|
|
|
|
| |
| |
| |
|
OS
OLHOS ABERTOS DA AMÉRICA LATINA
|
|
Alexandre
Mesquita
|
| |
 |
| |
Longe é apelido. Geograficamente a cidade de Melo,
no Uruguai, está a sessenta quilômetros da fronteira com
o Rio Grande do Sul, mas seus cidadãos diriam que ela
fica muito longe, longe até dos apelidos. A matriz econômica
é o dinheiro da venda de bebidas, cigarros, perfumes e
miudezas trazidos pela parte economicamente ativa da população,
os muambeiros. Cento e vinte quilômetros de pedaladas
em tortas bicicletas para ir e votar do Brasil. Para eles,
sinônimo de sorte é conseguir atravessar a barreira dos
militares e do fiscal alfandegário sem pagar propina.
Se alguém dissesse que o Papa em pessoa faria uma missa
em Melo, esse poderia aproveitar e dizer que é o próprio
Papa, duas piadas em uma. Porém, acreditem, o Papa resolveu
mesmo ir a Melo. O que pensaram os moradores da pequena
cidade quando souberam que sua santidade os agraciaria
com sua disputada presença?
Hora de faturar.
Ano de 1998. Muita gente está penhorando suas posses para
produzir comercialmente pastéis e lingüiças e receber
a enorme multidão esperada de todos os cantos do Uruguai
e Brasil. O muambeiro Beto (César Trancoso) quer dar uma
perspectiva melhor para a mulher Carmen (Virginia Mendez)
e a filha Silvia (Virginia Ruiz), esta desejosa de ir
a Montevidéu estudar locução de rádio - mas a conta de
luz está atrasada há alguns meses. Ele tem um surto de
raciocínio lógico ao perceber que as necessidades da fé,
da bexiga e do intestino têm poderes semelhantes. Uma
multidão de fiéis rezando horas e consumindo, com certeza
sofrerá de um incômodo que facilmente se tornará desespero.
Hora de faturar. Beto tem a brilhante idéia de construir
um banheiro no seu pequeno país que é seu quintal. No
espaço limitado de um metro quadrado projeta erguer uma
galinha dos ovos de ouro. Pegando dinheiro emprestado
daqui e dali, fazendo negócios escusos até, o determinado
muambeiro, com a ajuda da esposa, da filha e amigos, vai
erguendo sua idéia, enquanto os dias para a chegada de
sua Santidade e para a compra da peça fundamental, a privada,
vão diminuindo.
Alojar-se atrás dos olhos de qualquer um dos personagens
é ver a América Latina e mais, seus problemas e suas virtudes.
Gente que leva um filme inteiro para obstinadamente construir
um banheiro e deixa para conseguir a privada apenas no
único dia em que ela já deveria estar lá. O pessoal da
muamba enfrenta todos os dias um chão avesso a bicicletas,
fugindo da fiscalização, atravessando charcos e vegetação
espinhenta, machucando-se, torturando-se, mas sem deixar
cair um uísque ou perfume sequer. Os cidadãos de Melo
no filme são como as pradarias da região, simples e planos
quando vistos de longe, mas com buracos, elevações, pântanos
e outras irregularidades quando se caminha por eles. Complexos
e cativantes. Pobres, birrentos, judiados, invejosos.
Porém generosos, amigos, ternos, apaixonados. Não há a
beleza neles, mas há erotismo. Há as bebedeiras do marido
e sugestão de violência contra a esposa, mas não há concretização.
Há brigas, há carinho. Há pobreza, há a vontade de lutar
contra ela.
Nunca negar para si um sonho é forma de sobrevivência,
diz a América Latina por trás dos olhos. Entanto, para
isso é preciso ter a coragem de lutar para materializar
o que vem da mente, coragem para buscar uma vida verde
que se estenda orgulhosamente até onde a vista alcança,
como as pradarias.
Nesta coragem se confundem criador e criatura.
Fazer cinema com pouco dinheiro é, infelizmente, ter mais
obrigações do que direitos. Tal como os personagens de
Melo, a equipe de O Banheiro do Papa (El Baño
del Papa, Uruguai/Brasil/França, 2007), liderada pelos
diretores e roteiristas César Charlone (conhecido pela
direção de fotografia de Cidade de Deus) e Enrique
Fernández, abraçou a causa e deu o melhor que podia. As
locações e os ângulos da câmera são limitados, mas sabem
muito bem o que querem. O treinamento que a família faz
para receber o aflito freguês e selecionar a quantidade
de papel higiênico necessária, o senhor vai usar o
banheiro completa ou parcialmente?, é para boas gargalhadas.
A perseguição das bicicletas chega a ser emocionante (pensei
ter visto Michael Bay com uma cuia de chimarrão). A cena
dos grãos de milho, barata e inspirada. O singelo e eloqüente
desfecho. Alguns problemas de continuidade confundem,
e informações são perdidas pelo caminho. Detalhe compreensível
a olhos menos exigentes.
O resultado, portanto, não tem milhões de dólares envolvidos,
mas no mínimo tem o que alguém gostaria de ver quando
vai atrás de um bom filme. Se não é perfeito, é dessas
obras que realizam fotossíntese, devolvendo oxigênio cinematográfico
para o ar de uma cidade. O fenômeno que tomou conta do
meio cinéfilo porto-alegrense tem justíssima razão de
ser.
Saí de O Banheiro do Papa sentindo um carinho enorme
pelas privadas.
O BANHEIRO DO PAPA (El Baño del Papa, Uruguai/Brasil/França,
2007)
Direção: César Charlone e Enrique Fernández.
Elenco: César Trancoso, Virginia Mendez, Virginia
Ruiz, Mario Silva, Nelson Lence.
Cotação: ****
|
| |
|
|
|