ASSASSINOS POR NATUREZA
Adriano Hannecker
(e-mail: ahannecker@ibest.com.br)
 
 

"...é um poço inesgotável, no qual não desce nenhum balde que não ascenda transbordante de ouro e de bondade." (Nietzsche - "Ecce Homo")

Assim como Nietzsche definiu sua obra "Zaratustra" na citação acima, podemos definir o filme "Assassinos por Natureza". Tal filme é uma provocação, e, além disso, permite múltiplas abordagens. Todavia, o campo pelo qual pretendo caminhar, com ou sem rumo, é o das idéias. O ponto que abordo nesse primeiro artigo pode ser introduzido pela seguinte questão:

- Será que existe motivo que autoriza o assassinato?

No filme, Mike (personagem de Woody Harrelson), quando questionado sobre seus assassinatos, diz por quê a resposta a tal questão é positiva. Mike se define como um assassino por natureza. Ele sustenta que, basta a nós olharmos para a natureza e veremos que, a planta maior precisa de nutrientes, luz,...e por isso, suplanta a menor; os animais predam uns aos outros. Portanto, ele, que é um ser da natureza, também é um assassino. Além disso, poder-se-ia reforçar esta idéia dizendo que a História está repleta de crimes dessa espécie. Daí, concluir que todos nós, homens, somos assassinos por natureza. Diante desse tipo de idéia, temos a impressão de estarmos com "as mãos amarradas", tal a engenhosidade do raciocínio.

Então, o que podemos opor a este tipo de idéia?

À tal perspectiva, podemos confrontar o fato de que, nós homens, somos solidários por natureza e preservadores da vida de nossos semelhantes, sendo que, certamente, é possível encontrar exemplos de solidariedade na História. Mesmo na natureza, achamos relações de solidariedade para a preservação da espécie entre os animais e entre as plantas. Ademais, faculta-nos pensar que, pelo fato de outros seres apresentarem certo tipo de comportamento não implica que o homem deva se portar de modo semelhante.

É muito comum a atribuição de características de outros seres ao homem. Quem nunca viu na TV, pesquisas feitas sobre o comportamento dos primatas, em que se diz que com o homem se dá o mesmo? Outro exemplo: o leão preda a gazela. Observando que o homem mata outro homem, atribui-se ao homem a mesma característica do leão, ou seja, o predatismo.

Bem, aqui, lanço uma provocação: por quê as comparações sempre enfatizam os aspectos degradantes? Não é estranho que, principalmente quem está no poder, sempre enfatize o lado destrutivo? Talvez o raciocínio desses seja, por exemplo, o seguinte: se o homem é predador, ou qualquer outra atribuição anti-social, não há convivência harmoniosa que permita a existência de sociedade. Então, sendo o homem um predador, isso autoriza quem está no poder a lançar mão de violência para tornar o homem um ser social. Mas não será isto que vemos ao nosso redor, onde estamos incluídos, que chamamos sociedade, a maior opressão que já existiu? Será que nessas idéias inocentes não há muito mais que teses, especulações, ficções...?

"As palavras mais ponderadas são as que trazem a tempestade; os pensamentos que vêm com pés alígeros de pomba governam o mundo." (Nietzsche - "Assim Falou Zaratustra")

ASSASSINOS POR NATUREZA (Natural Born Killers, 1994)

Direção: Oliver Stone.

Elenco: Woody Harrelson, Juliette Lewis, Tom Sizemore, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones.