PARA QUEM ODEIA QUE O AMOR SEMPRE VENCE...
Alexandre Mesquita
 
 

Gianni (Kim Rossi Stuart) não suportou ouvir no hospital que a esposa morreu no parto, mas que o filho sobreviveu embora com complicações. Ele fugiu. Quinze anos depois, os tios que criaram o menino descobrem Gianni morando em Milão com outra família e o chamam para que leve o garoto para exames num hospital alemão. O filme As Chaves de Casa (Le Chiave di Casa, Itália, França e Alemanha, 2004), do diretor italiano Gianni Amelio (O Ladrão de Crianças), parte desse encontro (o passado é contado ao longo da narrativa) e portanto, deixa claro que gravitará em torno do tema descoberta entre pai e filho. Mas há um ingrediente que é a verdadeira identidade do filme: o menino Paolo (Andrea Rossi) é deficiente físico e mental. Do lado de cá da tela surge o receio, mais um filme de lições de que o amor sempre vence e músicas melosas...bleargh!! Mas para meio suspiro aliviado da platéia mais chata, as músicas melosas passam longe nessa película inspirada na obra Nati Due Volti do escritor Giuseppe Pontiggia.

A presença do ator mirim Andrea Rossi, deficiente na vida real que passou seis meses de preparação para o papel, dá uma honestidade à interpretação que surpreende por não ter muito a ver com a tradicional provocar pena e comoção, mas sim com a diversidade que se atribui como propriedade exclusiva das pessoas ditas "normais". Há momentos divertidos, como quando ele pede a um menino deficiente alemão que assistia televisão num quarto do hospital, se poderia trocar para o canal de esportes. Como ambos não falam o idioma um do outro, não se entendem e nada de futebol para Paolo, que sai resmungando meio brabo: "onde vamos parar". Em outros momentos Paolo é chato, muito chato, dá vontade de lhe mandar calar a boca ou até dar-lhe umas palmadas. E, claro, que há ternura e emoção também, e claro que tem a ver com o estado do garoto, mas não é daquele tipo. São sentimentos que aparecem junto com Gianni descobrindo o amor pelo filho e, pode se dizer, vice-versa.

Mas o universo dos deficientes não é relegado. O hospital serve como veículo para que ele seja exposto em dosagem respeitosa. Entra em cena a excelente Charlotte Rampling, como uma mãe paciente e zelosa pela filha com dificuldades de fala e locomoção, que ajuda Gianni, o pai inexperiente, a abraçar o filho neste universo. A narrativa dosa, porém não esconde os espinhos. A calma e zelo desta mãe escondem os demônios que rondam a vida da família de um deficiente. Dentro dela mora um desejo que é melhor confessar com um estranho do que com alguém da própria família, embora creio que exista uma versão dele dentro de cada um de nós. E é a sua versão desse desejo que Gianni aceita enfrentar ao decidir ficar com o filho. A cena final consegue um resultado raro, de calar a boca da platéia mais chata. Faz a sentença: "apesar das dificuldades o amor sempre vence", tão pasteurizada pelo mau uso de produções comerciais, soar legítima e botando para pensar. Um triunfo.

AS CHAVES DE CASA (Le Chiavi di Casa, 2004)

Direção: Gianni Amelio.

Elenco: Kim Rossi Stuart, Andrea Rossi, Charlotte Rampling, Alla Faerovich.

COTAÇÃO: *****