UM NOVO CONCEITO EM TERROR
Ricardo Rangel
 
 
Esqueça tudo que você já viu sobre terror em cinema. Clássicos como "A Profecia", "Poltergeist - O Fenômeno", "O Exorcista", "O Bebê de Rosemary", "Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio", dentre outros, além dos bons filmes de Drácula, com Christopher Lee no papel do vampiro transilvânico, ou outras produções ok do gênero menos conhecidas, como "Não Adormeça", "O Cão do Diabo" ou "Adoradores do Diabo", por exemplo, fizeram, de alguma forma, história como bons exemplos do horror transposto para a tela. Porém, de algum tempo para cá, contudo, os filmes de terror têm perdido muito de sua magia, testando nossa paciência e subestimando nossa inteligência, com produções "Z" sofríveis e detestáveis, onde a presença em cena de monstros e psicopatas, insanos e debilóides, não assustam nem mais as tão espertas crianças de hoje, caindo no mais das vezes no ridículo, numa involuntária comédia pastelão, escrachada.

Pois parece que a premissa básica para o terror adulto e inteligente não é, obviamente, simplesmente retirar ou transformar a presença destas criaturas ridículas, e sim a exploração dos aspectos psicológicos amedrontadores que coloquem no espectador um medo incomum, oriundo do desconhecido, do oculto. Teme-se aquilo que não se vê, o não observado, que se manifesta no mundo exterior muito mais como uma manifestação do inconsciente e dos medos interiores do que como algo propriamente habitante da realidade "aqui fora".

"The Blair Witch Project", ou simplesmente "A Bruxa de Blair", como foi aqui traduzido, produção de 1999, criou, dentro desta perspectiva apresentada, o que se pode argumentar como um novo conceito em terror dentro do cinema do gênero, com uma proposta curiosa e inovadora, com que o medo é trabalhado em cena e explorado no seu mais apurado detalhe. A idéia dos seus realizadores, Edward Sanchez, Dan Myrick e Gregg Hale, foi bastante polêmica dentro da indústria cinematográfica, reunindo em torno de si vários elementos de interesse. Em primeiro lugar, "A Bruxa de Blair" é, em suma, um filme dentro do filme, ou, melhor dizendo, um documentário sobre um documentário (ambos ficcionais): as fitas de vídeo encontradas na localidade de Maryland, EUA, próximo à cidade de Burkitsville, outrora conhecida como Blair, como resultado de um documentário que os estudantes de cinema Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael Williams (personagens "verdadeiros", na utilização de seus próprios nomes e interpretação a si mesmos dentro do espírito do "documentário-filme") realizaram sobre o mito da existência, nessa região, de uma sinistra e misteriosa bruxa que foi vista por alguns nativos, e que assassinava crianças na sua bizarra casa no meio da floresta. Eles desaparecem misteriosamente durante a captação de imagens para o tal documentário, e tudo isso é mostrado como um fato real, "que aconteceu mesmo", o que proporciona no espectador muita curiosidade e tensão, em assistir a esse misterioso vídeo, e interagir, de alguma forma, com os três jovens, compartilhando as suas experiências em busca da veracidade da lenda, e saber, afinal de contas, por que sumiram do mapa sem deixar pistas.

A estratégia dos realizadores, de toda a equipe de produção, era a de botar medo para valer, um medo real, nos três protagonistas, que foram largados em meio à mata nas condições mais adversas, com pouca comida, passando frio, e principalmente tendo que aturarem uns aos outros, estando perdidos, cansados e estressados - onde esse estado de espírito deveria ser aproveitado ao máximo, no intuito de dar realismo às cenas. O resultado é dos melhores, há realmente intensidade e veracidade no que se vê, mas até que ponto certas "lendas" sobre a produção são contadas (como, por exemplo, os sustos que eles tomavam em sua barraca, à noite, com a equipe de produção simulando sons estranhos e sinistros pela floresta) são reais enquanto histórias, isso não se sabe, embora caibam fáceis suposições. Mas esse ponto é irrelevante para as pretensões do filme: se houve ou não, não faz diferença, pois Heather, Josh e Mike parecem estar, realmente, muito assustados, e passam isso para o espectador de forma visceral, vívida e intensa (ainda que se disse que eles estavam com um aparelho de GPS para se orientarem na mata, e não se perderem de modo total; novamente, se estavam amedrontados ou não, não importa; interessa sim, que, por menor que fosse, parecia mesmo que havia alguma tensão no ar, e que essa não era algo ensaiado ou programado).

O trio inicia as suas filmagens do documentário "The Blair Witch Project" realizando os últimos preparativos antes de embrenharem-se na floresta de Maryland: são mostrados eles indo ao supermercado comprando mantimentos, e depois ajeitando as barracas, lanternas, cobertores, enfim, todos os apetrechos necessários (e, obviamente, as câmeras, para registrarem tudo fiel e realisticamente, o máximo possível). Após, pegam o carro e vão à Burkitsville para entrevistarem as pessoas sobre a lenda da Bruxa de Blair: muitos são reticentes e evitam falar sobre o assunto, temendo a maldição que parece rondar o local.

A história de Elly Kedward, uma velha maluca que morava na floresta e que era acusada de atrair crianças à sua casa para tirar sangue das mesmas para a prática de feitiçaria, serve como mote para o início da lenda: isso se deu em fevereiro de 1795, e Elly foi banida do vilarejo de Blair, acusada da prática de bruxaria. No solstício de inverno de 1796, todos aqueles que a acusaram, além da metade das crianças da vila, desaparecem, e o nome de Elly Kedward nunca mais é pronunciado. Em novembro de 1809, o livro "O Culto da Bruxa de Blair" é publicado como ficção científica, em que a história de uma bruxa proscrita é contada. Alguns acontecimentos sinistros ocorrem na virada do século e no decorrer do século XIX, no itinerário das lendas de Blair, agora Burkitsville (o nome da cidade foi trocado em 1824), até que em 1941 um velho eremita que habitava a floresta, Rustin Parr, é condenado à morte e enforcado pelo assassinato de sete crianças na sua casa no interior da mata, tendo sido levado a cometer tais barbáries sob a influência "do fantasma de uma velha", que outrora ocupou a floresta perto da sua casa.

Em 1994, que é a época que se passa a história, é o ano em que três alunos da Faculdade Montgomery, Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael Williams realizam o seu documentário sobre a Bruxa de Blair. Histórias bizarras são contadas pelos moradores de Burkitsville, como a de Mary Brown, uma insana mulher que afirmou ter visto uma fera peluda, meio mulher, meio animal na floresta, e que levitava no ar. Ao encontrarem dois pescadores e o entrevistarem, no rio que fica no início da mata, Heather, Josh e Mike entram na floresta e nunca mais são vistos, e o que se sabe após esse momento é o que eles registraram em vídeo nas suas câmeras e estão gravados nas fitas encontradas.

O recurso de utilizar a internet e a ambigüidade como formas de divulgar o caso do desaparecimento dos estudantes, e a incessante procura pelos mesmos, tarefa esta que envolveu autoridades, a polícia, suas famílias e seus amigos serviu como elemento estimulador para o marketing do filme, criando com isso uma atmosfera de suspense no ar, e deixando uma história fictícia cada vez mais real e verossímil. Essa foi uma grande sacada de Sanchez, Myrick e Hale, que, além de divulgarem o filme de uma forma original e que se mostrou extremamente bem-sucedida, os tornou ricos também, pois o custo da produção de "A Bruxa de Blair" foi baixíssimo, se comparado ao que rendeu nas bilheterias, garantiram o sucesso e o fenômeno que tornou-se também, com a venda de produtos relacionados com o filme, criando com isso uma legião de "blairwitchmaníacos" não só nos Estados Unidos, mas no mundo todo. Inegavelmente, isso foi um grande mérito e uma grande jogada de marketing, que em parte até pode não ser tão original assim, mas na prática funcionou, já que o produto a ser explorado revelou-se com forma e conteúdo.

Há uma discussão acirrada e intensa se "A Bruxa de Blair" pode ser considerado cinema, ou apenas registro de imagens em uma situação limite, explorada ao máximo, para passar a tensão pelas telas pelas condições físicas e psicológicas adversas dos personagens. É um divisor de águas e de opiniões o projeto de Edward Sanchéz, Dan Myrick e Gregg Hale: ou ama-se "The Blair Witch Project", ou odeia-se. E há aqueles que até gostam, mas que a consideram que é tudo, menos cinema: gostam da história, da maneira que foi contada, do marketing em cima, do terror psicológico, mas criticam a falta de técnica aliada a um roteiro que mais tem uma idéia diferente do que necessariamente algo mais elaborado, e filmado de supetão em apenas oito dias, com os três jovens embrenhados na mata suportando fome, frio e medo, provavelmente mais de si mesmo do que dos supostos sustos da equipe ou da própria Bruxa de Blair (e quem garante que a própria não estava por lá mesmo?). O fato é o mesmo, ou críticas semelhantes, se fizeram ao movimento dinamarquês Dogma 95, dos cineastas escandinavos Lars Von Trier e Thomas Vinterberg: que isso não seria cinema por não se utilizar tripé nas câmeras, por filmar ao ar livre apenas com luz natural, por não ter um roteiro decupado e escrito com linguagem técnica, além de outras restrições que seguiam a uma cartilha específica. O Dogma 95 não deu certo, ficou apenas em alguns filmes, mas fez história no cinema europeu e mundial por inovar a técnica (?) e trazer uma nova linguagem cinematográfica. Se é cinema ou não, resulta uma longa e complexa discussão, mas quero defender aqui que, assim como "A Bruxa de Blair", é cinema - feito de um modo revolucionário, sendo uma manifestação artística que se propõe a novos referenciais teóricos, à novas abordagens, à uma conceitualização, os quais vêm na contramão das opiniões fechadas da ortodoxia artística em geral.

"A Bruxa de Blair" não apenas é cinema - e bom cinema -, tanto de entretenimento quanto de valor artístico, estético e reflexivo, quanto propõe um novo conceito, uma nova forma, no caso, de se fazer e de se analisar filmes de terror, enveredando pelo terror psicológico, confluindo com o cinema de horror japonês e os seus chavões "sustos-dados-por-cabelos-no-rosto-da-menina-maldita" e uma obsessão pela água, mas que mesmo sendo elementos simbólicos já um tanto batidos para os fãs do gênero, dizem a que vêm, de certa forma.

O paradigma dos filmes de terror está mudando, há outras referências em jogo, e a motivação essencial é dar sustos, arrepiar o espectador, e fazê-lo pensar, se possível, sem mostrar criaturas melequentas e asquerosas, que, além de não assustar ninguém, se tornam ridículas. Verdadeiros e genuínos filmes de Terror, com T maiúsculo, devem nos prender na poltrona, mexer com nossos medos, fazer-nos ter pânico do aterrador desconhecido, devem nos proporcionar os piores pesadelos de noite - na verdade são estes os melhores, pois aí se atingiram os objetivos. "A Bruxa de Blair", decididamente, consegue isso, pois a verdadeira bruxa de Blair não está na floresta de Burkitsville, em Maryland, com os seus vodus e feitiços, mas nas perturbações mais idiossincráticas e ocultas das nossas mentes.

A BRUXA DE BLAIR (The Blair Witch Project, 1999)

Direção: Edward Sanchez e Dan Myrick.

Elenco: Heather Donahue, Joshua Leonard, Michael Williams.

COTAÇÃO: *****