COSTURANDO BALZAC
Ricardo Rangel
 
 

O que esperar de um filme que reúne livros do escritor francês Honoré de Balzac, jovens burgueses contraventores do regime maoísta na China e uma pequena costureira iletrada que vive em um campo de reeducação nesse mesmo país? Pois esses são os elementos do bom "Balzac e a Costureirinha Chinesa", do diretor Dai Sijie, uma co-produção chinesa e francesa.

Em "Balzac...", dois jovens chineses são enviados a um campo de reeducação no interior da China, acusados de contravenção durante a ditadura comunista de Mao Tsé Tung. Lá, eles conhecem uma menina um pouco mais nova que é a costureira do local, apelidada pelos mesmos carinhosamente de "costureirinha". Ela não sabe ler, é ignorante em relação a assuntos como Literatura e Política, por exemplo, e desperta um fascínio nos dois garotos, que encasquetam que irão iniciá-la na arte literária e em cultura geral. O que se sucede a partir de então, são curiosas situações envolvendo esses três personagens, a quem o filme constantemente gira em torno: o sentimento que a costureirinha, com seu jeito simplório e delicado, desperta em ambos, que a amam dentro de seus respectivos modos, e a amizade que irrompe nesse ínterim como um imperativo de elevada valoração, sendo este o sentimento predominante ao longo de praticamente toda a projeção. Esta amizade referida tem como fio condutor e motivação exatamente os livros, especialmente os de Balzac, que nos é recitado em vários momentos, para deleite dos apreciadores do escritor de "Madame Bovary"e de "A Mulher de Trinta Anos", por exemplo, além de outras dádivas da Literatura Francesa. O processo de aprendizado e encantamento da costureirinha com a obra de Balzac e o seu desabrochamento para a vida são muito bem desenvolvidos, em que ela descobre, em meio a pensamentos e histórias fantásticas, o valor da existência humana, e a ver que o mundo é muito maior do que o universo limitado em que vive. Seus sonhos são revelados, e ela resolve conhecer a realidade dos livros, para desespero dos rapazes, que foram além na sua tarefa de reeducação, ou melhor, de educação de uma jovem mente que ansiava por novas idéias. O tempo passa, a costureirinha perdeu-se (ou achou-se verdadeiramente, de fato) no mundo, e os dois protagonistas separam-se, cada um levando uma vida diferente, mas identificada pelo intelectualismo: enquanto um torna-se músico da Orquestra Sinfônica de Paris (e que outrora nutria, e ainda nutre, uma paixão platônica pela moça), o outro é um respeitável professor universitário de Odontologia, agora casado (e que namorara a costureirinha na juventude). Ao reencontrarem-se, a amizade entre ambos continua, e nunca morreu, motivada pelas lembranças nostálgicas do passado, especialmente daquela jovem chinesinha, que mudara definitivamente a existência um tanto quanto vazia de ambos: a costureirinha chinesa.

Com uma narração que ganha força após a primeira metade da projeção, uma bela fotografia, ambientada em lugares paradisíacos do interior da China, mostrando com isso as belezas naturais deste magnífico país, e uma crítica nem tanto velada ao maoísmo e as acusações de obras subversivas ao regime totalitário vigente da época, que proibia que se tivesse acesso a cultura que não fosse pertencente ao regime de Mao Tsé Tung (alguma semelhança com os ideais nacionalistas alemães do Terceiro Reich?) sob a égide desta injustificável subversão, "Balzac e a Costureirinha Chinesa" é um filme sutil, ingênuo em alguns momentos, que trata amor, amizade, literatura e política com o mesmo peso que todos merecem, ou seja, dá importância a todos, e em igual tamanho.


BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA
(Balzac et La Petite Tailleuse Chinoise, 2002)

Direção: Dai Sijie.

Elenco: Xun Zhou, Kun Chen, Ye Liu, Shuangbao Wang, Zhijun Cong, Hong Wei Wang.

COTAÇÃO: ***