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Depois de algum tempo, e de algumas montagens e filmagens,
o nome do personagem-título dá lugar ao nome do autor
escalado para fazer reviver o herói. Joana D'arc foi
de Luc Besson, o último Homem Aranha, de Sam Raimi,
Batman era de Joel Schumacher. Todas as luzes agora
estiveram em Christopher Nolan.
Pelas indicações, principalmente promocionais, Batman
deveria estar renovado. A novidade estava no próprio
título. Artifício que em si não é novo, pois os últimos
filmes tinham um subtítulo. Mesmo que um deles fosse
"Eternamente", pareciam menos pretensiosos que este.
Batman Begins, ou O Início de Batman,
ou Batman Começa, além de não inovar, encaixou-se
na onda das séries que voltam ao início quando fica
ou muito difícil, em termos de algo realmente novo,
ir adiante; ou é preciso ter que voltar ao começo para
dar um rumo ao que tinha se perdido. O caso é que o
filme, mercadologicamente precisando ser novo, já se
vendia assim desde a idéia construída em torno da produção.
Ao invés de deixar surgir - como cabe a uma novidade
- fabricou-se uma.
E Nolan renovou Batman. Mas nenhuma novidade surgiu.
Pelo contrário. O que houve foi uma confirmação. O diretor
que vinha do pequeno "Insônia" não pôde transformar
em algo maior a história que contaria a origem do herói
do que num amontoado de frases de efeito e explosões.
Acabou confirmando duas tendências que nada adicionam
ao cinema: os filmes que se entendem inteligentes por
inserirem diálogos descolados, e os filmes que quando
não podem resolver de outro modo seu possível enredo
de ação, recorrem à perseguição automobilística e pirotecnias
do gênero. Algo de novo que Nolan poderia ter trazido
em "Amnésia" - artimanha temporal muito mais
bem utilizada em "Irreversível", de Gaspar Noé
- foi deixada de lado. De lá, apenas o herói que sofre
permaneceu, como já estivera presente em "Insônia"
com Al Pacino. No Batman de Nolan, personagens pré-moldados
como o protagonista sofredor apenas se multiplicam.
Pois todos os protótipos estão no enredo que explica
didaticamente o surgimento do agora justiceiro que aprende
a ser ético: desde o exemplar pai que pratica enorme
esforço pelo heroísmo anônimo, ao funcionário negro
genial e relegado. Estereótipos que ficariam ótimos
se o filme fosse de super herói. Porque se o diretor
humanizou Bruce Wayne - e esta deveria ser a grande
novidade - desmistificou Batman - o que de realmente
novo sobra do filme. Batman desapareceu em prol de explicações
ilustrativas salutares dos temores e dilemas de Wayne.
São indissociáveis herói e alter ego, mas o mito cabe
ao super herói, não ao milionário, ou seria desnecessária
a indumentária.
Contudo, a culpa pode ser suavizada em Nolan. Quando
se decide optar pela alternativa de que é impossível
desassociar-se de seu tempo, pode-se considerar, antes
de novidade, uma coerência do diretor em relação a sua
época. Uma pena que confirmar a exposição total como
característica marcante dos anos 2000 não seja novidade.
Contemporaneamente, quase nada tem mais o direito de
ficar em dúvida ou subentendido: tudo precisa ser demasiadamente
explicado. Se quisesse, Nolan poderia salvar-se da tendência,
pois entre outras atividades o que um diretor de cinema
faz é observar como o mundo se comporta. E é provável
que Nolan tenha percebido o padrão vigente, mas preferido
não arriscar. O titubeio acabou lhe sendo caro, pois
não decidiu, afinal, para quem fez o filme.
No início, o que precisaria ser mostrado com vagar
e desvelamento - a origem - é feito com cortes rápidos
e situações forçadas. No meio, a ação eticamente justiceira
como escape do personagem atormentado que deveria ser
demonstrada com um certo drama que o filme propõe resulta
em seqüências repetitivas em que perseguições soterram
as aparições tão aguardadas do protagonista. No fim,
o desfecho de um enredo romântico que não houve termina
com um beijo insosso da desnecessária personagem feminina
no herói - Wayne, não Batman. Ou seja, quem busca entretenimento,
recebe um filme que se propõe a ter conteúdo (mesmo
que seja vazio); quem vai atrás da mítica do herói,
precisa abstrair tanta explicação para preservá-lo.
Ao menos na manufatura do herói, Nolan encaixa o espectador
no filme. A seqüência em que mostra o mocinho criando
sua parafernália, montando sua fantasia e descobrindo
apetrechos nos permite participar da história sem estarmos
fadados à condição de ouvintes de esclarecimentos. É
através da imagem, sobretudo, que podemos acompanhar
justamente o início de Batman. Pena que dure pouco.
Pois o resto, recheado com piadas que apequenam ainda
mais a narrativa, é uma saturação de elucidações sobre
o que deveria permanentemente conter um certo mistério.
Com explosões para se poder dizer que é um filme de
super herói, e nenhum vilão interessante para se poder
recorrer quando quiser lembrar do filme, a receita do
autor que deveria dar nova luz ao herói virou uma sombra
entediante.
18.07.2005
BATMAN BEGINS (idem, 2005)
Direção: Christopher Nolan.
Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Michael
Caine, Liam Neeson, Gary Oldman, Cillian Murphy, Morgan
Freeman, Rutger Hauer, Tom Wilkinson.
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