CROWE COMEDIANTE (!)
Adriano de Oliveira
 
 

Quando, há anos atrás, surgiram rumores de que Russell Crowe manifestara grande interesse em estrelar papéis em possíveis versões cinematográficas dos antigos seriados de TV "Guerra, Sombra e Água Fresca" e "Esquadrão Classe A", ambos deliberadamente hilariantes, o bom senso diria que se estava pensando o inimaginável.

Agora, o insondável toma forma por meio da comédia protagonizada por Crowe, "Um Bom Ano". O astro caracterizado pelos papéis de durão, como em "Los Angeles, Cidade Proibida", "Mestre dos Mares" e "Gladiador", aparece fazendo graça. É uma considerável surpresa a atuação dele: embora ainda distante de um timing cômico ideal e mostrando visível esforço para convencer, parece uma boa incursão, quase um debute, do neozelandês no subgênero da comédia ligeira (deixando-se de lado o álgido "Amor em Chamas" e o mais engajado com o riso "Esquentando o Alasca"). Com mais prática e lapidação de estilo, Russell pode se tornar realmente promissor na frente burlesca.

Em "Um Bom Ano", ele interpreta Max Skinner, um perito em investimentos londrino, decidido, autoconfiante e de sucesso na profissão. Devido ao recebimento de uma inesperada herança de um tio - um vinhedo -, Max se vê obrigado a viajar à região provençal da França. Inicialmente disposto a vender o local por um bom preço, ele começa a repensar tal decisão à medida que suas lembranças da pré-adolescência ali vivida afloram. Em um roteiro com ritmo de comédia, há vertentes igualmente para um romance e para a introdução de um elemento de intriga na trama.

Tão inusitado quanto se deparar com um Crowe cômico está em saber que, quem dirige a obra é Ridley Scott. Embora o experiente diretor, mais conhecido por seus trabalhos revolucionários no cinema oitentista, já tenha abordado tons do caminho do riso na bela mescla de comédia e drama "Os Vigaristas" (onde um extraordinário Nicolas Cage brilha), não há como negar um certo espanto com essa opção.

Como na maior parte dos filmes que dirige, Scott torna a mostrar competência na narração e, sobretudo, no aspecto visual que conhece bem conferir às suas fitas. Cá não fica diferente: basta acompanhar o simpático travelling circular que introduz o personagem do jovem Max (Freddie Highmore, o garoto de "Em Busca da Terra do Nunca") à projeção e conferir o poético uso do filtro azul para se saber que é Ridley que está por trás da câmera.

Ainda que um pouco longo em excesso, com alguns momentos apagados e outros, forçados, tendo a presença de vários clichês e uma incômoda previsibilidade, existem mais vitórias que deméritos em "A Good Year". O trecho da colagem de cenas românticas marcantes do Cinema num telão, durante o afetuoso encontro entre os personagens de Russell e de Marion Cotillard (interpretando a garçonete Fanny), e a sutil piada que Max evoca ao chafurdar numa piscina emporcalhada, lembrando um diálogo de "Lawrence da Arábia", surgem como exemplos de pontos altos. O sisudo Crowe, quem diria, também sabe fazer rir.

UM BOM ANO (A Good Year, 2006)

Direção: Ridley Scott.

Elenco: Russell Crowe, Marion Cotillard, Abbie Cornish, Tom Hollander, Albert Finney, Freddie Highmore.

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