UM BEIJO APÓS O OUTRO
Adriano de Oliveira
 
 
Ingrata...e fácil, a tarefa de "Um Beijo a Mais". Como remake de um aplaudido filme italiano de 2001, "O Último Beijo", já nasce sob o estigma de não fazer feio frente ao original, parâmetro número um de comparação, e se livrar das amarras deste. Por outro lado, pode até ser uma empreitada suave, se não optar por riscos de inovação, mesmo sabendo que será tachado de cópia-carbono: basta seguir ao pé da letra o primeiro, que muito vergonhoso não ficará, restando para a remontagem a clássica definição de "nova roupagem, nada de novo" - vide a refilmagem de "Nikita" de Besson por John Badham ("A Assassina") e a nova versão de "A Profecia" veiculada no ano passado.

O problema é que "Um Beijo a Mais" tenta fazer os dois modos ao mesmo tempo. E o resultado não é dos melhores. Planos idênticos ao do exemplar italiano aparecem, mas justamente os menos inspirados daquele. As inovações, sobretudo as vindas do roteiro, fracassam.

O que mais faz falta ao remake são, notadamente, alma e profundidade. A passionalidade - em todos os sentidos - que sobrava no filme italiano carece ao americano, e o belo drama sobre a crise dos trinta anos que "O Último Beijo" representa, virou uma comédia romântica corriqueira. Embora a Academia de Hollywood insista em aclamar Paul Haggis como reconhecido roteirista, cada vez mais claro surge que tal veneração é um equívoco. Este trabalho aumenta a lista de erros chamada Haggis: fazendo omissões comprometedoras sobre o roteiro original, reduzindo as dimensões de todos os personagens da trama, como que roubando a essência deles, e escolhendo um final levemente diferente do anterior para demonstrar certa ousadia (chegando, por esta opção, a um resultado bem inferior, como seria de se esperar, pois a conclusão da película de 2001 é simplesmente irretocável), o canadense cada vez mais desce no conceito daqueles que avaliam profissionais do cinema sem levar em conta o quesito "prêmios no currículo". E olhem que ele foi capaz de, em "Um Beijo a Mais", bolar uma frase típica do pior aprendiz de roteirista possível: "é preciso se lembrar de respirar, senão você vai morrer".

Espanta, então, que o diretor do original, Gabriele Muccino, seja um dos produtores executivos desta versão, ou seja, que ele tenha abençoado o desastre feito sobre sua obra. Não se entende, pois, a escolha dos realizadores em optar pelo diretor Tony Goldwyn, (do terrível "Alguém Como Você"), o qual, tirando um ou dois momentos de inspiração no presente filme (o choro de Anna frente à chuva, o retrato da odisséia de Michael para recuperar a confiança da noiva), aparece sempre burocrático.

Também o elenco não ajuda. Zach Braff, como um Buster Keaton ao contrário, teima em fazer cara de riso na maior parte do tempo, até nas situações dramáticas. Que saudade de Stefano Accorsi no original! Comparar Blythe Danner com Stefania Sandrelli é covardia, dado o show que a italiana proporcionou no anterior. O elenco de coadjuvantes do remake também apanha de relho nessa confrontação. Salvam-se, em tal balanço, duas intérpretes apenas: a esforçada Jacinda Barrett - até porque Giovanna Mezzogiorno pouco fazia mais do que gritar e fazer beicinho no primeiro - e a novata Rachel Bilson, magnetizante como a lolita Kim. Aliás, a escolha de Bilson para o papel se mostra um acerto, pois ela é parecida com Jacinda a ponto de emular a sensação de ser uma versão "mais jovem" da esposa do protagonista e daí resultar o seu encanto na trama.

Realmente, cada beijo tem um sabor diferente. Alguns, são inesquecíveis; outros, comuns.

UM BEIJO A MAIS (The Last Kiss, 2006)

Direção: Tony Goldwyn.

Elenco: Zach Braff, Jacinda Barrett, Blythe Danner, Casey Affleck, Rachel Bilson, Tom Wilkinson.

COTAÇÃO: **
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