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É preciso tirar o chapéu para o realizador Christopher
Nolan. Esse inglês conseguiu devolver credibilidade
à série cinematográfica do Homem-Morcego após ela ser
implodida pelo terrível filme de Joel Schumacher em
1997. Com "Batman Begins" (2005), o diretor e
co-roteirista Nolan pavimentou o caminho para um novo
rumo em se narrar as aventuras do alter-ego heróico
de Bruce Wayne. Começou do zero, abriu mão do
fantasismo que minou seu predecessor e optou por utilizar
como sua base a ligação com a realidade.
Pois o trabalho mais recente do cineasta, "Batman
- O Cavaleiro das Trevas" ("The Dark Knight",
2008), segue os padrões estético, conceitual e sobretudo,
de qualidade, que nortearam "Begins". A conexão
com o real permanece. A fotografia de Wally Pfister,
usual colaborador de Nolan, mantém - e melhor, aqui
acentua - a escura estampa gótica do primeiro. O elenco
ajuda deveras para o êxito da película. Michael Caine
e Morgan Freeman, nomes de peso, repetem seus personagens
competentemente e apóiam na tarefa de dar uma
boa sensação de continuidade entre as obras. Quem também
retorna é Gary Oldman, mas este faz mais que a coadjuvância
de seus colegas célebres: se destaca deles no acento
dramático com sua participação como o Tenente
Gordon. Um veterano e esquecido Eric Roberts é trazido
de volta aos holofotes por bom trabalho de casting,
como haviam feito com o decadente Rutger Hauer em 2005.
Christian Bale novamente cumpre bem o papel-título.
Maggie Gyllenhaal e sua voz ronronante dão um pouco
a mais de sal ao papel de Rachel Dawes, fazendo esquecer
a chatinha Katie Holmes de antes.
Como é usual nesse tipo de filme, os vilões roubam a
cena. Aaron Eckhart, um ator irregular (estão aí atuações
dele tão díspares qualitativamente entre si quanto o
são as de "Obrigado por Fumar" de 2005, e "O
Núcleo" de 2003), tem grande momento como o promotor
Harvey Dent, e sua transição inicial para o maligno
Duas Caras é bem explorada pelo roteiro, que já o "engatilha"
para a próxima aventura cinematográfica do Cruzado Embuçado.
Entanto, tal roteiro já não tem a mesma felicidade quando
rejeita em mostrar as origens do Coringa, inclusive
por se negar ao uso do flashback como recurso.
A vida pregressa do personagem é pinçada pontualmente,
de forma textual ao longo de alguns diálogos: bom para
a imaginação, mas preguiçoso na realização e um tanto
pretensioso em querer fazer do Palhaço do Crime
um vilão absoluto, sem maiores explicações
para seu comportamento e seus desígnios. Essa
falha no esmiuçamento do papel em questão é compensada
pelo mérito da interpretação impressionante de Heath
Ledger em seu derradeiro trabalho. Atingiu ele o Coringa
definitivo, batendo aquele de Jack Nicholson no filme
de Tim Burton, e que naturalmente não pode ser comparado
ao de Cesar Romero na série de TV sessentista - esse
deliberadamente hilário e, por tal fato, de outra estirpe.
Ledger está assustador. Construiu um vilão com acento
fortemente naturalista, mostrando ir além do método
stanislawskiano de arrancar o papel do íntimo de seu
intérprete. Ele o revestiu de nuances que lhe dão uma
autenticidade marcante, usando recursos como grunhidos,
tiques nervosos e gestos desmesurados que poucos fariam
eficientemente, e jamais chega às raias do overacting.
É inimaginável como aquele ator que com ar blasé
fechou contrato para o papel de arquiinimigo de Batman
acabaria se embrenhando visceralmente em tal tarefa,
ao menos do que fora reportado e do que pode ser sentido
na tela. Dizer que isso tenha alguma relação com seu
óbito é das duas, uma: funesta especulação ou mito hollywoodiano
(embora especulações e mitos não sejam necessariamente
mentiras e dêem muito pano para manga: ainda hoje
se fala da morte acidental de Brandon Lee durante as
gravações de "O Corvo" - 1994). A sua indicação
póstuma ao Oscar figura possível, ainda que qualquer
campanha nesse sentido encontre o problema do esquecimento
(faltam quase seis meses para a temporada do prêmio)
e também uma barreira histórica a ser vencida. O último
vencedor falecido foi há mais de trinta anos atrás,
Peter Finch por "Rede de Intrigas" (1976). A
Academia de Hollywood já ignorou premiações na mesma
condição para verdadeiras lendas da indústria americana,
como Spencer Tracy e James Dean. Aclamaria Ledger? Dificilmente,
embora os tempos atuais sejam outros.
Não há de se negar o quanto o roteiro de "O Cavaleiro
das Trevas" privilegia, salvo alguns poucos escorregões,
uma construção profunda de seus personagens essenciais.
Isto traz um reflexo imediato: a edificação de um forte
núcleo dramático, raro para um blockbuster. Esse
aspecto desenvolto da trama praticamente sustentaria
a película por si só, cabendo às cenas de ação física
um papel secundário, complementar. Só que Nolan e seu
irmão, que escreveram o texto, acabaram dando ouvidos
demais aos críticos de "Batman Begins", os quais,
entre diversos disparates, falaram desdenhosamente de
que aquele se tratava de "um filme de ação...sem ação".
Como resultado, esta acaba transbordando no novo exemplar.
Felizmente, ela nunca aparece postiça, mas ganha lá
seus exageros, que surpreendem em um filme do britânico.
Quase toda vez que Batman está na tela, tem pancadaria
rolando. Algumas das cenas de ação têm influência
da escola do clipe, flertando com o estilo que acha
em Tony Scott e Michael Bay dois de seus expoentes:
cortes rápidos, pirotecnia, intensidade, muita informação
visual em cenas bem curtas. O diretor se permite até
a fazer com sua câmera dois travellings
circulares, quase consecutivos. Para quem foi acusado
de ser "água morna" anteriormente, é praticamente um
choque - e não deixa de ser algo curioso.
Talvez o que também cause uma certa estranheza
no espectador que vê a "O Cavaleiro das Trevas" é
o fato de ser um filme que aparenta desejar servir a
dois senhores ao mesmo tempo. Quer ser um drama consistente
(e sintonizado com o nosso tempo) e igualmente apresentar
ação de qualidade. Consegue satisfatoriamente fazer
os dois, mesmo que à base de um vigoroso tour
de force, se empenhando para não deixar o ritmo
oscilar, ao longo e ao custo de mais de duas horas e
meia de projeção. Aliás, a meia hora final...Deixa a
dever quanto ao destino de um personagem fundamental,
mas merece ser perdoada, pois abriga um elogioso exercício
de tensão com direito a um momento tipicamente hitchcockiano.
Aos segundos derradeiros dela, surge um involuntário
(ou não) paralelo com o finalzinho de "Os Brutos
Também Amam" (1953), note isso e verá ainda
o quanto Shane e Batman têm traços em comum,
como o protótipo "forasteiro que vem para
tentar fazer justiça".
A nova aventura do Homem-Morcego não é apenas uma reedição
do velho mote narrativo da luta entre o bem e o mal.
Mais do que tal, trata de um combate entre a ordem e
o caos, entre a civilização e a barbárie, e por essas
causas, resulta numa dupla alegoria: a da batalha urbana
dos dias atuais nos seus mais diferentes estratos e
a dos conflitos internos do homem quanto aos seus princípios
morais.
BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS (The Dark
Knight, 2008)
Direção: Christopher Nolan.
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart,
Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Morgan
Freeman, Eric Roberts, Monique Curnen, Chin Han.
COTAÇÃO: ****
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