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Ao tentar fazer uma distinção entre o terror e o suspense,
Alfred Hitchcock afirmou que o segundo é induzido pelo
aviso prévio. Ou seja, a situação de suspense é criada
quando já sabemos que algo pode acontecer a qualquer
momento, ao contrário do terror, que existe em função
da surpresa, do que não esperávamos. Apenas esta breve
definição é suficiente para entendermos a grandeza do
trabalho de Michael Haneke em seu Caché (2005).
No centro da história, que se passa em Paris, estão
o apresentador de TV Georges (Daniel Auteuil), sua esposa
Anne (Juliette Binoche) e Pierrot (Lester Makedonsky),
o único filho do casal. A família de classe alta é atormentada
com a chegada de uma fita de vídeo que contém longa
gravação da entrada de sua casa, acompanhada de um desenho
agressivo. Nos dias seguintes, novos desenhos e fitas
aparecem, e uma revela imagens da casa onde Georges
passou a infância. Logo, a perseguição é associada a
um episódio de seu passado, que envolve um argeliano
chamado Majid (Maurice Bénichou), adotado pelos pais
do apresentador.
Se em títulos como O Tempo dos Lobos (2003),
Haneke faz uso de elementos simbólicos para provocar
o espectador, aqui acontece o oposto. O roteiro inteligente
e a competente direção de atores formam um conjunto
que marca pelo realismo. A este se soma a ousadia técnica,
que aqui aparece equilibrada, para criar um clima de
tensão contínua e crescente, a qual é o brilho do filme.
Essa ousadia consiste em basicamente dois instrumentos:
a ausência de trilha sonora, opção freqüente nas produções
do diretor, e a técnica do "filme dentro do filme",
com a qual Haneke brinca de forma magnífica. As imagens
das fitas se confundem, em vários momentos, com as do
próprio filme. O espectador é desafiado a entender do
que se trata a imagem que vê e, assim, é mergulhado
junto com os personagens na complexidade da situação
retratada.
Por trás de todo o incômodo do episódio, encontramos
a crítica social, sempre presente nas obras hanekianas,
embora aqui possa até passar despercebida por nossos
olhos, em função de sua especificidade. O conflito dos
franceses com estrangeiros que vivem no país é um problema
que dificilmente será identificado fora dele, ou ao
menos fora da Europa. Vencida essa barreira, encontramos
uma temática bem trabalhada.
Este não é o mais subversivo dos trabalhos de Haneke,
mas indubitavelmente o melhor. Caché é um filme
poderoso, que envolve o seu público em uma tensão que
começa nos primeiros instantes e, acertadamente, não
termina. Se o suspense é a espera por algo que vai acontecer,
aqui nada acontece, a não ser o aumento do desconforto.
Como sempre, terminamos o filme com uma dúvida perturbadora.
Essa é a arte de Michael Haneke.
CACHÉ (Caché, França, 2005)
Direção: Michael Haneke.
Elenco: Juliette Binoche, Daniel Auteuil, Maurice
Bénichou, Lester Makedonsky.
Cotação: *****
Este artigo é parte integrante da série
de textos "Sextas-Feiras
com Haneke". Confira, pois a cada sexta há
a publicação de um artigo inédito.
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