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"...é um poço inesgotável, no qual não desce nenhum
balde que não ascenda transbordante de ouro e de bondade."
(Nietzsche - "Ecce Homo")
Assim como Nietzsche definiu sua obra "Zaratustra"
na citação acima, podemos definir o filme "Assassinos
por Natureza". Tal filme é uma provocação, e, além
disso, permite múltiplas abordagens. Todavia, o campo
pelo qual pretendo caminhar, com ou sem rumo, é o das
idéias. O ponto que abordo nesse primeiro artigo pode
ser introduzido pela seguinte questão:
- Será que existe motivo que autoriza o assassinato?
No filme, Mike (personagem de Woody Harrelson), quando
questionado sobre seus assassinatos, diz por quê
a resposta a tal questão é positiva. Mike se define
como um assassino por natureza. Ele sustenta que, basta
a nós olharmos para a natureza e veremos que, a planta
maior precisa de nutrientes, luz,...e por isso, suplanta
a menor; os animais predam uns aos outros. Portanto,
ele, que é um ser da natureza, também é um assassino.
Além disso, poder-se-ia reforçar esta idéia dizendo
que a História está repleta de crimes dessa espécie.
Daí, concluir que todos nós, homens, somos assassinos
por natureza. Diante desse tipo de idéia, temos a impressão
de estarmos com "as mãos amarradas", tal a engenhosidade
do raciocínio.
Então, o que podemos opor a este tipo de idéia?
À tal perspectiva, podemos confrontar o fato de que,
nós homens, somos solidários por natureza e preservadores
da vida de nossos semelhantes, sendo que, certamente,
é possível encontrar exemplos de solidariedade na História.
Mesmo na natureza, achamos relações de solidariedade
para a preservação da espécie entre os animais e entre
as plantas. Ademais, faculta-nos pensar que, pelo fato
de outros seres apresentarem certo tipo de comportamento
não implica que o homem deva se portar de modo semelhante.
É muito comum a atribuição de características de outros
seres ao homem. Quem nunca viu na TV, pesquisas feitas
sobre o comportamento dos primatas, em que se diz que
com o homem se dá o mesmo? Outro exemplo: o leão preda
a gazela. Observando que o homem mata outro homem, atribui-se
ao homem a mesma característica do leão, ou seja, o
predatismo.
Bem, aqui, lanço uma provocação: por quê as comparações
sempre enfatizam os aspectos degradantes? Não é estranho
que, principalmente quem está no poder, sempre enfatize
o lado destrutivo? Talvez o raciocínio desses seja,
por exemplo, o seguinte: se o homem é predador, ou qualquer
outra atribuição anti-social, não há convivência harmoniosa
que permita a existência de sociedade. Então, sendo
o homem um predador, isso autoriza quem está no poder
a lançar mão de violência para tornar o homem um ser
social. Mas não será isto que vemos ao nosso redor,
onde estamos incluídos, que chamamos sociedade, a maior
opressão que já existiu? Será que nessas idéias inocentes
não há muito mais que teses, especulações, ficções...?
"As palavras mais ponderadas são as que trazem a
tempestade; os pensamentos que vêm com pés alígeros
de pomba governam o mundo." (Nietzsche - "Assim
Falou Zaratustra")
ASSASSINOS POR NATUREZA (Natural Born Killers,
1994)
Direção: Oliver Stone.
Elenco: Woody Harrelson, Juliette Lewis, Tom
Sizemore, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones.
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