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O cineasta Michael Haneke, nascido na Alemanha em meio
à II Guerra Mundial e criado na Áustria, é uma espécie
de "Hitchcock sociológico". Em seus filmes, há tensão,
drama e suspense caminhando lado a lado com uma forte
crítica social, esta assessorada de uma visão perspicaz
do depauperamento das relações humanas.
Em obras anteriores - como os elevados "Funny Games
- Violência Gratuita", "Código Desconhecido"
e "A Professora de Piano", - Haneke prioriza
o relato de uma sociedade que prima pela falta de diálogo,
pela má convivência de seus membros, pela discriminação,
pelos desvios de conduta. Fatores que podem ser verificados
em qualquer nicho social, mas que afetam essencialmente
a burguesia em todo seu estrato interno, segundo teorema
que propõe o diretor.
"Caché" não foge a esse tipo de abordagem, mesclada
a um estilo fílmico marcado por planos longos, câmera
fixa, cortes parcimoniosos, closes eloqüentes,
finais abertos. Algo que, como se pode supor, deverá
não agradar a todos os públicos. Apreciar Haneke envolve
ter paciência e saber que ele dispõe os problemas, mas
não as soluções. Quem quiser entretenimento fácil e
finais herméticos, redondinhos, fechados, deve passar
longe de obras como esta, que fazem o espectador pensar
para muito depois do acender das luzes do cinema.
No filme, Georges Laurent (Daniel Auteuil, arrasador
em cena) é um apresentador de um talk show cultural
numa emissora francesa de TV. Casado com Anne (Juliette
Binoche, para quem o tempo evidentemente passou e deixou
marcas) e pai de um filho, Pierrot (Lester Makendonsky),
vive com eles um lar aparentemente feliz, uma família
supostamente pacata. Mas esse panorama de tranqüilidade
começa a mudar quando a casa dos Laurent passa a receber
uma série de fitas de vídeo, as quais mostram que eles
estão sendo filmados e que o autor das gravações sabe
muito mais do que se pensa sobre o patriarca da família.
A partir de então, um redemoinho de medo, desconfiança,
mentiras e mistério toma conta do outrora lar, doce
lar.
Essa esfera de suspense é utilizada para abrigar um
estudo amplo. Este vai dos atos do passado escondidos
nos porões da consciência humana e as conseqüências
do egoísmo e da vaidade, até a falta de comunicação
e de entendimento entre os indivíduos. Aborda igualmente
as questões da perda de privacidade e da inocência perdida.
Passa também por uma metáfora das relações Primeiro
Mundo-Terceiro Mundo e faz a interessantíssima
inserção da imagem ela-mesma como um personagem da história
e não apenas como um suporte da narrativa. Haneke é
dono de um manancial de boas idéias e as faz fluir,
muitas vezes de maneira complexa, nos convidando à reflexão.
CACHÉ (idem, França/Áustria/Alemanha/Itália,
2005)
Direção: Michael Haneke.
Elenco: Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice
Bénichou, Lester Makendonsky, Walid Afkir.
COTAÇÃO: *****
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