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Teatralidade e ilusionismo. Essas duas artes
que o jovem Bruce Wayne (Christian Bale), futuro Batman,
aprende junto à Liga das Sombras - entidade milenar
que combate o crime - na verdade se revelam as palavras-chave
de "Batman Begins". A veia teatral vem de um
roteiro caprichado, tanto nos diálogos quanto aos personagens,
que também procura dar um aspecto de forte vínculo com
a realidade para os especiais poderes e para as motivações
do Homem-Morcego. A feição ilusional emerge de uma admirável
concepção visual, bem como do uso correto, ponderado,
de efeitos especiais.
Pois é assim descortinado o espetáculo que tal filme
proporciona. Sem os exageros cômico-farsescos das fitas
relativas ao herói, outrora dirigidas por Joel Schumacher
em 95 e 97, as quais findaram por soterrar a série,
e bebendo parcialmente da fonte das obras de Tim Burton
que a iniciaram, realizadas em 89 e 92, porém mantendo
uma certa identidade autônoma, "Batman Begins"
narra as origens do Cavaleiro das Trevas com uma bem-vinda
didática e uma surpreendente desenvoltura. O contexto
histórico-social e os aspectos psicológicos do protagonista
da história são frisados, bem como as situações apresentadas
pelo roteiro se mostram coerentes, além de servirem
de escada para boas passagens de ação. Cabe então destacar
o mérito de seus escritores, David S. Goyer ("Blade
Trinity") e Christopher Nolan, este também condutor
do filme.
A direção de Nolan (realizador dos excelentes "Amnésia"
e "Insônia") se mostra segura, competente, e
sua credibilidade em transpor uma HQ tão cultuada para
a tela grande está alicerçada no coerente e belo trabalho
de fotografia efetuado por Wally Pfister (habitual parceiro
do diretor, operando nas obras anteriores dele), apropriado
de levar aos fotogramas da película a atmosfera sombria
dos quadrinhos a ela associados.
Ao contrário do que muitos pensavam - incluindo este
que lhes escreve - Christian Bale se mostra adequado
a encarnar Bruce Wayne e vestir a indumentária de Batman.
O ator convence, na atuação e na fotogenia, como o personagem-título.
Quanto aos papéis auxiliares, estes podem ser divididos
em dois grupos, pela qualidade. Os coadjuvantes que
se destacam por sua expressividade, como o Alfred de
Michael Caine (roubando a cena), o James Gordon do sempre
ótimo Gary Oldman e o fleumático Henri Ducard vivido
por um Liam Neeson que parece ter enveredado pelos papéis
de mestre/mentor, a julgar suas últimas aparições, como
em "A Ameaça Fantasma", "Kinsey", "Cruzada"
e aqui. O outro grupo é o daqueles que cumprem sua função
sem se sobressair, mas não comprometem. É o caso dos
atores Morgan Freeman, Cillian Murphy, Katie Holmes,
Rutger Hauer, Tom Wilkinson.
Juntando qualidade artística com diversão eficaz, "Batman
Begins" não apenas dá um novo início à série sobre
esse herói, mas também fornece um impulso estrondoso
às possíveis continuações (uma delas é sugerida ao final
da fita), que, se mantiverem o nível deste, merecem
ser muito aguardadas, pois delas se esperam a teatralidade
e o ilusionismo que aqui foram os condutores
do show. Bem-vinda volta ao princípio.
BATMAN BEGINS (idem, 2005)
Direção: Christopher Nolan.
Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Michael
Caine, Liam Neeson, Gary Oldman, Cillian Murphy, Morgan
Freeman, Rutger Hauer, Tom Wilkinson.
COTAÇÃO: ****
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