|
Estrelas, estúdios, sistemas: Cinema
Não há arte que melhor faça uso da metalinguagem do
que o cinema, especialmente se a empresa é feita por
um competente realizador, que pode transformar a sétima
arte em um encanto mítico, como podemos atestar em obras
do nível de Crepúsculo dos deuses (Billy Wilder,
1950), Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1987),
e Império dos sonhos (David Lynch, 2006), e também
em A vida e a morte do 9413, um figurante de Hollywood
(1928), filme de Robert Florey e Slavko Vorkapich.
O curta conta a história de John Jones, o figurante
9413, que vai para Hollywood tentar ser ator de cinema.
As suas idas e vindas aos testes de elenco, as constantes
recusas aliadas à falta de dinheiro para comer e pagar
as contas que não param de chegar, acabam causando o
seu definhamento, e por fim, a sua morte.
Os diretores não pouparam referências às grandes estrelas
ou ao sistema de estúdios, de escolha de atores, e de
como há uma "cartilha da hipocrisia" a ser seguida por
cada grande estrela, que representa a imagem da "intocável"
o tempo todo.
John Jones perde a sua identidade para se transformar
em um número. Em meio à turba de trabalhadores da indústria
cinematográfica, ele é o desconhecido figurante número
tal. Pouco tempo depois da primeira recusa, ele passa
a ter sonhos perturbadores, sempre ligados a uma riqueza
que jamais terá. No meio de sua jornada no "império
dos sonhos", John Jones encontra uma famosa estrela,
que, a cada parte de seu discurso usa uma máscara diferente,
e as retira, para apreciar os aplausos, que são muitos.
Jones chega a comprar uma máscara, mas não consegue
usá-la, e o preço é a sua exclusão do star system.
É completamente surpreendente o resultado obtido pelos
diretores, nas filmagens dos cenários-maquete estilizados,
como os do expressionismo alemão. A muito clara fotografia
do curta intensifica ainda mais essa sensação: uso de
luz e sombra em ambientes claustrofóbicos. A história
alcança o patamar de um quase conto de terror, e termina
de forma crítica, com uma felicidade pós-vida onde o
figurante alcançou o queria. A vida e a morte do
9413 é um dos melhores trabalhos, estética e formalmente
falando, do cinema avant-garde nos Estados Unidos, e
merece ser visto e revisto, já que permanece tão atual,
mesmo anos depois.
A VIDA E A MORTE DO 9413, UM FIGURANTE DE HOLLYWOOD
(The Life and Death of 9413, a Hollywood Extra,
Estados Unidos, 1928)
Direção: Robert Florey e Slavko Vorkapich.
Elenco Principal: Jules Raucourt, George Voya.
Cotação: *****
O cine-poesia a partir de um curta de Kirsandoff
Dimitri Kirsandoff nasceu na Estônia, em 1889, e emigrou
para Paris em 1923, onde se dedicou aos estudos musicais
na Ecole Normale de Musique. Sua primeira experiência
no cinema se deu no mesmo ano de sua chegada à capital
francesa.
Brumas de Outono (1929) marca o fim da primeira
fase da carreira de Kirsandoff, que a partir de então
produziria filmes mais comerciais, obras bem distintas
das que dirigira sob o movimento avant-garde.
É importante lembrarmos que Brumas de Outono
é obra de um músico-cineasta, que como tal, irá orquestrar
as sequências com equilíbrio visualmente poético - antes
mesmo do título, há a inscrição que define o curta,
um POEMA CINEMATOGRÁFICO.
A linguagem poética foi um elemento essencial para os
grandes realizadores do cinema avant-garde, que sempre
procuraram enxergar o cinema também como uma realização
lírica. Essa fusão entre palavra e imagem e a capacidade
de síntese da poesia, entrarão para o cinema via vanguardas,
e perdurarão até o cinema contemporâneo - para citar
pelo menos uma obra: Dolls (Takeshi Kitano, 2002).
A poesia, por sua vez, tem ritmo, assim como a música.
Ora, sendo Kirsandoff um músico estoniano, e sendo a
Estônia um país cuja cultura está muito próxima à cultura
russa (após a Segunda Guerra, Stálin anexaria o país
à URSS), Kirsandoff experimentará no cinema toda a influência
soviética que tivera da música, à composição cinematográfica.
Como, cinema poético? Para responder a essa questão,
recorremos à poesia russa, influência inegável de Kirsandoff.
Chamamos a atenção do leitor para a capacidade cênica
das duas estrofes abaixo, nosso primeiro exemplo, retiradas
do poema Os mistérios do ofício, e que mais parecem
um trecho de um roteiro:
Como esquecer? Ele saiu, sem reação,
A boca retorcida, em agonia...
Desci, correndo, sem tocar o corrimão,
E o encontrei no portão, quando saía.
"É tudo brincadeira, por favor,
Não parta, eu morro se você se for."
E ele, com um sorriso frio, isento,
Me disse apenas: "Não fique ao relento".
Anna Akhmátova, 1911
Vejamos agora um segundo exemplo, onde ressaltamos a
capacidade imagética (forma) que dá maior força
ao poema, quando enche as ideais dos versos de vida.
Nesse caso, escolhi o trecho final do poema Ver,
de Kandinski. Observe como a ideia de salto e de rompimento
se dão, imageticamente:
[...]
E neste branco salto um branco salto. Em cada
branco salto um branco salto.
E este é o mal, é que não vês o turvo:
no turvo é que ele está.
É aí que tudo começa....................................................
............................................ Rompeu-se........................
Kandinski, 1913
A essas tendências (cênica \ imagéica - formal \ conteudista),
dentro do avant-garde francês, Kirsandoff ainda acrescentará
a forte ligação que o cinema da Europa Oriental (e extremo
Oriente e países nórdicos) possui com a natureza, a
fusão e relação do homem e os elementos naturais. É
com todos esses ingredientes que o cineasta realizará
Brumas de Outono.
O curta narra a história de uma moça (interpretada por
Nadia Sibiskaia) que é abandonada pelo seu amor, e passa
a definhar, ante todas as cartas e lembranças que conserva
dele. A escolha do outono, nesse sentido, foi para intensificar
a desolação da personagem: ao passo que a paisagem se
acinzenta e umedece, e as folhas caem e a neblina não
cessa, a protagonista mergulha cada vez mais em seu
desalento. O cineasta faz um eficiente contraponto entre
os "dois mundos": o exterior da casa, e o seu interior
aquecido pela lareira, - o único elemento de felicidade
que ainda resta à personagem, dando-lhe calor em meio
ao duplo frio que a cerca: o frio do exterior da casa
é o mesmo que o da alma da jovem abandonada.
Há um pequeno flashback, onde vemos apenas a
mão do amado apertar a mão da personagem, e depois o
vemos descer as escadas e fechar o portão. Para essa,
e todas as sequências tristes, Kirsandoff estabeleceu
um modo de fazer o espectador entender que a personagem
está chorando: a câmera fora de foco, como se também
chorasse.
Na primeira parte do curta, somos apresentados aos dois
ambientes (interior exterior da casa) de formas muito
distintas: ao filmar o externo, o diretor usa planos
de diversas durações, e muitos ângulos, mas, ao passar
para o ambiente interno, há uma total economia de tudo,
como se a vida estática se enraizasse também na forma
como é mostrada, contaminando-a com sua imobilidade.
Já na segunda parte, logo após o flashback, a
personagem sai da casa, e sua interação com o ambiente
é total: a câmera foca seus pés por entre folhas caídas
e pedras, seu corpo encostado em uma árvore, suas pernas
em movimento ao lado do rio.
O sentido deste curta-metragem de 12 minutos é dúbio.
Não sabemos de fato qual é o "destino" da personagem.
Se o outono simboliza o seu estado de espírito, logo
concluímos que um período pior se aproxima: o inverno.
Se as brumas simbolizam um estado indefinido, onde não
se consegue divisar nada, concluímos que o estado de
dúvida durará um pouco mais, antes de dissipar-se. Se
o rio, mostrado desde o início do filme, simboliza a
corrente da vida e da morte, a renovação, a mudança
perpétua (Heráclito), podemos afirmar que esse momento
desolador também irá passar, mas, qual será o seu estado
futuro da triste jovem, é impossível definir.
Kirsandoff faz um verdadeiro poema cinematográfico sobre
o sofrimento e a passagem do tempo e das coisas, em
um curta-metragem experimental que, apesar de manter
uma narrativa linear, em nada fica aquém das propostas
vanguardistas do período em que foi realizado. Uma obra
sensível e esteticamente belíssima, um dos melhores
filmes-poema que já vi.
BRUMAS DE OUTONO (Brumes d'automne, França,
1929)
Direção: Dimitri Kirsandoff.
Elenco Principal: Nadia Sibirskaia.
Cotação: *****
Überfall: sintomas da Alemanha pré-nazista
Em 1919, um ano após o término da Primeira Guerra Mundial,
foi promulgada uma nova Constituição na Alemanha. Ela
estabelecia uma democracia liberal parlamentar, e deu
início à República de Weimar (1919 - 1933), em cujo
início de existência o Partido Comunista Alemão (KPD)
tentara tomar o poder diversas vezes. Em 1923 foi a
vez dos nazistas buscarem o seu quinhão, numa tentativa
fracassada de golpe, em Munique.
A economia alemã estava muitos graus abaixo do normal,
e só conseguiu uma pequena melhora no período entre
1924 a 1929 (antes da Crise, em NY), quando os Estados
Unidos fizeram empréstimos e investimentos para a reestruturação
germânica, o Plano Dawes.
O governo reprimia e censurava qualquer tipo de manifestação
que se aproximasse do socialismo. Apesar dos investimentos
estadunidenses, as classes menos favorecidas continuaram
lidando com a colossal inflação e a louca instabilidade
da moeda nacional. É nesse conturbado contexto histórico
que o cineasta húngaro (também diretor de arte, tendo
trabalhado em filmes de G.W. Pabst) Ernö Metzner, filma
o curta-metragem Assalto, em 1928. Ao assistir
ao filme, não é de se espantar que a censura do Estado
o tenha considerado "brutal e desmoralizante", e que
o tenha banido.
O título completo do curta é Relatório Policial -
Assalto a um curta-metragem. Entendemos que o filme
é a versão da vítima contada à polícia, que agora expõe
ao espectador o que aconteceu. Metzner narra a história
de maneira linear. A montagem, no entanto, é o grande
experimento do filme. O diretor dá o ritmo e a forma
da obra fazendo uso da uma criadora adequação dos planos
(forma externa) e da duração e captação desses planos
(forma interna). Três sequências merecem maior atenção
pela originalidade e experimentalismo de sua composição:
1 - A sequência do jogo de dados, onde takes
muito curtos e rápidos das mãos dos jogadores se interpõem
a tomadas um pouco mais lentas de seus rostos. Sem fazer
uso de intertítulos ou mostrar algum relógio, temos
uma precisa noção da passagem do tempo e da momentânea
sorte do protagonista - pelo dinheiro que se acumula
à sua frente.
2 - A sequência da fuga, quando o protagonista sai do
bar e se percebe perseguindo. As tomadas aumentam de
velocidade conforme as duas personagens, ao passo que
os ângulos se alteram, avançam na corrida.
3 - A sequência na qual o protagonista, para fugir de
seu perseguidor, entra na casa de uma prostituta. Toda
a cena é uma brilhante criação e revelação de um suspense.
Elementos como a carta "A Morte" do tarô, a vela recém
apagada, as facas que desaparecem de uma pequena mesa
próxima à cortina, o reflexo da prostituta no bule de
chá, como se estivesse falando com alguém fora de cena,
fazem parte dessa sequência. Através da montagem, onde
podemos ver cada um desses elementos separadamente,
é criada a situação psicológica e espacial do suspense.
Metzner filma o crime, o medo, a paranoia de um cidadão
que na verdade é o povo alemão. O mais interessante
é a busca pela verdade por parte da polícia (a instituição
repressora do Estado, acossando o próprio Estado), ao
final do curta, quando o protagonista, em um leito de
hospital e todo enfaixado, ouve o policial perguntar-lhe
se ele é capaz de reconhecer o agressor, um suspeito
que foi capturado. O protagonista limita-se a olhar
vago para o policial, cerra os olhos, e seu rosto se
funde a uma moeda de um marco, que gira na tela.
O dinheiro é o motor da história do filme: já na primeira
cena, a câmera foca uma moeda perdida em uma rua de
paralelepípedo. Em seguida, um pedestre se abaixa para
pegá-la e é atropelado. A moeda escapa de sua mão, e
é encontrada pela personagem central do filme, que vai
comprar cigarros com ela, mas o dono da tabacaria reconhece
a moeda falsa. É com essa moeda que o protagonista faz
suas apostas em um bar, ganhando muito dinheiro, e é
por esse motivo que é seguido.
Com base nos motivos econômicos e repressores, Metzner
erige seu monumento crítico, e incomoda as autoridades.
No plano técnico, diversas manipulações de imagens,
filmagens sobre espelhos e espirituosas sobreposições
e fusões, fecham em alucinação o mundo da personagem
agredida. Assalto é um incrível suspense, que
não perde o seu caráter de entretenimento em detrimento
dos conceitos históricos que lhe dão vida, muito pelo
contrário, segue como um curta-metragem completo, inteligente
e bem dirigido, uma pequena obra-prima de Erno Metzner.
ASSALTO (Polizeibericht Überfall, Alemanha,
1928)
Direção: Ernö Metzner.
Elenco Principal: Heinrich Gotho, Eva Schmid-Kayser,
Sybille Schmitz, Alfred Loretto, Han Ruys, Rudolf Hilberg,
Heinrich Falconi.
Cotação: *****
Este artigo é parte do Ciclo
Avant-Garde no Cine Revista.
*Textos originalmente postados no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
|