"UM TIRO, QUATRO HISTÓRIAS"
ou
" UM TRIPÉ QUEBRADO"

Adriano de Oliveira
 
 

"Babel", de Alejandro González Iñárritu, vem para encerrar a trilogia iniciada em 2000 com "Amores Brutos" e que teve segundo capítulo com "21 Gramas" em 2003, películas caracterizadas por apresentarem histórias entrelaçadas e de forte drama humano. É o mais pretensioso dos três filmes, mas não é o melhor deles. Discutiremos isso um pouco adiante.

O roteirista Guillermo Arriaga, habitual parceiro do diretor, sendo também autor dos textos das duas outras obras do tríptico, trabalha aqui com uma espécie de "efeito borboleta" da ação humana em escala global. Mira longe, portanto. E não por acaso, tudo começa com um tiro sendo o motor da trama. No Marrocos, dois garotos que protegem a criação de cabras da família da ameaça dos chacais, munidos de um rifle fazem uma aposta irresponsável, atirando em um ônibus de turistas. O disparo fere seriamente a americana Susan (Cate Blanchett), e a partir de então vemos um mosaico de causas e conseqüências ligadas ao evento, envolvendo pessoas muito diversas, em lugares do mundo tão variados quanto, bem como entrelaçando, além das duas histórias já citadas - a que envolve os garotos marroquinos e a que cerca a turista -, outras duas: a da babá dos filhos de Susan que, em território americano, pretende ir a um casamento no México, e a de uma difícil relação entre um homem japonês e sua filha surda. Em torno dessas quatro histórias, gravita um sem-número de personagens, e interessantes conexões entre eles são feitas, embora algumas delas apareçam forçadas.

Se "Babel" pretende ser um estudo sobre a dificuldade de comunicação como um empecilho para as relações humanas, pode-se então dizer que tal desígnio é realizado a contento, porém não mais do que isso, mesmo com um trunfo na mão do roteiro: a saber, este têm ao seu dispor uma metáfora, a qual consiste na personagem da menina japonesa surda e seus percalços em entender o mundo ao seu redor e se notar compreendida, o que também ecoa como metalinguagem. Há que se lembrar, entanto, que Antonioni fazia muito mais ao tratar do mesmo tema da incomunicabilidade, empregando vias mais sutis e sem a necessidade de evocar barreiras lingüísticas, um cavalo-de-batalha do texto de Arriaga. Por outro lado, se o novo filme de Iñárritu ambiciona realizar um tratado sobre o preconceito, basta recordar que até o mediano "Crash - No Limite" chegou a resultados melhores.

Porém, os maiores inimigos de "Babel" não estão em outras filmografias, e sim, na trilogia a que pertence em si, ou seja, os rivais se situam dentro de sua própria casa. À nova obra do diretor faltam a pungência e o fato novo de "Amores Brutos", a desconstrução narrativa mais elaborada e a força dramática de "21 Gramas", entre outros. Não bastassem esses fatores, "Babel" se ressente de um roteiro que deixa a desejar em relação aos anteriores, do desgaste da fórmula (num incômodo déjà vu) e dos desnecessários minutos excessivos de sua cansativa metragem. Circularidade, para bem e, principalmente, para mal, é a palavra de ordem que campeia neste filme.

Claro que se há de destacar pontos eficientes, e o mais notável deles está no elenco, muito bom como um todo, capaz de fazer atrizes desconhecidas como Rinko Kikuchi (a surda japonesa Chieko) e Adriana Barraza (a babá mexicana Amelia) ocultarem os trabalhos interessantes de estrelas como Brad Pitt e Cate Blanchett (como o casal de turistas Richard e Susan). A fotografia de Rodrigo Prieto e a montagem também brilham, embora esta em grau menor. A trilha sonora de Gustavo Santaolalla aparece de modo efetivo entre vários períodos de silêncio da fita, ainda que não seja das mais inspiradas - o autor utiliza a sua peça "Iguazu", que não fora originalmente composta para o filme, assim como a tal nem é inédita em uma obra cinematográfica, tendo sido empregada (e de modo bem mais poético) em "O Informante"; substitua-se aqui, então, o "já visto" pelo "já ouvido".

Notadamente, o diretor mostra grande controle e boa visão sobre o filme que conduz, o que não lhe impede de escorregar na própria pretensão, a qual inclui as famosas cenas "para ganhar prêmios" e o encolhimento da inteligente fragmentação dos seus trabalhos primitivos supra-citados em prol de um filme mais palatável e, portanto, mais "votável" na hora de conquistar um extenso júri, como os do Globo de Ouro e Oscar, ou mesmo a platéia.

Fosse a tríade formada por "Amores Brutos", "21 Gramas" e "Babel" um tripé, o último seria a perna bamba dele. Ainda bem que Iñárritu e Arriaga têm estofo - a própria carreira unívoca dos dois que é anterior a este - para calçar tal artefato e não deixar cair como um todo este tripé quebrado.

BABEL (idem, 2006)

Direção: Alejandro González Iñárritu.

Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Adriana Barraza, Gael Garcia Bernal, Rinko Kikuchi, Clifton Collins Jr., Koji Yakusho.

COTAÇÃO: **