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O que esperar de um filme que reúne livros
do escritor francês Honoré de Balzac, jovens burgueses
contraventores do regime maoísta na China e uma pequena
costureira iletrada que vive em um campo de reeducação
nesse mesmo país? Pois esses são os elementos do bom
"Balzac e a Costureirinha Chinesa", do diretor Dai Sijie,
uma co-produção chinesa e francesa.
Em "Balzac...", dois jovens chineses são enviados a
um campo de reeducação no interior da China, acusados
de contravenção durante a ditadura comunista de Mao
Tsé Tung. Lá, eles conhecem uma menina um pouco mais
nova que é a costureira do local, apelidada pelos mesmos
carinhosamente de "costureirinha". Ela não sabe ler,
é ignorante em relação a assuntos como Literatura e
Política, por exemplo, e desperta um fascínio nos dois
garotos, que encasquetam que irão iniciá-la na arte
literária e em cultura geral. O que se sucede a partir
de então, são curiosas situações envolvendo esses três
personagens, a quem o filme constantemente gira em torno:
o sentimento que a costureirinha, com seu jeito simplório
e delicado, desperta em ambos, que a amam dentro de
seus respectivos modos, e a amizade que irrompe nesse
ínterim como um imperativo de elevada valoração, sendo
este o sentimento predominante ao longo de praticamente
toda a projeção. Esta amizade referida tem como fio
condutor e motivação exatamente os livros, especialmente
os de Balzac, que nos é recitado em vários momentos,
para deleite dos apreciadores do escritor de "Madame
Bovary"e de "A Mulher de Trinta Anos", por exemplo,
além de outras dádivas da Literatura Francesa. O processo
de aprendizado e encantamento da costureirinha com a
obra de Balzac e o seu desabrochamento para a vida são
muito bem desenvolvidos, em que ela descobre, em meio
a pensamentos e histórias fantásticas, o valor da existência
humana, e a ver que o mundo é muito maior do que o universo
limitado em que vive. Seus sonhos são revelados, e ela
resolve conhecer a realidade dos livros, para desespero
dos rapazes, que foram além na sua tarefa de reeducação,
ou melhor, de educação de uma jovem mente que ansiava
por novas idéias. O tempo passa, a costureirinha perdeu-se
(ou achou-se verdadeiramente, de fato) no mundo, e os
dois protagonistas separam-se, cada um levando uma vida
diferente, mas identificada pelo intelectualismo: enquanto
um torna-se músico da Orquestra Sinfônica de Paris (e
que outrora nutria, e ainda nutre, uma paixão platônica
pela moça), o outro é um respeitável professor universitário
de Odontologia, agora casado (e que namorara a costureirinha
na juventude). Ao reencontrarem-se, a amizade entre
ambos continua, e nunca morreu, motivada pelas lembranças
nostálgicas do passado, especialmente daquela jovem
chinesinha, que mudara definitivamente a existência
um tanto quanto vazia de ambos: a costureirinha chinesa.
Com uma narração que ganha força após a primeira metade
da projeção, uma bela fotografia, ambientada em lugares
paradisíacos do interior da China, mostrando com isso
as belezas naturais deste magnífico país, e uma crítica
nem tanto velada ao maoísmo e as acusações de obras
subversivas ao regime totalitário vigente da época,
que proibia que se tivesse acesso a cultura que não
fosse pertencente ao regime de Mao Tsé Tung (alguma
semelhança com os ideais nacionalistas alemães do Terceiro
Reich?) sob a égide desta injustificável subversão,
"Balzac e a Costureirinha Chinesa" é um filme sutil,
ingênuo em alguns momentos, que trata amor, amizade,
literatura e política com o mesmo peso que todos merecem,
ou seja, dá importância a todos, e em igual tamanho.
BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA (Balzac et La
Petite Tailleuse Chinoise, 2002)
Direção: Dai Sijie.
Elenco: Xun Zhou, Kun Chen, Ye Liu, Shuangbao
Wang, Zhijun Cong, Hong Wei Wang.
COTAÇÃO: ***
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