REBOBINANDO A FITA
Adriano de Oliveira
 
 

Há uma maldição na fita. Só que tal praga não está apenas no objeto cênico de "O Chamado 2", mas também na quase totalidade de continuações de sucessos do gênero terror: essas fitas são amaldiçoadas por serem inferiores às suas respectivas predecessoras.

A seqüência do estrondoso sucesso de 2002, "O Chamado", não foge à regra. Se mostra esquálida quando comparada ao anterior em vários aspectos. Primeiramente, a história. A parte dois começa com um assassinato em uma cidadezinha isolada onde atualmente moram os dois sobreviventes da sina do filme primitivo - a jornalista Rachel (uma entediada Naomi Watts, estranhamente monolítica aqui; será culpa do diretor?) e seu filho Aidan (David Dorfman, mais soturno do que antes, entretanto também mais antipático e chato). Lógico, tal fatalidade está vinculada à volta de Samara, o mau espírito que reside em uma fita de vídeo e mata os espectadores da mesma. Esse é o elo de ligação entre o primeiro episódio e o segundo, servindo apenas de ponte para se suceder uma aborrecida história de possessão que toma conta da maior parte de "O Chamado 2". O filme apenas ganha algum vigor na "solução final" de seu epílogo, perfeitamente concatenada com a proposta da trama da película de 2002. Mas, além disto ser muito pouco, guarda ainda um desfavorável lugar-comum: o "gancho" para uma outra e inevitável continuação. Pode-se então notar que o interessante roteiro do antecessor, capaz de prender a atenção do público, está muito além da rasa história deste.

Os problemas não param por aí. Sem a direção de Gore Verbinski, "O Chamado 2" se revela desprovido de alma, com uma estética rala e insípida nas mãos de Hideo Nakata, que concebeu os episódios japoneses originais da série. Os sustos (se é que há) são previsíveis e os trunfos do primeiro filme são usados à exaustão, deixando um azedo gosto de déjà vu no ar. Há tanta reciclagem dos elementos da produção anterior, que nos desperta a sensação de estarmos vendo a mesma fita, (mal) rebobinada. E o que dizer de uma caricatural Sissy Spacek - a eterna "Carrie, a estranha" - que faz uma constrangedora ponta nesta história, a qual, como um todo, prima por sua fragilidade?

"O Chamado 2" apenas não é ainda pior porque, ao contrário de filmes como "Medo.Com" e o recente "Vozes do Além", não se preocupa em dar uma explicação física a elementos sobrenaturais. O modo como foi forjada a terrível fita de vídeo não é aqui explicado. Menos mal. Pelo menos, disto escapamos.

O CHAMADO 2 (The Ring Two, 2005)

Direção: Hideo Nakata.

Elenco: Naomi Watts, David Dorfman, Simon Baker, Elizabeth Perkins, Daveigh Chase, Sissy Spacek.

COTAÇÃO: *