CREASY EM CRISE
Adriano de Oliveira
 
 

Finalmente, está em nossas telas "Chamas da Vingança". Digo finalmente porque, além da boa diferença entre o lançamento americano e aquele em terras nacionais, é um projeto de longa gênese. A epopéia começa no meio da década de 80. Inicialmente cogitado para assumir a direção, o então neófito Tony Scott foi preterido do cargo pelo fato de o estúdio lhe considerar sem currículo suficiente para abraçar a tarefa. Em seu lugar, um diretor francês pouco conhecido nos EUA, Elie Chouraqui, é designado para rodar "Man on Fire", filme de 1987 que aqui foi traduzido como "O Resgate Final", com Scott Glenn no papel principal e os nomes de Joe Pesci, Danny Aiello e Jonathan Pryce no elenco. Scott ficou tão desapontado que transformou em uma cruzada pessoal sua vontade de rodar este filme mais adiante, em um remake quando fosse adequado fazê-lo. Pouco mais de uma década depois, surgiu a oportunidade esperada. Para o papel do protagonista, a primeira opção foi Marlon Brando, que o recusou. Na seqüência, Robert De Niro, Will Smith e Bruce Willis também declinaram de assumir o personagem central Creasy. A escolha do diretor caiu então sobre Denzel Washington, o que se revelou, conforme sua representação neste filme, excelente opção.

A atuação de Washington como Creasy é convincente, mostrando um ex-agente da CIA com treinamento militar em operações especiais que vai à Cidade do México, notória pela quantidade monstruosa de casos de seqüestro, trabalhar como guarda-costas de Pita (Dakota Fanning, grande talento mirim, cheia de luz, expressivíssima), filha única de um casal. Creasy se mostra um sujeito alcoólatra, atormentado e à beira do suicídio, que reencontra o amor à vida no jeito meigo da criança a quem protege. Quando fracassa, ao não conseguir impedir o rapto da menina, mostra toda a sua determinação em uma austera caça aos seqüestradores dela.

O roteiro do consagrado Brian Helgeland é desenvolvido com andamento moderado pelo realizador ao longo de quase duas horas e meia. A primeira metade do filme explora com mais detalhe os personagens, em especial o guarda-costas e a menina, dando consistência e motivação ao enredo. A segunda parte é marcada por uma história de vingança ao melhor estilo de Charles Bronson.

Scott realiza, como de costume, seu tradicional virtuosismo estético nesta produção, crivando-a de um requinte visual que lhe é típico, forjado nas características do filme publicitário. Como em "Inimigo do Estado", outro produto de Tony, os créditos iniciais acompanham uma seqüência de abertura clipada, mostrando a questão em um plano geral para, no restante do rolo, ser abordada em particular.

A fotografia do competente Paul Cameron (de "60 Segundos") e a trilha sonora de Harry Gregson-Williams ("Inimigo do Estado", co-autor) - com a bem-vinda participação vocal de Lisa Gerrard - são complementos importantes ao panorama estético imposto por Scott. Os coadjuvantes também desempenham função significativa. Destaque para Christopher Walken, roubando a cena. Radha Mitchell, revelada em "Eclipse Mortal", não compromete. Rachel Ticotin ("O Vingador do Futuro") e Mickey Rourke (lembram dele?) aparecem surpreendentemente envelhecidos. Os brasileiros Gero Camilo e Charles Paraventi, de "Cidade de Deus" (filme que encantou Tony), fazem bonito em suas aparições em cena.

Apesar da temática delicada, "Chamas da Vingança" é salpicado de momentos de bom humor, o qual somente surge involuntário quando, nos créditos finais, um agradecimento à Cidade do México, pintada de horror durante a projeção, faz com que a boa vontade seja suplantada pela ironia. Um dos relativamente poucos deslizes de uma fita acima da média sobre o tema, superior inclusive ao congênere "Prova de Vida", de Taylor Hackford, com Russell Crowe e Meg Ryan.

CHAMAS DA VINGANÇA (Man on Fire, 2004)

Direção: Tony Scott.

Elenco: Denzel Washington, Dakota Fanning, Christopher Walken, Rachel Ticotin, Radha Mitchell, Giancarlo Giannini, Mickey Rourke.

COTAÇÃO: ***