|
O Castelo (1997) é um filme que não foi visto.
Pouco se encontra de comentários e críticas a respeito
do título de Michael Haneke. Alguns sites especializados
chegam a ignorá-lo ao elaborar filmografias do cineasta
alemão. Duas explicações para isto podem ser facilmente
identificadas: primeiro, foi lançado no mesmo ano de
Violência Gratuita (1997), que acabou se tornando
uma das principais referências de Haneke; segundo, trata-se
de uma versão do livro homônimo de Franz Kafka, e a
resistência em relação a adaptações de grandes escritores
é plenamente natural.
Quem conhece as produções de Haneke sabe de sua predileção
por formatos ousados e de seu flerte com o surrealismo.
Por isso, a escolha da obra de Kafka é atraente. Assim
como seus grandes clássicos O Processo e A
Metamorfose, esta é uma história sustentada por
uma grande e complexa alegoria e dotada de uma subversão
que foi transferida para o filme.
A trama é simples: K. (Ulrich Mühe) é um agrimensor
enviado a um vilarejo (de localização indefinida, como
é de praxe) a trabalho. Lá, descobre a existência de
um castelo misterioso, ao qual apenas alguns privilegiados
têm acesso. Ele decide conhecer o lugar a todo custo,
mas logo percebe que a tarefa não será fácil.
O que é o castelo? Por que K. quer tanto chegar até
lá? Por que há quem tente impedir que ele consiga? Se
não o querem lá, quem o mandou e por quê? Essas perguntas
tornam-se inevitáveis e, em um determinado momento,
perturbadoras (como manda o bom cinema hanekiano). Ilude-se
quem pensa que as respostas virão mastigadas em uma
reviravolta final. Não, não se trata de um policial
americano insosso. As dúvidas permanecem sem esclarecimento
mesmo após o término do filme, inclusive porque acaba
antes do fim da história (assim como o livro).
O Castelo tem suas qualidades. Haneke é impecável
na direção de atores. Encontramos atuações consistentes
até nos papéis secundários. E é preciso registrar que
o diretor faz algo raro: incluir um elemento que dê
à narrativa uma dose de humor, ainda que bem leve. Essa
função é cumprida pelos assistentes de K. (Frank Giering
e Felix Eitner).
Apenas quando o colocamos ao lado de outras obras de
premissa semelhante, como por exemplo A Professora
de Piano (2001), é que percebemos suas fragilidades.
Apesar de estarmos próximos do personagem em seu conflito,
sua personalidade não é suficientemente explorada, assim
como as situações que se apresentam em sucessão. Por
isso, falamos de um filme que aos poucos se torna tedioso,
abstrato e vazio. Faltou-lhe choque, poder e agressão.
Faltou-lhe, portanto, as especialidades de Michael Haneke.
O CASTELO (Das Schloss, Alemanha/Áustria,
1997)
Direção: Michael Haneke.
Elenco: Ulrich Mühe, Susanne Lothar, Frank Giering,
Felix Eitner, André Eisermann.
Cotação: **
Este artigo é parte integrante da série
de textos "Sextas-Feiras
com Haneke". Confira, pois a cada sexta há
a publicação de um artigo inédito.
|