"Batman Begins"
de Christopher Nolan
André Dornelles Pares
 
 

Depois de algum tempo, e de algumas montagens e filmagens, o nome do personagem-título dá lugar ao nome do autor escalado para fazer reviver o herói. Joana D'arc foi de Luc Besson, o último Homem Aranha, de Sam Raimi, Batman era de Joel Schumacher. Todas as luzes agora estiveram em Christopher Nolan.

Pelas indicações, principalmente promocionais, Batman deveria estar renovado. A novidade estava no próprio título. Artifício que em si não é novo, pois os últimos filmes tinham um subtítulo. Mesmo que um deles fosse "Eternamente", pareciam menos pretensiosos que este. Batman Begins, ou O Início de Batman, ou Batman Começa, além de não inovar, encaixou-se na onda das séries que voltam ao início quando fica ou muito difícil, em termos de algo realmente novo, ir adiante; ou é preciso ter que voltar ao começo para dar um rumo ao que tinha se perdido. O caso é que o filme, mercadologicamente precisando ser novo, já se vendia assim desde a idéia construída em torno da produção. Ao invés de deixar surgir - como cabe a uma novidade - fabricou-se uma.

E Nolan renovou Batman. Mas nenhuma novidade surgiu. Pelo contrário. O que houve foi uma confirmação. O diretor que vinha do pequeno "Insônia" não pôde transformar em algo maior a história que contaria a origem do herói do que num amontoado de frases de efeito e explosões. Acabou confirmando duas tendências que nada adicionam ao cinema: os filmes que se entendem inteligentes por inserirem diálogos descolados, e os filmes que quando não podem resolver de outro modo seu possível enredo de ação, recorrem à perseguição automobilística e pirotecnias do gênero. Algo de novo que Nolan poderia ter trazido em "Amnésia" - artimanha temporal muito mais bem utilizada em "Irreversível", de Gaspar Noé - foi deixada de lado. De lá, apenas o herói que sofre permaneceu, como já estivera presente em "Insônia" com Al Pacino. No Batman de Nolan, personagens pré-moldados como o protagonista sofredor apenas se multiplicam.

Pois todos os protótipos estão no enredo que explica didaticamente o surgimento do agora justiceiro que aprende a ser ético: desde o exemplar pai que pratica enorme esforço pelo heroísmo anônimo, ao funcionário negro genial e relegado. Estereótipos que ficariam ótimos se o filme fosse de super herói. Porque se o diretor humanizou Bruce Wayne - e esta deveria ser a grande novidade - desmistificou Batman - o que de realmente novo sobra do filme. Batman desapareceu em prol de explicações ilustrativas salutares dos temores e dilemas de Wayne. São indissociáveis herói e alter ego, mas o mito cabe ao super herói, não ao milionário, ou seria desnecessária a indumentária.

Contudo, a culpa pode ser suavizada em Nolan. Quando se decide optar pela alternativa de que é impossível desassociar-se de seu tempo, pode-se considerar, antes de novidade, uma coerência do diretor em relação a sua época. Uma pena que confirmar a exposição total como característica marcante dos anos 2000 não seja novidade. Contemporaneamente, quase nada tem mais o direito de ficar em dúvida ou subentendido: tudo precisa ser demasiadamente explicado. Se quisesse, Nolan poderia salvar-se da tendência, pois entre outras atividades o que um diretor de cinema faz é observar como o mundo se comporta. E é provável que Nolan tenha percebido o padrão vigente, mas preferido não arriscar. O titubeio acabou lhe sendo caro, pois não decidiu, afinal, para quem fez o filme.

No início, o que precisaria ser mostrado com vagar e desvelamento - a origem - é feito com cortes rápidos e situações forçadas. No meio, a ação eticamente justiceira como escape do personagem atormentado que deveria ser demonstrada com um certo drama que o filme propõe resulta em seqüências repetitivas em que perseguições soterram as aparições tão aguardadas do protagonista. No fim, o desfecho de um enredo romântico que não houve termina com um beijo insosso da desnecessária personagem feminina no herói - Wayne, não Batman. Ou seja, quem busca entretenimento, recebe um filme que se propõe a ter conteúdo (mesmo que seja vazio); quem vai atrás da mítica do herói, precisa abstrair tanta explicação para preservá-lo.

Ao menos na manufatura do herói, Nolan encaixa o espectador no filme. A seqüência em que mostra o mocinho criando sua parafernália, montando sua fantasia e descobrindo apetrechos nos permite participar da história sem estarmos fadados à condição de ouvintes de esclarecimentos. É através da imagem, sobretudo, que podemos acompanhar justamente o início de Batman. Pena que dure pouco. Pois o resto, recheado com piadas que apequenam ainda mais a narrativa, é uma saturação de elucidações sobre o que deveria permanentemente conter um certo mistério. Com explosões para se poder dizer que é um filme de super herói, e nenhum vilão interessante para se poder recorrer quando quiser lembrar do filme, a receita do autor que deveria dar nova luz ao herói virou uma sombra entediante.

18.07.2005

BATMAN BEGINS (idem, 2005)

Direção: Christopher Nolan.

Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Michael Caine, Liam Neeson, Gary Oldman, Cillian Murphy, Morgan Freeman, Rutger Hauer, Tom Wilkinson.