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A Argentina é de fato pródiga em belas metáforas. Veja-se
o tango; não há melhor representação para um pouco de
tudo que envolve a latinidade. No meio do salão estão
as três características que não se pode abandonar, nem
esquecer: a Argentina é um país sul-americano, e nessa
condição, não há como se apartar de outros dois prodígios
nossos, latinos; a mistura, e um certo exagero.
"O Cachorro" faz algo que "O Filho da Noiva"
já tinha deixado evidente: um personagem encarna a própria
Argentina. Trata-se de um recurso no mínimo inteligente
do uso do cinema, se este é encarado realmente como
um meio de autoconhecimento. Quando chega ao ponto de
metaforizar um grupo, mesmo que seja um país, a base
está pronta para o personagem andar, e o que deve evidenciar-se
a partir daí é a condução de seu responsável maior:
antes do próprio ator, o diretor.
No caso de "O Cachorro", estaria no título
do filme a impossibilidade dessa responsabilidade ficar
pesada para Sorin. A sua grande representação é um bicho.
O que logo deixa evidente, em relação ao filme de Campanella,
duas diferenças. Uma, a de que a metáfora de Sorin é
genérica, desde que se refere ao povo, enquanto a do
Filho da Noiva é específica, referindo-se ao
país, ou seja: os argentinos que vivem como cachorros
no filme de Sorin habitam uma Argentina esclerosada,
doente e senil, mas não por isso menos doce no papel
dado por Campanella a Norma Aleandro em seu filme. A
outra diferença fica em relação aos personagens satélites;
nos dois casos, os que levam o filme, porém construídos
por Campanella, e abandonados por Sorin.
Se em "O Filho da Noiva" a representação parece
real porque os atores interpretam personagem no centro
de onde o grande problema social acontece - a cidade
-, em "O Cachorro" tudo soa um pouco forçado
justamente porque os não atores são praticamente eles
mesmos no lugar onde o problema escoa (ou nasce) - o
interior. Sorin quer tirar o foco do olho da tempestade
para investigar, talvez, com mais desprendimento e menos
responsabilidade social as conseqüências (ou nascedouro)
da crise. E nesse sentido, consegue o que quem sabe
fosse seu maior objetivo: ultrapassar o discurso social
que acaba dizendo sempre o mesmo e propondo as soluções
redundantes da hora (não que esse seja o caso de "O
Filho da Noiva"). Em "O Cachorro", ele se
esquiva, e bem, da tentação de propor soluções, e se
ocupa apenas em acompanhar seus personagens.
Contudo, para não ser um documentário, algo ficcional
é preciso que se construa. E talvez seja aí que o filme
se atrapalhe. O desconforto é gerado quando se nota
o exagero da simplicidade, e a mistura de intenções.
Tudo está bem montado no início: os cachorros latindo
antes da primeira fala do filme, o protagonista Juan
Villegas vendendo facas tal qual um cão para operários
que trabalham como cães, e livrando-se do policial que
é subornado com uma faca como um cachorro. Sabe-se aí,
logo, o que o diretor pretende mostrar. Entretanto,
Sorin é um cineasta provindo da publicidade - e nisso
não há mal algum desde que não se traga desta área a
prototipicação dos personagens. O artifício é válido
e necessário lá, mas pouco aqui, no cinema, principalmente
neste a que se propõe o diretor.
É compreensível que não se possa exigir muito além
de apatia a Villegas. E no momento em que Sorin sabe
disso, exagera para dois lados. Num, ao enfatizar a
indiferença no permanente sorriso de desamparo estampado
no rosto do (não) ator, e noutro, por ao perceber isso,
incluir o personagem de Walter Donado, treinador de
cães, dotado de um entusiasmo muito grande. Acontece
um descompasso entre ambos que fica esteticamente bom,
mas de conteúdo confuso. Como Villegas traz cara e comportamento
de vítima desde a primeira cena, instala-se um clima
de tensão que o filme não comporta. Sorin deixa transparecer
que a qualquer momento o cachorro ganhado por Villegas
como um brinde, que lhe trouxera companhia, algum dinheiro,
pequena fama e até uma mulher, possa ser roubado por
quem tornou tudo isso possível; seu amigo treinador.
Nessa mistura de estilos, pois se ensaia também um romance
que pouco adiciona em termos de emoção ou construção
de personagem, instaura-se um suspense que se sobrepõe
ao tranqüilo sistema de observação proposto primeiramente
pelo diretor.
Todavia, trata-se de uma miscelânea também tranqüila
o que acaba se transformando a história de Sorin. Talvez
por isso, tenha tentado salvá-la através da trilha sonora.
Ardil pelo qual acaba igualmente não sendo feliz. Pois
se sua pretensão era a do mínimo possível, a música
acaba dando a impressão de querer tornar máxima cada
cena em que toca: a máxima tristeza, o máximo desconsolo;
a máxima desesperança. Idéia da qual ainda tenta se
desvencilhar no fim. Mas então já é tarde, porque a
solução de rumar para a capital é tão velha quanto o
próprio êxodo, ainda mais se ele for à direção de Buenos
Aires, e fechar um filme que todo tempo homenageia o
oposto. Ou Sorin se rende a ter que oferecer uma solução,
justamente para mostrar que não há.
05.07.2005
O CACHORRO (El Perro, 2004)
Direção: Carlos Sorin.
Elenco: Juan Villegas, Walter Donado, Micol
Estévez, Claudina Fazzini, Rosa Valsecchi.
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