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O site Cine Revista se solidariza com aqueles que lutam
pela reabertura de um tradicional espaço alternativo
porto-alegrense de cinema, a sala Norberto Lubisco da
Casa de Cultura Mário Quintana, e leva ao ar,
com autorização do responsável
pelos mesmos, quatro textos sobre esse tema, originalmente
publicados no blog "Uma dose de cinema".
Antes que a Casa de Cultura vire sucata!
R. Lubisco
O que diria o nosso querido poeta de toda esta situação?
Este descaso com a Casa de Cultura Mário Quintana preocupa
tanto quanto o problema com a Sala Norberto Lubisco,
até porque para mim e para os visitantes, pouco importa
se são em CNPJ'S diferentes. As salas de cinema fazem
parte da Casa de Cultura e do patrimõnio cultural gaúcho!
Andei falando o dia inteiro com pessoas importantes
e envolvidas no meio, e a situação é mais preocupante
do que aparenta.
O que nós queremos? Que o Governo e a secretaria de
cultura transformem de uma vez por todas a Casa de Cultura
Mário Quintana num espaço cultural decente. Assim como
ocorreu com a Usina do Gasômetro e a sala P.F. Gastal.
Ouvi muitas reclamações de que a situação da Casa de
Cultura é precária, ou seja, precisa mesmo de reformas!
Será que é difícil fazer com que a secretaria designada
para isso perceba a importãncia deste espaço para os
gaúchos? Quem nunca se viu andando pelas salas da casa
de cultura? Visitando o quarto do Mário Quintana? Dando
uma volta pela biblioteca, tomando um café na travessa
dos cataventos? Assistindo a peças de teatro? E indo
pegar um charmoso cineminha naquelas calçadas onde já
se passou tanta cultura?
Porto Alegre se orgulha, e eu tenho muito orgulho, por
ser a cidade da Feira do Livro mais famosa do Brasil!
Mesmo que aos trancos e barrancos e com a queda das
vendas, a Feira continua, o que é um prazer dar uma
volta todo ano por este maravilhoso comércio literário.
Ou seja: Porto Alegre é sinônimo de cultura. Eu vejo
os bares na Cidade Baixa e no Moinhos de Vento, repleto
de intelectuais. Pois bem, estou os convocando para
nos ajudar nessa empreitada, se isso importar realmente
para os consumidores de cultura. Olhem o exemplo do
Festival de Gramado, a importância que ele tem para
o cinema Sul Americano. Alguns exemplos de ícones da
cultura gaúcha: Érico Veríssimo, Elis Regina, Moacir
Sclyar, Caio Fernando Abreu, Lupicínio Rodrigues, Jaime
Caetano Braun, Paixão Côrtes, Ubirajara Valdez, Iberê
Camargo, Goida, Martha Medeiros, Tuio Becker, Luís Coronel,
Teixeirinha, Maria Amália Feijó, Werner Schunemann e
a empreendedora cultural brasileira, Eva Sopher, que
restaurou o teatro São Pedro, e tantos outros ícones
da cultura gaúcha.
O gaúcho sempre se orgulhou por suas raízes, por defender
seus ideais, e por ser visto como um povo cultural.
Precisamos mostrar isso agora.
Este acaso pede manifestações. É agora ou nunca. Vamos
mostrar que nós nos importamos e muito com este espaço
cultural, e que queremos continuar frequentando por
muitos e muitos anos. E é melhor fazermos isso antes
que a Casa de Cultura Mário Quintana e as salas de cinema,
incluindo a Norberto Lubisco, virem sucata.
Uma vez uma amiga minha postou em um blog o trecho de
uma música bem famosa, e no caso eu não dei muita importância.
Mas hoje entendo perfeitamente a simples letra da canção
de Geraldo Vandré:
"Vem vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer."
O Contato com Luiz Armando Capra Filho
R. Lubisco
O Diretor da CCMQ entrou em contato comigo hoje, logo
após o programa do Marcelo Noah ir ao ar. Devo dizer
para conhecimento geral de todos que o Capra é uma pessoa
muito atenciosa e fez questão de me dar uma explicação
sobre o ocorrido que tanto nos assustou, e ainda continua
nos deixando aprenciosos. O Capra me disse o seguinte:
que em momento algum foi dito que a sala fecharia em
definitivo, e sim para reformas. (Mas em momento algum
houve alguma notícia ou comunicado que nos explicasse
o porquê da sala estar fechada, até o Marcelo Noah levar
o caso ao público na Rádio Ipanema). Disse também que
não o fez por não esperar toda essa repercussão em cima
do caso. (Isso é para nós vermos, como foi importante
a mobilização para tornar isto público, e como precisamos
nos mobilizar ainda mais frente a secretaria de cultura
do estado para que a sala seja reaberta o mais rápido
possível, pois projetos para a reinauguração não faltam).
Disse que não via um movimento tão forte em pró da cultura
no Estado há mais de dez anos. (E eu acho que este momento
deve ser aproveitado para nós mostrarmos o quanto nos
importamos com isso, com as salas de cine de rua, com
a programação cultural, com mostras e etc). O Capra
disse que é interesse principal da Casa de Cultura que
a Sala Norberto Lubisco volte a funcionar, e me disse
isso da melhor forma possível, e eu não duvido, mas
só vou acreditar plenamente quando ver algo concreto
sendo feito em relação a nossa querida salinha. Pretendo
conversar pessoalmente com o Capra, mas ainda assim,
acho que devemos nos organizar para um manifesto positivo
em favor da cultura no Estado, principalmente para a
Secretária da Cultura Mônica Leal, ver o quanto nós
nos importamos com o que está sendo feito por isso.
Acho que uma passeata, ou um protesto na secretaria
de cultura do Estado, ou até mesmo na frente da Norberto
Lubisco. Vocês concordam com isso? Temos que mostrar
que nos importamos e muito, com a cultura porto-alegrense.
Nós da família já estamos pensando em projetos para
quando a sala for reaberta, e eu espero que seja o mais
rápido possível. A idéia que surge no momento, é a de
se fazer um coquetel de reinauguração, com artistas
conhecidos da família, jornalistas e apreciadores da
cultura em geral, juntamente com uma mostra dos principais
trabalhos de Norberto Lubisco.
Queria agradecer imensamente mais uma vez o Marcelo
Noah por abrir este espaço de discussão publicamente,
e fazer com que todo esse manifesto fosse possível.
Norberto Lubisco
Texto escrito pelo grande Tuio Becker para a Zero Hora
do dia 4 de setembro de 1993:
"Eles são conhecidos como "os pintores da luz". Sem
eles um filme não existe. Pode-se realizar um filme
sem roteiro, sem atores, sem música ou som, até mesmo
sem produção. Só o fotógrafo é indispensável, pois através
das imagens em movimento é que o filme ganha existência.
Com a morte de Norberto Lubisco no último dia 2 de agosto
(1993), aos 47 anos, o Rio Grande do Sul perdeu um de
seus mais estimados e experientes "pintores da luz",
cuja participação no movimento cinematográfico gaúcho
se estendeu por quase três décadas.
Retraçar a trajetória cinematográfica de Norberto Lubisco
é difícil: sua participação esteve quase sempre ligada
aos filmes rodados de forma independente e nas mais
diversas bitolas, com grande ênfase para o 16mm, formato
em que fotografou o único longa-metragem de sua carreira,
Heimweh/Nostalgia (1991), de Sérgio Silva e do autor
deste texto. "O Norberto sempre ajudava muita gente,
resolvia os problemas, orientava se a cena ia ou não
dar", lembra Luis Carlos Pighini, para quem Lubisco
fotografou em 8mm Os Bondes (1968). Herdeiro do espírito
de uma época, do esforço coletivo em torno de uma idéia,
ele estreou como assistente de fotografia de Antonio
Carlos Textor na segunda versão (inacabada) de O Marginal,
de Alpheu Ney Godinho.
Naquela época, Porto Alegre era diferente. Em 1968 a
cidade tinha mais salas de exibição, clubes de cinema,
grupos de estudo e jornais para divulgar e formar a
cultura cinematográfica. Em 1966 Teixeirinha estrelara
seu primeiro longa-metragem, Coração de Luto, de Eduardo
Llorente, reacendendo a possibilidade de surgimento
de um novo ciclo regional. Mas a produção de filmes
era pequena, os curtas-metragens se resumiam a alguns
16mm feitos por aficionados ligados ao Foto-Cine Clube
Gaúcho ou a grupos como o Centro de Estudos e Divulgação
Cinematográfica (Cedic), da UFRGS, e o Centro de Estudos
Cinematográficos (Cecin), da PUC.
O Cecin se dedicava a analisar filmes que tanto podiam
ser obras clássicas menos conhecidas como produções
do recente cinema novo brasileiro. Nessas reuniões eventualmente
era exibido algum curta-metragem gaúcho, como A Última
Estrela, de Antonio Carlos Textor (1966). E surgiam
idéias que muitas vezes se transformavam em filmes.
Integrante do Cecin, o ex-estudante de Física Norberto
Lubisco fotografou, em 1967, A Conquista de um Espaço,
de Luiz Maciorowski. No curta, um homem tenta montar
uma cadeira preguiçosa no canteiro central da Avenida
Farrapos. "Era uma reflexão simbólica sobre o estado
de coisas da época", dizia Lubisco.
Em 1969 o ato de fazer cinema foi atiçado em Porto Alegre
pela possibilidade de inscrever um filme curto e pobre
no 5º Festival de Cinema Amador do Jornal do Brasil.
Sob o tema Um desafio em 90 segundos foram realizados
seis curtas-metragens que marcaram presença no evento:
Farsa, de Juarez Fonseca e Joaquim Peroni, Uma Vida
em 90 segundos, de Ilias Evremidis, Antikatus, de Rubens
Bender, todos mudos, Bom Dia, Você está Mudando, de
Antonio Carlos Textor, O Mosca, de Nelson Canabarro,
e Hoje, o Susto Eletrônico, de AlpheuNey Godinho, sonoros.
Lubisco fotografou os dois últimos. Godinho, cujo filme
foi premiado no festival, recorda que "já na época,
os filmes do sul eram os estranhos no ninho na mostra
de cinema Paissandu, templo da intelectualidade cinematográfica
carioca".
Assim como Sérgio Silva, Textor e Godinho, de quem fotografou
grande parte dos filmes, Lubisco seguiu em atividade
nos anos 70 para, nos 80, colocar sua assinatura nas
imagens do curta No Amor, de Nelson Nadotti (1981),
que marcou a ascensão do cinema gaúcho, de um período
em que a chamada bitola nanica do Super-8 dominou a
produção local, para o florescimento de um ciclo de
longas-metragens, semelhante ao que marcou a primeira
metade dos anos 70. Lubisco iluminou com fortes contrastes
de preto e branco esse pequeno filme que, de um certo
modo, se colocava como o manifesto de maioridade de
toda uma equipe egressa do Super-8. As sóbrias imagens
de Lubisco davam um equilíbrio clássico a irreverência
da narrativa.
Na década de 80 o Festival de Gramado serviu de vitrina
para a produção do Rio Grande do Sul. Por três vezes,
Lubisco levou o prêmio de melhor direção de fotografia
instituído pela Assembléia Legislativa. Seja com os
tons sombrios de Urbano, de Antonio Carlos Textor, premiado
em 1983, ou com as cores delirantes de Madame Cartô,
de Nadotti, Carrosel, de Textor e Ano Novo, Vida Nova,
de Godinho, os premiados de 1985, a arte de Lubisco
se destacou. No festival deste ano ele recebeu um prêmio
póstumo pela fotografia de Presságio, de Renato Falcão.
Poucas vezes, como neste curta, o clima crepuscular
e noturno de Porto Alegre foi fotografado com tanta
maestria, ressaltando a adequação do cenário arquitetônico
do passado com o contexto dramático de uma história
ancorada no presente.
Lutando com as deficiências técnicas do mercado, Lubisco
aliava, em sua atividade, um senso prático tão afinado
quanto sua sensibilidade e habilidade para compreender
as intenções do diretor com quem trabalhava. Era comum
ouvi-lo dizer: "Professor, e como vai ser esta cena?".
Ele se comunicava facilmente por imagens. Do clima opulento
de um filme de Luchino Visconti ao despojamento seco
e frio de qualquer cineasta alemão, apoiado em sua profunda
cultura cinematográfica Lubisco era capaz de reproduzir
em imagens as mais desvairadas intenções de qualquer
realizador iniciante em busca de um grande efeito visual.
Era capaz também de, nos momentos de maior crise, durante
uma filmagem, insinuar um toque de otimismo quando ninguém
mais da equipe acreditava no projeto.
Das artes a sétimae a mais industrializada, o cinema,
corporificado em um filme, é também a mais perecível.
Num toma cá dá lá, o celulóide se incendeia, vira esmalte
de unhas ou fibra para vassouras, como mostrou Roberto
Henkin em seu premiado curta Memória. A memória de um
diretor de fotografia sobrevive nas imagens que ele
criou para filmes alheios. Ao contrário de tantos colegas
gaúchos de ofício, como Antonio Oliveira, Textor, Henkin
ou Sério Amon, Lubisco jamais tentou a direção cinematográfica.
"Talvez isso tenha se devido ao seu tipo de personalidade,
meio caladão", conjetura Sérgio Silva, para quem Lubisco
fotografou Festa de Casamento (1991) e O Zeppelin passou
por aqui (1993).
Capaz de iluminar um supermercado com um reduzido parque
de luz, como ocorreu em Interlúdio, de Giba Assis Brasil
e Carlos Gerbase (1982), ou projetar um carrinho para
travellings "com o que se tem em casa", Lubisco aliou,
em sua trajetória, um profundo conhecimento de cinema
como cultura e como técnica. Dessa fusão resultou um
artista extremamente original que foi o primeiro dos
"pintores da luz" de sua geração no cinema do Rio Grande
do Sul."
Sala de Cinema Norberto Lubisco
R. Lubisco
Peço com todo o respeito que ajudem a divulgar a notícia
de que querem fechar a Sala de Cinema Norberto Lubisco,
localizada na Casa de Cultura Mário Quintana, centro
de Porto Alegre. Todos nós sabemos que são raros os
cinemas de rua hoje em dia, sendo a Norberto Lubisco
a única sala com as portas voltadas diretamente para
a calçada. Qualquer divulgação é de extrema importância!
Não vamos deixar que tirem esse patrimônio cultural
de nós. Um grande abraço!
Comunidade no Orkut e links com matérias:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=98884969&refresh=1
http://www.navevazia.com/marcelonoah/
http://marimessias.wordpress.com/2010/02/20/lubisco/
http://aldeia-gaulesa.blogspot.com/2010/02/descaso-com-cultura-fechada-sala-de.html
Um dos mais estimados e experientes fotógrafos, cuja
participação no movimento cinematográfico gaúcho se
estendeu por quase três décadas.
Várias vezes premiado com o "Kikito" de melhor direção
de fotografia nos festivais de Gramado.
Norberto Lubisco aliou, em sua trajetória, profundo
conhecimento de cinema como cultura e como técnica.
Desta fusão resultou um artista extremamente original
que foi o primeiro dos "Pintores da Luz" de sua geração
no cinema do Rio Grande do Sul.
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