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A
AMÉRICA LATINA SOB AS
LENTES WOODYANAS
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por
Luiz Santiago
Historiador e Crítico de Cinema
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Bananas (1971), é o segundo filme dirigido
por Woody Allen, e o início da delineação de sua persona
cinematográfica, que estaria pronta seis anos depois,
em sua revolução estética e formal como cineasta (Annie
Hall, 1977), e que permearia toda a sua filmografia
dali para frente.
Neste segundo filme, Woody Allen conserva em cada sequência
a individualidade do humor, com piadas-situações totalmente
distintas para cada espaço cênico, seguindo a linha do
que se convencionou chamar de "estilo piada-piada-piada"
- que é, na verdade, reflexo de seus tempos de comediante
stand-up.
Logo nos primeiros minutos de Bananas, saltam aos
olhos essas situações aparentemente desconexas, embora
façam parte da mesma história. É impressionante constatar
como o diretor conseguiu dirigir cinco filmes nessa mesma
linha de "uma piada por sequência", sem alterar a inteligibilidade
e o caráter cinematográfico da obra: Um assaltante
bem trapalhão (1969), Bananas (1971), Tudo
o que você sempre quis saber sobe sexo... (1972),
Dorminhoco (1973) e A última noite de Boris
Grushenko (1975).
Bananas é um daqueles filmes que não dá pausa alguma
para o espectador, executando o riso do primeiro ao último
minuto. Mas, apesar do toque predominante do humor nessa
obra, Woody Allen, que não é, não foi, jamais será e não
deseja ser um cineasta político (ele mesmo diz que alguns
de seus colegas podem fazer "isso" melhor do que ele,
o que é pura verdade), faz uma obra que tem como linha
narrativa eventos políticos e mudanças sociais ocorridas
em toda a América Latina, iniciadas a partir das independências
do século XIX, mas que ganham novos patamares no século
XX.
Façamos um breve apanhado histórico desses movimentos
para que possamos entender o campo histórico explorado
pelo cineasta estadunidense.
Essas manifestações populares latino-americanas, de forte
caráter político, e de forte tendência socialista (ou
"latinizações" desse sistema), sempre incomodaram os países
capitalistas, principalmente aos Estados Unidos, que via
(e vê) nesses movimentos, a possibilidade da diminuição
ou até interrupção de seus ganhos econômicos nesses países.
Principalmente após a Segunda Guerra Mundial, ao passo
que ascendiam tendências liberalistas e partidos conservadores,
e que explodiam golpes militares por toda a América Latina
(Brasil em 1964, Chile em 1973, Uruguai em 1973, Argentina
em 1966 e 1976, por exemplo), apareciam grupos populares
revolucionários dispostos a pegar em armas e lutar contra
os governos instituídos (os casos clássicos e vitoriosos
são os de Cuba, em 1959, e o da Frente Sandinista, na
Nicarágua, em 1979). Vale citar mais uma coisa: a maioria
dos países latinos, por terem um clima predominantemente
tropical, cultivam a banana, planta muito popular dessas
regiões.
Woody Allen faz uso de todos esses elementos (mais uma
pequena carga teórica e temas muito particulares como
relacionamentos, sexo e judaísmo) para fechar o roteiro
de Bananas, que escreveu em parceria com o amigo
de longa data, Mickey Rose.
O filme teve locações em Porto Rico e nos Estados Unidos,
e conta a história de Fielding Mellish (Woody Allen),
um descontente testador de produtos de uma grande empresa,
que tem sua vida mudada por uma ativista política que
bate em sua porta apresentando-lhe um abaixo-assinado.
Essa garota, Nancy (Louise Lasser), torna-se namorada
de Mellish, mas o abandona, dizendo que lhe falta "algo".
Triste e sozinho, Mellish sai do emprego e vai passar
férias na República de San Marcos. Sem saber, torna-se
alvo de uma conspiração do governo para culpar os comunistas
de assassinar um cidadão americano, mas consegue fugir,
sendo em seguida atacado pelas costas. Ao acordar, percebe
que foi sequestrado pelos rebeldes, e fica com eles até
o fim da Revolução, quando tomam o poder. Esposito, o
líder dos revolucionários, no entanto, acaba enlouquecendo
(promulgando leis do tipo: "todo o cidadão de San Marcos
menor de 16 anos, a partir de hoje, terá 16 anos"), e
a contra-revolução é articulada com Mellish, como líder.
Por "motivos diplomáticos", ele viaja para os Estados
Unidos, mas é descoberto pelo FBI, sendo levado a julgamento,
onde faz a sua própria defesa. O final é surpreendente.
A personagem principal de Bananas passa por uma
enorme "educação" política, indo do cético e apolítico
que abandonou o curso de Estudos Afros na Universidade
a líder revolucionário de uma República latino-americana.
Não é preciso dizer que toda essa tomada de consciência
política e preparação para a guerrilha é extremamente
hilária. Ainda poderíamos citar a sequência de sua autodefesa
no tribunal, certamente uma das melhores sequências cômicas
em tribunais, do cinema (nivela-se às excelentes cenas
do julgamento em A costela de Adão, de 1949). Além
disso, tudo se torna ainda mais cômico, porque a personagem
revolucionária de Mellish é uma sátira a Fidel Castro.
Seu não-discurso para uma plateia de ricos burgueses americanos
é espetacular.
Além de tomar a América Latina como palco de seu humor
irreverente, Woody Allen critica a indústria televisiva
estadunidense, especialmente os noticiários. Na abertura
de Bananas, temos uma transmissão ao vivo de San Marcos,
feita por um programa de esportes! Observe como é construída
essa dualidade satírica: política latina e crítica à TV.
A cena descrita abaixo é a abertura do filme:
- Boa tarde. "Mundo dos Esportes" está na pequena República
de San Marcos. Mostraremos ao vivo a vocês um assassinato
sumário. O presidente deste adorável país da América Latina
será morto, e substituído por uma ditadura militar. Todos
estão tremendamente eufóricos. O clima nessa tarde de
domingo está perfeito. Vimos uma série de tumultos coloridos,
que começou com o tradicional bombardeio à Embaixada americana,
um ritual tão velho quanto a cidade. [...]
E a abertura se segue até o assassinato do presidente,
como previsto. Toda a sequência desse assassinato é bem
televisiva mesmo, com planos de detalhe na mão do assassino,
no revólver, no presidente caindo nas escadarias do Palácio
do Governo, etc.. Então aparecem os créditos iniciais,
embalados peça canção "Quiero la noche" , composta
por Marvin Hamlish, que assina a trilha sonora do filme.
Esteticamente, Bananas é um filme comum, com cenários
geralmente muito claros, onde se pode divisar bem os atores
- noção fotográfica que o diretor carrega até hoje, mas
trabalhada de forma infinitamente mais artística, mesmo
nas tendências mais escuras, como nos filmes fotografados
por Gordon Willis, especialmente Interiores (1978)
e Memórias (1980). As preocupações estéticas de
Woody Allen só começariam a aparecer em seu filme seguinte.
O cineasta traz à tona uma realidade social de sua época.
Embebidas em humor, vemos as lutas populares, as ditaduras,
o sistema jurídico e os relacionamentos. Bananas
é o início da afirmação de Woody Allen como diretor de
cinema. Mesmo sendo um filme quase unicamente composto
por quadros de ação cheios de gags, a forma como o diretor
conseguiu enlaçar toda a história, fez de Bananas
um incrível filme cômico, e um excelente exemplar de início
de carreira.
BANANAS (Idem, EUA, 1971)
Direção: Woody Allen.
Elenco principal: Woody Allen, Louise Lasser ,
Carlos Montalbán , Natividad Abascal, Jacobo Morales,
Miguel Ángel Suárez, David Ortiz, René Enríquez, Jack
Axelrod, Howard Cosell, Roger Grimsby, Don Dunphy.
Cotação: ***
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