"O Cachorro"
(El Perro)
de Carlos Sorin
André Dornelles Pares
 
 

A Argentina é de fato pródiga em belas metáforas. Veja-se o tango; não há melhor representação para um pouco de tudo que envolve a latinidade. No meio do salão estão as três características que não se pode abandonar, nem esquecer: a Argentina é um país sul-americano, e nessa condição, não há como se apartar de outros dois prodígios nossos, latinos; a mistura, e um certo exagero.

"O Cachorro" faz algo que "O Filho da Noiva" já tinha deixado evidente: um personagem encarna a própria Argentina. Trata-se de um recurso no mínimo inteligente do uso do cinema, se este é encarado realmente como um meio de autoconhecimento. Quando chega ao ponto de metaforizar um grupo, mesmo que seja um país, a base está pronta para o personagem andar, e o que deve evidenciar-se a partir daí é a condução de seu responsável maior: antes do próprio ator, o diretor.

No caso de "O Cachorro", estaria no título do filme a impossibilidade dessa responsabilidade ficar pesada para Sorin. A sua grande representação é um bicho. O que logo deixa evidente, em relação ao filme de Campanella, duas diferenças. Uma, a de que a metáfora de Sorin é genérica, desde que se refere ao povo, enquanto a do Filho da Noiva é específica, referindo-se ao país, ou seja: os argentinos que vivem como cachorros no filme de Sorin habitam uma Argentina esclerosada, doente e senil, mas não por isso menos doce no papel dado por Campanella a Norma Aleandro em seu filme. A outra diferença fica em relação aos personagens satélites; nos dois casos, os que levam o filme, porém construídos por Campanella, e abandonados por Sorin.

Se em "O Filho da Noiva" a representação parece real porque os atores interpretam personagem no centro de onde o grande problema social acontece - a cidade -, em "O Cachorro" tudo soa um pouco forçado justamente porque os não atores são praticamente eles mesmos no lugar onde o problema escoa (ou nasce) - o interior. Sorin quer tirar o foco do olho da tempestade para investigar, talvez, com mais desprendimento e menos responsabilidade social as conseqüências (ou nascedouro) da crise. E nesse sentido, consegue o que quem sabe fosse seu maior objetivo: ultrapassar o discurso social que acaba dizendo sempre o mesmo e propondo as soluções redundantes da hora (não que esse seja o caso de "O Filho da Noiva"). Em "O Cachorro", ele se esquiva, e bem, da tentação de propor soluções, e se ocupa apenas em acompanhar seus personagens.

Contudo, para não ser um documentário, algo ficcional é preciso que se construa. E talvez seja aí que o filme se atrapalhe. O desconforto é gerado quando se nota o exagero da simplicidade, e a mistura de intenções. Tudo está bem montado no início: os cachorros latindo antes da primeira fala do filme, o protagonista Juan Villegas vendendo facas tal qual um cão para operários que trabalham como cães, e livrando-se do policial que é subornado com uma faca como um cachorro. Sabe-se aí, logo, o que o diretor pretende mostrar. Entretanto, Sorin é um cineasta provindo da publicidade - e nisso não há mal algum desde que não se traga desta área a prototipicação dos personagens. O artifício é válido e necessário lá, mas pouco aqui, no cinema, principalmente neste a que se propõe o diretor.

É compreensível que não se possa exigir muito além de apatia a Villegas. E no momento em que Sorin sabe disso, exagera para dois lados. Num, ao enfatizar a indiferença no permanente sorriso de desamparo estampado no rosto do (não) ator, e noutro, por ao perceber isso, incluir o personagem de Walter Donado, treinador de cães, dotado de um entusiasmo muito grande. Acontece um descompasso entre ambos que fica esteticamente bom, mas de conteúdo confuso. Como Villegas traz cara e comportamento de vítima desde a primeira cena, instala-se um clima de tensão que o filme não comporta. Sorin deixa transparecer que a qualquer momento o cachorro ganhado por Villegas como um brinde, que lhe trouxera companhia, algum dinheiro, pequena fama e até uma mulher, possa ser roubado por quem tornou tudo isso possível; seu amigo treinador. Nessa mistura de estilos, pois se ensaia também um romance que pouco adiciona em termos de emoção ou construção de personagem, instaura-se um suspense que se sobrepõe ao tranqüilo sistema de observação proposto primeiramente pelo diretor.

Todavia, trata-se de uma miscelânea também tranqüila o que acaba se transformando a história de Sorin. Talvez por isso, tenha tentado salvá-la através da trilha sonora. Ardil pelo qual acaba igualmente não sendo feliz. Pois se sua pretensão era a do mínimo possível, a música acaba dando a impressão de querer tornar máxima cada cena em que toca: a máxima tristeza, o máximo desconsolo; a máxima desesperança. Idéia da qual ainda tenta se desvencilhar no fim. Mas então já é tarde, porque a solução de rumar para a capital é tão velha quanto o próprio êxodo, ainda mais se ele for à direção de Buenos Aires, e fechar um filme que todo tempo homenageia o oposto. Ou Sorin se rende a ter que oferecer uma solução, justamente para mostrar que não há.

05.07.2005

O CACHORRO (El Perro, 2004)

Direção: Carlos Sorin.

Elenco: Juan Villegas, Walter Donado, Micol Estévez, Claudina Fazzini, Rosa Valsecchi.