UM CÃO DE BRIGA MAL ATIÇADO
Patrícia Benvenuti
 
 
Apenas a parceria entre atores tão distintos como Jet Li e Morgan Freeman deveria ser um bom argumento para se ir ao cinema conferir "Cão de Briga" ("Danny the Dog"), do diretor Louis Leterrier. Pena para os que esperavam um bom filme de ação misturado com toques dramáticos. Ficaram na expectativa e na frustração, pois nem mesmo a dupla de peso conseguiu um efeito positivo.

Danny (Jet Li) foi criado literalmente como um cão. Para mãos e pés serem patas, obedecer ao dono Bark (Bob Hoskins) e morder, de forma cruel, quando acionado, chegando mesmo a matar. A mistura de homem e animal precisa defender também os gângsters comparsas de seu criador, em um mundo violento e rápido (obra de um excelente trabalho de edição).

A ação deveria, mesclar-se, nesse momento, com o drama. Depois de um acidente de carro, Danny foge e entra em um depósito abandonado. Lá encontra Sam (Morgan Freeman), um afinador de pianos cego que, já na primeira conversa, ensina algumas notas musicais à criatura assustada.

Um dos problemas do longa, na verdade, é que essa combinação de diferentes gêneros artísticos não encontra uma boa sintonia, e a razão é a falta de qualidade dos dois. O curioso é que, no início da projeção, a rapidez dos acontecimentos, com Danny lutando e indo para a jaula, é capaz de tirar o fôlego dos espectadores, que esperam, a partir de então, um longa de qualidade. A velocidade realmente tira o fôlego, que não é recuperado nas cenas em que Sam e a enteada Victoria (Kerry Condon) tentam, de uma forma meiga, ensiná-lo a viver de forma civilizada com os sentimentos de um ser humano.

Nem mesmo Freeman, em mais uma boa atuação, conseguiu o efeito dramático necessário. Talvez porque a verossimilhança passe longe do roteiro. Sem nem mesmo conhecê-lo, o afinador de pianos leva Danny para viver em sua casa, desejando que pertença à família que, até então, era constituída apenas por Victoria e ele. É preciso destacar, aqui, a falta de química entre o cão e o afinador de pianos, como se cada um permanecesse em seu universo distinto e não conseguisse alcançar o outro.

Li destaca-se no filme, é inegável, bem como Hoskins. Nada disso, no entanto, tira do filme o tom maniqueísta. As provas são as lutas que apresentam lutadores-máquina, indestrutíveis, que levam socos, pontapés, tiros e, nem assim, caem na arena. Vários personagens, inclusive Danny, poderiam ter morrido em uma dessas seqüências, pois são forçadas a tal ponto que se assemelham a histórias em quadrinhos da pior qualidade - do tipo dez contra um.

O aspecto psicológico, que se tornaria o mais interessante, é pessimamente explorado. Afora um bom jogo de ângulos que levam à impressão de que o ponto-de-vista do espectador é o de um cão, a relação entre os demais elementos da película, em especial o roteiro, é de superficialidade. Pode um homem ser criado como algo que não é? Pode ele submeter-se a uma metamorfose posterior? Questões como essas, mais do que pertinentes, cedem sua importância a clichês de brigas sangrentas e famílias felizes.

CÃO DE BRIGA (Danny the Dog, 2005)

Direção: Louis Leterrier.

Elenco: Jet Li, Morgan Freeman, Bob Hoskins e Kerry Condon.

COTAÇÃO: **