LEÃO NEESON OU LIAM BRONSON
Adriano de Oliveira
 
 
Se Stallone, em um passado recente, ressuscitou a nostalgia da ação dos anos 70 e 80 com os derradeiros exemplares de "Rocky" e "Rambo", os roteiristas Luc Besson e Robert Mark Kamen, mais o diretor Pierre Morel, trazem sua contribuição a essa onda de revival com "Busca Implacável" ("Taken", França, 2008), exemplar policial típico do subgênero "justiceiro" que habitou um número considerável de títulos naquelas décadas.

O filme é protagonizado por Liam Neeson, que interpreta o espião americano aposentado Bryan Mills. Quando a filha dele (Maggie Grace - sósia de uma Deborah Secco mais jovem -, conhecida por sua participação na série televisiva "Lost") é seqüestrada em Paris por uma gangue de traficantes de mulheres, o ex-agente da CIA reacende as habilidades de seu passado para, em uma procura desenfreada contra tudo, todos e o tempo, localizar o paradeiro da garota. A presença de um ator do calibre de Neeson se torna determinante para o êxito do filme: a transição de um calmo pai divorciado - e por isso pouco conhecedor da filha sob a guarda da ex-esposa - para um leão despertado, que se dispõe a enfrentar os perigos de um mergulho no submundo, se torna crível a partir de feições, posturas vocais e gestos que seu intérprete é capaz de fazer sem forçar a barra.

Não há de se negar, o tempo e os papéis recentes ajudaram Liam na composição de Bryan. A idade moldou seu rosto de ar mais seco, levemente vetusto; foi-se uma certa bonacheirice típica da face de tempos idos. Personagens pedindo experiência de vida, jeito de meia-idade, sisudez, começaram a aparecer: o mestre/vilão Henri Ducard de "Batman Begins" (2005) e o coronel Carver, veterano da Guerra Civil Americana, de "À Procura da Vingança" (2006) - curioso faroeste que não foi exibido nos cinemas de Porto Alegre - são exemplos disso. Tanto o aspecto de dono de destrezas vindo de Ducard como a aspereza de um homem sedento por desforra (Carver) contribuem efetivamente para dar forma a Bryan Mills.

Verdadeiramente, o que Neeson mais lembra em "Busca Implacável" é Charles Bronson, ator prototípico do justiceiro no cinema hollywoodiano de duas, três décadas atrás. Como o lendário durão, ele é impoliticamente correto até não poder mais. O pai vingativo interpretado pelo norte-irlandês não perdoa seus inimigos ou quem lhe atravessar o caminho na perseguição pela filha: há tiros pelas costas e na cabeça dos desafetos e até sobra um disparo proposital no braço da esposa de um corrupto inspetor de polícia durante o que deveria ser um amigável jantar (!). Não bastasse, um criminoso albanês é torrado numa cadeira elétrica improvisada e Mills não tem o mínimo arrependimento em descarregar um revólver num escroque francês que leiloou a jovem. Bronson, caso pudesse, levantaria da tumba e aplaudiria Neeson de pé.

Luc Besson, co-roteirista, trouxe para estre filme um pouco de seu "O Profissional" (1994) e um muito dos filmes de vendetta estrelados por Charles. Afinal, elementos da cinessérie "Desejo de Matar" e dos longas "Dez Minutos para Morrer" (1983) e "Kinjite - Desejos Proibidos" (1989) brotam aqui naturalmente. Com um detalhe bem-vindo, Besson e o parceiro de script Kamen dão inteligência e factibilidade às ações do ex-espião. Junte-se o aspecto referencial nostálgico à uma direção ao estilo J. Lee Thompson que vem de Pierre Morel e - excetuando passagens adrenérgicas, de montagem rapidinha típica dos filmes de ação dos últimos anos (leia-se: de "A Rocha" (1996) a "O Ultimato Bourne" (2007)) - o clima dos velhos anos de cinematográfico furor justiceiro volta à tela por cerca de hora e meia.



BUSCA IMPLACÁVEL (Taken, França, 2008)

Direção: Pierre Morel.

Elenco: Liam Neeson, Maggie Grace, Famke Janssen, Xander Berkeley, Gérard Watkins.

Cotação: ****