CICLO AVANT-GARDE, QUINTA PARTE (FINAL):*

- A VIDA E A MORTE DO 9413, UM FIGURANTE DE HOLLYWOOD (1928)

- BRUMAS DE OUTONO (1929)

- ASSALTO (1928)

por Luiz Santiago
 
 

Estrelas, estúdios, sistemas: Cinema

Não há arte que melhor faça uso da metalinguagem do que o cinema, especialmente se a empresa é feita por um competente realizador, que pode transformar a sétima arte em um encanto mítico, como podemos atestar em obras do nível de Crepúsculo dos deuses (Billy Wilder, 1950), Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1987), e Império dos sonhos (David Lynch, 2006), e também em A vida e a morte do 9413, um figurante de Hollywood (1928), filme de Robert Florey e Slavko Vorkapich.

O curta conta a história de John Jones, o figurante 9413, que vai para Hollywood tentar ser ator de cinema. As suas idas e vindas aos testes de elenco, as constantes recusas aliadas à falta de dinheiro para comer e pagar as contas que não param de chegar, acabam causando o seu definhamento, e por fim, a sua morte.

Os diretores não pouparam referências às grandes estrelas ou ao sistema de estúdios, de escolha de atores, e de como há uma "cartilha da hipocrisia" a ser seguida por cada grande estrela, que representa a imagem da "intocável" o tempo todo.

John Jones perde a sua identidade para se transformar em um número. Em meio à turba de trabalhadores da indústria cinematográfica, ele é o desconhecido figurante número tal. Pouco tempo depois da primeira recusa, ele passa a ter sonhos perturbadores, sempre ligados a uma riqueza que jamais terá. No meio de sua jornada no "império dos sonhos", John Jones encontra uma famosa estrela, que, a cada parte de seu discurso usa uma máscara diferente, e as retira, para apreciar os aplausos, que são muitos. Jones chega a comprar uma máscara, mas não consegue usá-la, e o preço é a sua exclusão do star system.

É completamente surpreendente o resultado obtido pelos diretores, nas filmagens dos cenários-maquete estilizados, como os do expressionismo alemão. A muito clara fotografia do curta intensifica ainda mais essa sensação: uso de luz e sombra em ambientes claustrofóbicos. A história alcança o patamar de um quase conto de terror, e termina de forma crítica, com uma felicidade pós-vida onde o figurante alcançou o queria. A vida e a morte do 9413 é um dos melhores trabalhos, estética e formalmente falando, do cinema avant-garde nos Estados Unidos, e merece ser visto e revisto, já que permanece tão atual, mesmo anos depois.



A VIDA E A MORTE DO 9413, UM FIGURANTE DE HOLLYWOOD (The Life and Death of 9413, a Hollywood Extra, Estados Unidos, 1928)

Direção: Robert Florey e Slavko Vorkapich.

Elenco Principal: Jules Raucourt, George Voya.

Cotação: *****





O cine-poesia a partir de um curta de Kirsandoff

Dimitri Kirsandoff nasceu na Estônia, em 1889, e emigrou para Paris em 1923, onde se dedicou aos estudos musicais na Ecole Normale de Musique. Sua primeira experiência no cinema se deu no mesmo ano de sua chegada à capital francesa.

Brumas de Outono (1929) marca o fim da primeira fase da carreira de Kirsandoff, que a partir de então produziria filmes mais comerciais, obras bem distintas das que dirigira sob o movimento avant-garde.

É importante lembrarmos que Brumas de Outono é obra de um músico-cineasta, que como tal, irá orquestrar as sequências com equilíbrio visualmente poético - antes mesmo do título, há a inscrição que define o curta, um POEMA CINEMATOGRÁFICO.

A linguagem poética foi um elemento essencial para os grandes realizadores do cinema avant-garde, que sempre procuraram enxergar o cinema também como uma realização lírica. Essa fusão entre palavra e imagem e a capacidade de síntese da poesia, entrarão para o cinema via vanguardas, e perdurarão até o cinema contemporâneo - para citar pelo menos uma obra: Dolls (Takeshi Kitano, 2002).

A poesia, por sua vez, tem ritmo, assim como a música. Ora, sendo Kirsandoff um músico estoniano, e sendo a Estônia um país cuja cultura está muito próxima à cultura russa (após a Segunda Guerra, Stálin anexaria o país à URSS), Kirsandoff experimentará no cinema toda a influência soviética que tivera da música, à composição cinematográfica.

Como, cinema poético? Para responder a essa questão, recorremos à poesia russa, influência inegável de Kirsandoff. Chamamos a atenção do leitor para a capacidade cênica das duas estrofes abaixo, nosso primeiro exemplo, retiradas do poema Os mistérios do ofício, e que mais parecem um trecho de um roteiro:

Como esquecer? Ele saiu, sem reação,

A boca retorcida, em agonia...

Desci, correndo, sem tocar o corrimão,

E o encontrei no portão, quando saía.



"É tudo brincadeira, por favor,

Não parta, eu morro se você se for."

E ele, com um sorriso frio, isento,

Me disse apenas: "Não fique ao relento".


Anna Akhmátova, 1911



Vejamos agora um segundo exemplo, onde ressaltamos a capacidade imagética (forma) que dá maior força ao poema, quando enche as ideais dos versos de vida. Nesse caso, escolhi o trecho final do poema Ver, de Kandinski. Observe como a ideia de salto e de rompimento se dão, imageticamente:

[...]

E neste branco salto um branco salto. Em cada

branco salto um branco salto.

E este é o mal, é que não vês o turvo:

no turvo é que ele está.

É aí que tudo começa....................................................

............................................ Rompeu-se........................


Kandinski, 1913


A essas tendências (cênica \ imagéica - formal \ conteudista), dentro do avant-garde francês, Kirsandoff ainda acrescentará a forte ligação que o cinema da Europa Oriental (e extremo Oriente e países nórdicos) possui com a natureza, a fusão e relação do homem e os elementos naturais. É com todos esses ingredientes que o cineasta realizará Brumas de Outono.

O curta narra a história de uma moça (interpretada por Nadia Sibiskaia) que é abandonada pelo seu amor, e passa a definhar, ante todas as cartas e lembranças que conserva dele. A escolha do outono, nesse sentido, foi para intensificar a desolação da personagem: ao passo que a paisagem se acinzenta e umedece, e as folhas caem e a neblina não cessa, a protagonista mergulha cada vez mais em seu desalento. O cineasta faz um eficiente contraponto entre os "dois mundos": o exterior da casa, e o seu interior aquecido pela lareira, - o único elemento de felicidade que ainda resta à personagem, dando-lhe calor em meio ao duplo frio que a cerca: o frio do exterior da casa é o mesmo que o da alma da jovem abandonada.

Há um pequeno flashback, onde vemos apenas a mão do amado apertar a mão da personagem, e depois o vemos descer as escadas e fechar o portão. Para essa, e todas as sequências tristes, Kirsandoff estabeleceu um modo de fazer o espectador entender que a personagem está chorando: a câmera fora de foco, como se também chorasse.

Na primeira parte do curta, somos apresentados aos dois ambientes (interior exterior da casa) de formas muito distintas: ao filmar o externo, o diretor usa planos de diversas durações, e muitos ângulos, mas, ao passar para o ambiente interno, há uma total economia de tudo, como se a vida estática se enraizasse também na forma como é mostrada, contaminando-a com sua imobilidade.

Já na segunda parte, logo após o flashback, a personagem sai da casa, e sua interação com o ambiente é total: a câmera foca seus pés por entre folhas caídas e pedras, seu corpo encostado em uma árvore, suas pernas em movimento ao lado do rio.

O sentido deste curta-metragem de 12 minutos é dúbio. Não sabemos de fato qual é o "destino" da personagem. Se o outono simboliza o seu estado de espírito, logo concluímos que um período pior se aproxima: o inverno. Se as brumas simbolizam um estado indefinido, onde não se consegue divisar nada, concluímos que o estado de dúvida durará um pouco mais, antes de dissipar-se. Se o rio, mostrado desde o início do filme, simboliza a corrente da vida e da morte, a renovação, a mudança perpétua (Heráclito), podemos afirmar que esse momento desolador também irá passar, mas, qual será o seu estado futuro da triste jovem, é impossível definir.

Kirsandoff faz um verdadeiro poema cinematográfico sobre o sofrimento e a passagem do tempo e das coisas, em um curta-metragem experimental que, apesar de manter uma narrativa linear, em nada fica aquém das propostas vanguardistas do período em que foi realizado. Uma obra sensível e esteticamente belíssima, um dos melhores filmes-poema que já vi.



BRUMAS DE OUTONO (Brumes d'automne, França, 1929)

Direção: Dimitri Kirsandoff.

Elenco Principal: Nadia Sibirskaia.

Cotação: *****





Überfall: sintomas da Alemanha pré-nazista

Em 1919, um ano após o término da Primeira Guerra Mundial, foi promulgada uma nova Constituição na Alemanha. Ela estabelecia uma democracia liberal parlamentar, e deu início à República de Weimar (1919 - 1933), em cujo início de existência o Partido Comunista Alemão (KPD) tentara tomar o poder diversas vezes. Em 1923 foi a vez dos nazistas buscarem o seu quinhão, numa tentativa fracassada de golpe, em Munique.

A economia alemã estava muitos graus abaixo do normal, e só conseguiu uma pequena melhora no período entre 1924 a 1929 (antes da Crise, em NY), quando os Estados Unidos fizeram empréstimos e investimentos para a reestruturação germânica, o Plano Dawes.

O governo reprimia e censurava qualquer tipo de manifestação que se aproximasse do socialismo. Apesar dos investimentos estadunidenses, as classes menos favorecidas continuaram lidando com a colossal inflação e a louca instabilidade da moeda nacional. É nesse conturbado contexto histórico que o cineasta húngaro (também diretor de arte, tendo trabalhado em filmes de G.W. Pabst) Ernö Metzner, filma o curta-metragem Assalto, em 1928. Ao assistir ao filme, não é de se espantar que a censura do Estado o tenha considerado "brutal e desmoralizante", e que o tenha banido.

O título completo do curta é Relatório Policial - Assalto a um curta-metragem. Entendemos que o filme é a versão da vítima contada à polícia, que agora expõe ao espectador o que aconteceu. Metzner narra a história de maneira linear. A montagem, no entanto, é o grande experimento do filme. O diretor dá o ritmo e a forma da obra fazendo uso da uma criadora adequação dos planos (forma externa) e da duração e captação desses planos (forma interna). Três sequências merecem maior atenção pela originalidade e experimentalismo de sua composição:

1 - A sequência do jogo de dados, onde takes muito curtos e rápidos das mãos dos jogadores se interpõem a tomadas um pouco mais lentas de seus rostos. Sem fazer uso de intertítulos ou mostrar algum relógio, temos uma precisa noção da passagem do tempo e da momentânea sorte do protagonista - pelo dinheiro que se acumula à sua frente.

2 - A sequência da fuga, quando o protagonista sai do bar e se percebe perseguindo. As tomadas aumentam de velocidade conforme as duas personagens, ao passo que os ângulos se alteram, avançam na corrida.

3 - A sequência na qual o protagonista, para fugir de seu perseguidor, entra na casa de uma prostituta. Toda a cena é uma brilhante criação e revelação de um suspense. Elementos como a carta "A Morte" do tarô, a vela recém apagada, as facas que desaparecem de uma pequena mesa próxima à cortina, o reflexo da prostituta no bule de chá, como se estivesse falando com alguém fora de cena, fazem parte dessa sequência. Através da montagem, onde podemos ver cada um desses elementos separadamente, é criada a situação psicológica e espacial do suspense.

Metzner filma o crime, o medo, a paranoia de um cidadão que na verdade é o povo alemão. O mais interessante é a busca pela verdade por parte da polícia (a instituição repressora do Estado, acossando o próprio Estado), ao final do curta, quando o protagonista, em um leito de hospital e todo enfaixado, ouve o policial perguntar-lhe se ele é capaz de reconhecer o agressor, um suspeito que foi capturado. O protagonista limita-se a olhar vago para o policial, cerra os olhos, e seu rosto se funde a uma moeda de um marco, que gira na tela.

O dinheiro é o motor da história do filme: já na primeira cena, a câmera foca uma moeda perdida em uma rua de paralelepípedo. Em seguida, um pedestre se abaixa para pegá-la e é atropelado. A moeda escapa de sua mão, e é encontrada pela personagem central do filme, que vai comprar cigarros com ela, mas o dono da tabacaria reconhece a moeda falsa. É com essa moeda que o protagonista faz suas apostas em um bar, ganhando muito dinheiro, e é por esse motivo que é seguido.

Com base nos motivos econômicos e repressores, Metzner erige seu monumento crítico, e incomoda as autoridades. No plano técnico, diversas manipulações de imagens, filmagens sobre espelhos e espirituosas sobreposições e fusões, fecham em alucinação o mundo da personagem agredida. Assalto é um incrível suspense, que não perde o seu caráter de entretenimento em detrimento dos conceitos históricos que lhe dão vida, muito pelo contrário, segue como um curta-metragem completo, inteligente e bem dirigido, uma pequena obra-prima de Erno Metzner.



ASSALTO (Polizeibericht Überfall, Alemanha, 1928)

Direção: Ernö Metzner.

Elenco Principal: Heinrich Gotho, Eva Schmid-Kayser, Sybille Schmitz, Alfred Loretto, Han Ruys, Rudolf Hilberg, Heinrich Falconi.

Cotação: *****




Este artigo é parte do Ciclo Avant-Garde no Cine Revista.

*Textos originalmente postados no blog "Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)