lily -
uma concorrente - aparece na companhia, deixando o diretor
dividido, já que a dança requer uma bailarina capaz
de interpretar tanto o Cisne Branco, com um ar inocente
e delicado, quanto o Cisne Negro, que representa a malícia
e a sensualidade. Nesse aspecto, Nina se encaixa perfeitamente
no papel do Cisne Branco, porém, Lily é a pessoa ideal
para o Cisne Negro.
As duas, então, desenvolvem uma amizade bastante conflituosa
e repleta de rivalidades, mexendo com os aspectos psicológicos
de Nina e fazendo com que essa bailarina descubra seu
lado mais sombrio em busca da perfeição.
Primorosamente dirigido por Darren Aronofsky, Cisne
Negro passa longe de ser um filme exclusivamente
sobre o mundo do balé. Utilizando a dança apenas como
pano de fundo, o longa transporta o espectador para
um verdadeiro espetáculo estético na tela grande. O
roteiro, assinado por Mark Heyman, Andres Heinz e John
J. McLaughlin não possui falhas, é bem desenvolvido
e totalmente amarrado do começo ao fim.
É impossível tirar os olhos da projeção. O filme prende
a atenção da plateia fazendo um jogo entre realidade
e ficção, tendo Nina, belamente interpretada por Natalie
Portman, como a personagem principal de diversos momentos
de paranoia.
Com ótimos planos e posicionamentos de câmera, Aronofsky
consegue surpreender ao criar uma obra tensa e claustrofóbica
envolvendo um tema tão frágil e delicado como o balé.
A fotografia, bastante contrastante entre preto e branco,
juntamente com o figurino, são excepcionais, e a trilha
sonora é digna de fazer o coração vibrar a cada tom
grave lançado pelas caixas de som.
Depois de mais de dez anos dedicados ao projeto, Aronofsky
nos entrega um filme de um nível dificilmente alcançado
no mainstream dos dias de hoje. Cisne Negro
ultrapassa a fronteira que existe entre cinema comercial
e cinema de arte, chegando facilmente à segunda opção,
mesmo sendo uma metáfora para a destruição da mesma,
como o próprio roteirista Mark Heyman explicou em uma
entrevista.
Natalie Portman, digna de todos os prêmios que ganhou
até agora, buscou a perfeição não somente no filme,
mas para fazê-lo também. A atriz perdeu dez quilos,
reaprendeu a dançar e, mesmo que seja por pouco tempo,
deixou a imagem de garota boazinha e mostrou que sabe
ser madura quando necessário, protagonizando uma história
perturbadora e angustiante, cheia de olhares e posturas
marcantes.
Mesmo que esteja classificado no gênero dramático, Cisne
Negro tem seus momentos tensos e sinistros graças
à ousadia de Aronofsky, aventurando-se em alguns aspectos
principais dos filmes de suspense psicológico, mostrando
violência, lesbianismo, sexo, delírios e processos espetaculares
de zoomorfização. Há quem reclame de alguns excessos
do diretor e de uma certa visceralidade, mas tudo é
muito sutil, incluindo os belíssimos efeitos visuais
e as brincadeiras com sombras e espelhos.
Não diria que Cisne Negro seja uma homenagem
somente ao balé - mesmo tendo a dança apenas como pano
de fundo. O longa é, de fato, uma veneração à arte.
Todas as perspectivas criadas por Aronofsky fazem com
que o espectador torne o filme bastante pessoal e interpretativo,
acompanhando, desde o começo, a transição de fases e
todos os problemas e esforços de Nina.
Ao final da exibição, a bailarina percebe que sua rival
não era Lily, mas ela mesma, e solta suas últimas palavras
ao som dos merecidos aplausos delirantes do teatro totalmente
lotado e permeado pela música clássica de Tchaikovsky,
adaptada por Clint Mansell. Palavras estas, que poderiam,
facilmente, descrever a obra de Aronofsky e a atuação
de Natalie: "Eu fui perfeita".
CISNE NEGRO (Black Swan, EUA, 2010)
Direção: Darren Aronofsky.
Elenco principal: Natalie Portman, Mila Kunis,
Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder.
Cotação: *****
*Artigo originalmente postado no site
"Horrere Nostrum" (http://horrerenostrum.com)
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