UM ROMANCE METAFÍSICO
Adriano de Oliveira
 
 
O gênero romance é o preferido de muitos que vão ao cinema. Do épico ao cômico, há amores retratados na tela para todos os gostos. Um subgênero é o metafísico, não no sentido estrito da Filosofia, mas como sinonímia para "transcendente" e "além da Física", onde a paixão enfrenta obstáculos além da realidade explicável. O ícone mais popular desse ramo está em "Ghost - Do Outro Lado da Vida", sem dúvida, mas vários títulos podem se encaixar folgadamente nessa divisão, como o recente "Casa Vazia" ou já clássico "O Fantasma Apaixonado".

"A Casa do Lago" é romance metafísico puro. E não se envergonha de tomar liberdades para defender o amor a qualquer custo, acima das barreiras do mundo "natural". Senão vejamos sua sinopse: Kate (Sandra Bullock) é uma médica que residiu em uma casa à margem de um lago e começa a se corresponder com o novo habitante daquele lar (Keanu Reeves), de onde surge uma mútua simpatia que cede lugar à amizade e, posteriormente, à paixão - tudo à distância, sem se verem pessoalmente. Até aí, tudo corriqueiro, não fosse um detalhe: eles estão separados no tempo por uma diferença de dois anos, e a caixa postal da tal casa representa uma espécie de portal que lhes permite comunicarem-se por meio de cartas.

É isso que contabiliza a diferença essencial do filme. Somos convidados a torcer por esse implausível e inusual amor. O roteiro, ainda que com furos menores, quase consegue nos seduzir completamente, à exceção de uma opção por ele feita - para obter um determinado desfecho para a história, é atropelada a pouca lógica existente e daí resulta um enorme buraco na trama, que faz uma de suas passagens cruciais perder o sentido. E nem adianta recorrer ao efeito borboleta, tema de um ótimo filme no qual "A Casa do Lago" rapidamente se inspira, pois o grande plot hole aqui apresentado não tem como ser explicado à luz de tal fenômeno, uma vez que ele advém da interferência de duas linhas causais a partir do mesmo fato.

Parte da platéia nem percebe a mancada. Querem ver romance na tela a todo custo, e o roteiro não lhes importa. Outros preferem debater a conclusão da fita. Alguns ficam incomodados. Nesse ponto, a fita de Alejandro Agresti (de "Valentin") está longe de ser uma unanimidade. Acordo mesmo, só em torno do fato da direção interessante que o argentino faz, com belas tomadas e bem-vindos movimentos de câmera, com destaque para os travellings circulares.

Se Keanu Reeves e Sandra Bullock mostram uma certa química em cena (déjà vu de "Velocidade Máxima"), o problema é a Física do enredo: lembremos da defasagem temporal e da função da caixa postal como portal entre esses mundos (!). Então a Metafísica hollywoodiana entra em campo. No caso de "Ghost", ela representa o ingrediente que transforma o filme em obra de referência. Em "A Casa do Lago", se torna muleta do roteiro capenga e aríete em prol do triunfo do amor. Ah, o amor...

A CASA DO LAGO (The Lake House, 2006)

Direção: Alejandro Agresti.

Elenco: Keanu Reeves, Sandra Bullock, Shohreh Aghdashloo, Christopher Plummer, Dylan Walsh.

COTAÇÃO: **