AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA NÃO LATINA
Alexandre Mesquita
 
 

O Cazaquistão é mundialmente conhecido pelo complexo aeroespacial de Baikonur, construído pela antiga União Soviética, e de onde atualmente decolam os foguetes russos. Pesquisado o histórico recente do país, encontra-se uma terra na contramão da história segundo o pensamento capitalista. Era uma das repúblicas mais robustas do período soviético, rica em carvão, forte no setor metalúrgico e na cultura de grãos. Com a dissolução do país, o Cazaquistão sofreu com a migração da mão de obra especializada, composta na maioria por eslavos e germânicos, para a Europa (a independência tornou-o um país asiático). Esse fato, aliado ao regime ditatorial, deixou a economia estagnada e o país numa posição pouco honrosa entre os pobres. E hoje em dia ninguém está agradecendo mais essa situação do que a dupla de mesma pessoa Sacha Baron Cohen (Borat Sagdiyev) e Borat Sagdiyev (Sacha Baron Cohen), mentor e personagem central do corrosivo Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América (Borat: Cultural Learnings of América for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, EUA, 2006).

Sacha é comediante do programa humorístico britânico Da Ali G Show, no qual seu Borat, inspirado em um médico russo, já era uma figuraça. Agora estrelando um produto que custou dezoito milhões de dólares e arrecadou mais de duzentos e cinqüenta milhões, está rindo muito. Mas não à toa, porque o filme vem sofrendo vários processos. Vão desde americanos que participaram do filme e só assinaram um termo de liberação das imagens porque a produção havia lhes garantido que era um documentário apenas para a Europa, ao governo Cazaque, do qual até seu "mais emérito cidadão" Borat deu-lhe razão em seu pseudo-documentário: tem mais é que processar judeu. Vale lembrar que, no xenófobo Cazaquistão de Borat, judeus são mais temidos que o próprio demônio, sob a "alegação" de que este último tenta roubar apenas a alma das pessoas, enquanto os judeus, todo o dinheiro. Detalhe: é preciso também recordar que Sacha Baron Cohen é judeu praticante, de modo que esse preconceito, exposto na referida comédia, surge então como uma feroz crítica social.

Que charme seria melhor para um falso documentário que se acha um dedo indicador em riste, ansioso por tocar e provocar gemidos, do que ser processado por ambas as partes que o compõem?

O segundo melhor repórter do Cazaquistão, Borat Sagdiyev, após apresentar a cidade onde mora, os vizinhos e a família com orgulhosos superlativos (melhor prostituta, melhor mulher mais velha, melhor tarado, irmão mais retardado) é convocado pelo governo cazaque para ir aos EUA fazer um documentário sobre o modo de ser da nação mais importante do mundo, a fim de que seu país aprenda com a nata do pensamento capitalista, a democracia exemplar, os cidadãos cheios de liberdade e a pornografia exuberante. Se nenhum desses itens "pegar" no glorioso Cazaquistão, principalmente o último, Borat será fuzilado.

Viajam ele, seu produtor Asamat Bagatov (Ken Davitian) e um cameraman. O projeto é filmar toda a cultura americana a partir de Nova York. Borat, com seu jeito de buscapé ingênuo, incorpora o embaixador cazaque aonde vai: no metrô, no hotel, nas ruas, se apresentando e beijando quem quer, e principalmente quem não quer, conhecê-lo. Depois de muitas façanhas, Borat assiste pela primeira vez um episódio de Baywatch e se apaixona pela Pamela Anderson. Após comemorar que sua esposa cazaque foi partida ao meio por um urso, Borat convence Asamat a viajar até a Califórnia, morada de sua nova musa, com o pretexto de que poderiam fazer matérias mais interessantes pelo interior do país. Compram um velho carro de sorveteiro e seguem viagem. Em cada parada, desossam mazelas de várias instituições americanas. Borat, entre um choque cultural e outro, conhece a prostituta Luenell (por ela mesma). Ambos têm bons momentos e isso não significa sexo, pois Borat tinha de ser fiel a sua amada Pamela Anderson que era pura como a água das montanhas (uma prova que o filme tem piadas sutis). O desfecho se dá num encontro com a própria Paméla quando Borat a pede em casamento no estilo do Cazaquistão. Entendidos no assunto dizem que a resposta da moça teria sido outra se não tivesse faltado a presença de um instrumento fundamental na hora de um homem cazaque pedir uma mulher em casamento, o porrete.

Vende-se a idéia de que, com exceção de Sacha, Davitian, Luenell e da própria Pamela Anderson, todos que apareceram pensavam tratar-se de um trabalho sério. Já existe até mitologia, como a polícia ter sido chamada quase cem vezes durante as filmagens, Sacha ter recebido um mandato de prisão em Nova York e ter sido interrogado pelo Serviço Secreto em Washington quando tentava fazer cenas externas à Casa Branca. Segundo as más línguas, foi Borat quem respondeu às perguntas no lugar de Sacha (esperto, não?). Em alguns momentos, fica difícil de engolir que só eles sabiam. Aposto, por exemplo, que um certo cavalo com a bandeira americana fazia parte do esquema. Por outro lado, justifica alguns exageros, como o pastelão muito fraco na loja de antiguidades onde Borat escorrega e fica por horas quebrando tudo, tentando levantar-se e olhando para a cara do dono do bazar a fim de ver sua reação.

A verdade é que, no meio de uma metralhadora humorística (roteiro indicado ao Oscar de Sacha Baron Cohen, Peter Baynham, Anthony Hines e Dan Mazer) de vários calibres, fica realmente difícil se preocupar com o que é espontâneo e o que não é. A maioria das piadas explora órgãos sexuais, excrementos, pornografia, prostituição, humor negro (existem outras?). Mas há variações de tonalidade. Se uma piada pegou pesado, rapidamente o humor pula para o outro extremo. Exemplo: em um hotel chique, Borat sai do banho pelado e encontra Asamat vestido de almôndega, ou seja, também pelado, fazendo, digamos, mau uso de uma revista com sua amada Pamela. Começam eles uma briga, cuja extensão vai do quarto do hotel, passando pelo Kama Sutra entre dois homens, até uma festa de grã-finos no centro de eventos. É uma cena que fez a palavra "grotesco" precisar de calmantes. Mas, rapidamente, o fio da meada pula para um humor mais refinado: Borat chega à Califórnia e reencontra Asamat, que por falta de dinheiro estava na rua trabalhando fantasiado. Borat desdenha-o, dizendo que não pode conversar com quem vem a outro país para se fantasiar de Hitler. Detalhe: Asamat estava vestido de Carlitos. Outro tom, mais meio-termo. Para se proteger dos judeus americanos, Borat e Asamat compram um urso, ao qual o repórter se afeiçoa. Quando brigam, o produtor leva embora o urso, e quando se reencontram e fazem as pazes, Borat pergunta pelo animal, Asamat disse que ele fugiu. Mais tarde no quarto do hotel quando o produtor abre e fecha a geladeira rapidamente, descobrimos qual foi o destino do animal.

Borat tem sim, é um objetivo. E utiliza o humor que melhor convier numa situação para atingi-lo. Explica-se qual objetivo através de uma piada de outra excelente comédia, Melhor é Impossível. O personagem Simon, após levar uma surra tremenda, se encontra no hospital e recebe a visita de sua secretária. A moça ao vê-lo cai em prantos. Simon, que ainda não tinha se olhado, pede um espelho. A moça tira um espelho da bolsa, olha para o rosto deformado de Simon e diz: "Espera, acho que tenho um menor". Através do exagero no contraste de culturas, o filme de Sacha Baron Cohen busca ser um espelho da verdadeira face dos EUA quanto a questões delicadas de sua sociedade como racismo, machismo, ufanismo, jovens, feminismo, prostituição. A ironia é um espelho menor porque não joga direto na cara. Ela faz as pessoas olharem para si mesmo só depois de perceberem-se vestindo a carapuça do ridículo que caía tão bem na pessoa à sua frente. Ironize a si e ria dos outros, é o mandamento. Os EUA viram Borat, morreram de rir e de repente pararam. Espera aí...

Fazendo-se de falso documentário, Borat é uma sátira aos costumes das mais originais que já apareceram. Mas ele, com seu dedo em riste, cutuca tanto vespeiro que fica complicado a gente arriscar uma opinião definitiva de quanto vale, correndo tanto o risco de injustiça quanto o de supervalorização. Nessa angústia de oito ou oitenta, em vez de optar pelo meio-termo e terminar logo com esse texto, caí na besteira de imaginar-me andando na rua quando, de repente alguém me pára.

- Olá, meu nome é Borat Sagdiyev, segundo melhor repórter do glorioso Cazaquistão.

- Olá, Alexandre Mesquita, Brasil.

(Beijos.)

- Brasil? Eu querer ir Alasca. Acho deveria ter virado direita no Texas. Mas já que estar aqui, como fazer para aprender com seu civilizado estado americano?

- Primeira lição: o Brasil não é estado americano.

- Eu estranhar aqui. Homens andar com cachorro na coleira e mão dada com mulher. No Cazaquistão é o contrário. Como vocês conseguir?

- É que nós respeitamos as mulheres.

- Vocês não gostar cachorros no Brasil?

- Sim, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

- Mas como você conseguir levar avós para correr sem coleira? Se não arrastá-las, andam devagarzinho.

- É triste ver como vocês não respeitam nem mulheres idosas.

- Nós respeitar, sim. Hoje já é permitido as velhas viver até quarenta e dois anos, prorrogável por mais um. E mulheres já podem tirar carteira motorista. Antes, só homens e animais.

- Animais com carteira de motorista?

- Igual aqui, vindo para cá eu precisar ofender mãe de cinco.

- No Brasil não deixamos animais tirarem carteira de motorista.

- Há, há, há, você é divertido, eu gostar você, que fazer vronsky honsky comigo?

- Não.

- Vindo para cá, também ouvir que no Brasil críticos torcer nariz quando não gostar de filme.

- Sim.

- No Cazaquistão, nós só torcer o nariz quando fazer sexo. Principalmente com cavalos. Deixa eu mostrar.

- Mostra.

- ........

- Será que eu conseguir fazer mesma coisa com filmes?

- Só um pouco que ainda não terminei de vomitar...Torcer o nariz para nós, é uma força de expressão.

- Então você dizer: força de expressão sincera, meu filme? Eu dar minha irmã em troca.

- Bem, várias leituras, vários enfoques, vários elogios podem ser dados ao seu filme. Mas, pela teoria do espelho irônico, acho que desaforos são o que melhor se encaixam. Elogios soariam fora de contexto.

- Você falar eu ser fuzilado quando voltar meu glorioso país?

- Não disse isso.

- Não ter problema. Eu adorar. No Cazaquistão, melhor ser fuzilado do que queimado. Quando nós não gostar do que uma pessoa faz, nós falar mal dela, depois queimar ela na fogueira.

- Nós não fazemos isso no Brasil.

- Oba, Civilizados. Queimar primeiro, falar mal depois.

- Queimar pessoas é um ato inaceitável para qualquer civilização...embora as vezes dá vontade
(olhando para Borat).

- Oba, diga quem querer queimar.

Borat puxa papel e caneta.

- Esquecer, esquecer.

- Eu precisar aprender mais com estado americano Brasil. Cazaquistão muito atrasado. Lá pior do que morrer fogueira, só morrer de fome. Amigo meu, Zagret Bogodorov, botar fogo em quatro que roubar milhões de dinheiro e deixar povo que votar neles sem comida. Virar herói nacional.

Fico olhando para Borat, acho que por uns cinco minutos. Falo baixinho:

- No Brasil nós não queimamos ninguém.

Viro as costas e vou embora sem olhar para trás. Juro mesmo que não falei em tom de desculpas. Esse Borat faz a gente pensar cada coisa...


BORAT - O SEGUNDO MELHOR REPÓRTER DO GLORIOSO PAÍS CAZAQUISTÃO VIAJA À AMÉRICA (Borat: Cultural Learnings of América for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, EUA, 2006)

Direção: Larry Charles.

Elenco: Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Luenell, Pamela Anderson.

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