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Quando, há anos atrás, surgiram rumores de que Russell
Crowe manifestara grande interesse em estrelar papéis
em possíveis versões cinematográficas dos antigos seriados
de TV "Guerra, Sombra e Água Fresca" e "Esquadrão
Classe A", ambos deliberadamente hilariantes, o
bom senso diria que se estava pensando o inimaginável.
Agora, o insondável toma forma por meio da comédia
protagonizada por Crowe, "Um Bom Ano". O astro
caracterizado pelos papéis de durão, como em "Los
Angeles, Cidade Proibida", "Mestre dos Mares"
e "Gladiador", aparece fazendo graça.
É uma considerável surpresa a atuação dele: embora ainda
distante de um timing cômico ideal e mostrando
visível esforço para convencer, parece uma boa incursão,
quase um debute, do neozelandês no subgênero da comédia
ligeira (deixando-se de lado o álgido "Amor
em Chamas" e o mais engajado com o riso "Esquentando
o Alasca"). Com mais prática e lapidação de
estilo, Russell pode se tornar realmente promissor na
frente burlesca.
Em "Um Bom Ano", ele interpreta Max Skinner,
um perito em investimentos londrino, decidido, autoconfiante
e de sucesso na profissão. Devido ao recebimento de
uma inesperada herança de um tio - um vinhedo -, Max
se vê obrigado a viajar à região provençal da França.
Inicialmente disposto a vender o local por um bom preço,
ele começa a repensar tal decisão à medida que suas
lembranças da pré-adolescência ali vivida afloram. Em
um roteiro com ritmo de comédia, há vertentes igualmente
para um romance e para a introdução de um elemento de
intriga na trama.
Tão inusitado quanto se deparar com um Crowe cômico
está em saber que, quem dirige a obra é Ridley Scott.
Embora o experiente diretor, mais conhecido por seus
trabalhos revolucionários no cinema oitentista, já tenha
abordado tons do caminho do riso na bela mescla de comédia
e drama "Os Vigaristas" (onde um extraordinário
Nicolas Cage brilha), não há como negar um certo espanto
com essa opção.
Como na maior parte dos filmes que dirige, Scott torna
a mostrar competência na narração e, sobretudo, no aspecto
visual que conhece bem conferir às suas fitas. Cá não
fica diferente: basta acompanhar o simpático travelling
circular que introduz o personagem do jovem Max (Freddie
Highmore, o garoto de "Em Busca da Terra do Nunca")
à projeção e conferir o poético uso do filtro azul para
se saber que é Ridley que está por trás da câmera.
Ainda que um pouco longo em excesso, com alguns momentos
apagados e outros, forçados, tendo a presença de vários
clichês e uma incômoda previsibilidade, existem mais
vitórias que deméritos em "A Good Year". O trecho
da colagem de cenas românticas marcantes do Cinema num
telão, durante o afetuoso encontro entre os personagens
de Russell e de Marion Cotillard (interpretando a garçonete
Fanny), e a sutil piada que Max evoca ao chafurdar numa
piscina emporcalhada, lembrando um diálogo de "Lawrence
da Arábia", surgem como exemplos de pontos altos.
O sisudo Crowe, quem diria, também sabe fazer rir.
UM BOM ANO (A Good Year, 2006)
Direção: Ridley Scott.
Elenco: Russell Crowe, Marion Cotillard, Abbie
Cornish, Tom Hollander, Albert Finney, Freddie Highmore.
COTAÇÃO: ***
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