“Onde estavas tu, quando
lancei os fundamentos da terra? Responde-me se tens sabedoria para isso. Quem
lhe pôs as medidas, se tu o sabes? Ou quem estabeleceu
sobre ela o seu cordel? Sobre que estão fundadas as
suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina,
quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam,
e todos os filhos de Deus rejubilavam?
Livro de Jó 38:4 - 7
A epígrafe retirada da Bíblia abre a
mais nova obra do filósofo Terrence Malick, diretor
com 42 anos de carreira e apenas cinco longas e um curta no currículo. Durante quase meio século de criação
e intervalos de até duas décadas e meia entre um filme
e outro, Malick estabeleceu um estilo profundamente
metafórico e espiritual, desligado de toda a parafernália
técnico-narrativa secular. Sua pequena grande obra
conseguiu a amplitude que tem graças a
perfeição narrativa e a planificação lírica e poética
(salientando bem a diferença entre as duas coisas),
num momento do cinema em que tais produções são cada
vez mais raras aqui no Ocidente. Não é que não existam
obras com esse caráter por aqui, mas convenhamos que
não há muitos cineastas preocupados
em trazer para seus filmes uma linha mais impalpável,
panteísta, deixando de lado a montagem televisiva,
o roteiro verborrágico e a direção inquietante. O
cinema de Terrence Malick é uma espécie de “último
exemplar”, um exemplar do cinema que se preocupa mais
com a alma dos espectadores do que com os aparelhos
que usa para filmar e a forma dada ao produto final.
Dito isto, não é de se espantar que tivéssemos
chegado a 2011 com a grande euforia pela estreia de A
Árvore da Vida, incitada após o filme levar a
Palma de Ouro em Cannes. Todavia, qual não foi a
surpresa de parte da crítica e dos espectadores ao
constatarem que A Árvore da Vida é
um filme inebriante de tão belo, mas que beira ao
ruim, de tão vazio! Pela primeira
vez em sua carreira, o genial Terrence Malick realiza
um filme onde a estesia e a beleza dos planos-sequência
suplantam o significado geral da obra, e as mais de
duas horas de projeção ficam entregues ao subjetivo
do espectador, não conseguem mover a barreira de se
tornar independente como obra em si, não se realiza,
apenas está lá para desfrute inebriado e embasbacado.
A expressão artística no cinema até pode
ser um enigma completo, mas o seu todo deve possuir
um fio condutor (e não estou falando de narrativa
linear) a fim de nos fazer enxergar pelo menos um
dos pontos indissociáveis dessa particularidade semiótica
(segundo ótima contextualização de Aumont e Marie):
sentido da realidade, tradução da subjetividade do
artista na obra e indução de um estado emocional no
espectador. Se juntarmos todos os elementos espirituais,
metafóricos, metafísicos, filosóficos e teológicos,
não chegaremos a nenhum sentido de realidade em A
Árvore da Vida, posto que o filme nos apresenta
uma linha atemporal de acontecimentos – abarcando
o princípio da Era Cenozoica até os dias de hoje –
e se destina a falar aos que tem fé. A realidade está
banida, e Deus, a Natureza e a Graça assumem o leme
desse barco de reflexões, no mar da Criação Divina.
A subjetividade aparece não só no espelho que
Malick faz de si na família que protagoniza a obra,
mas do próprio filme em relação às plateias, como
objeto maleável, múltiplo de significados. É certo
que após a sessão de A Árvore da Vida,
dezenas de versões, entendimentos e interpretações
surgirão, chegando com isso à terceira coluna da expressão
artística, a indução dos estados emocionais no espectador.
Mesmo para quem, como eu, não gostou do filme, duas coisas ficam bem claras: é um dos filmes
mais belos já realizados no cinema, e um dos que (ou
talvez o único deste século) podemos nomear de “caminho
para o divino” ou “alumbramento sacro” ou “filme onde
se poder sentir Deus”.
O vazio que me trouxe essa obra talvez
esteja ligado à sua carga panteísta, elementar, orgânica,
mas esta não é a única causa. Penso que Malick levou
muito a sério o seu batismo místico, e realizou algo
que se confunde com um documentário naturalista de alta qualidade,
com imagens inebriantes do espaço, do mar, de geleiras,
montanhas, vulcões em erupção, dos planetas, do sol.
Através de seu “roteiro de máximas”, e apostando na
problematização da vida em nosso planeta através dos
tempos, da educação e sofrimento humanos, da moral
e ética pessoais, o diretor se perde no jogo duplo
entre a realidade secular (o drama da família com
o pai autoritário, a mãe angelical e o filho que morre
muito jovem); a realidade divina (a exemplificação
de que tudo é uma conexão milenar vinda de um gerador
– Deus – que pulsa de vida); e a realidade da vida
como questionadora de si e como postura após a morte.
A cena final do filme é um exemplo desses caminhos
mal pavimentados pelo diretor, que numa espécie de
Paraíso, Reino dos Mortos, Mentalidade do Perdão,
Lugar de Amor, reúne as personagens em júbilo, exatamente
como nos diz o final do último versículo citado na
epígrafe. Os filhos de Deus estão em júbilo (certamente
não em vida, de modo que penso a cena final como uma
visão bem posterior a tudo o que temos durante a projeção),
enquanto as estrelas da alva cantam juntas. E que
estrelas são essas? Ora, todo o Universo! A criação
divina é pequena diante da força que a move, que a
faz morrer e (re) nascer, que a reúne num único bloco
de vida e a faz ser necessária para os que virão depois:
tudo tem um propósito de ser. A fluidez heraclitiana
volta à tona num filme de Malick, e a poesia impregnada
a ela, facilmente encanta a qualquer um que vir A
Árvore da Vida. Ao som de Smétana, Bach, Mahler,
Mozart, Berlioz e Mussorgsky, e tendo um criativo
grupo de cinco editores, não é de se espantar que
o filme corra como um rio: lentamente. Mas dos incômodos
que a película causa, este é o menor.
Há mais de um ano, quando saí
dos cinemas enfurecido com Tio Boonmee Que
Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010),
eu tinha como acusação o fato de nunca ter visto nada
do diretor, o que corrigi imediatamente assistindo
a Mal dos Trópicos (2004)
e Síndromes e um Século (2006). No
caso de A Árvore da Vida, tenho em minha
defesa todos os filmes de Terrence Malick vistos e
comentados, por isso não me sinto nada culpado em
dizer que este é o pior filme do diretor, e a minha
grande decepção do ano. O problema não está na técnica,
nem no elenco, que por sinal, está afiadíssimo; nem
da direção.
Não
há um único plano feio no filme. Não há uma única
palavra feia. Não há feiura. O problema é o filme
ser concebido como uma viagem ao âmago da Criação,
e ter, como conteúdo, uma composição híbrida pouco
funcional e mal amarrada. O quanto essa opinião está
impregnada de subjetividade eu ainda não sei medir.
Mas afirmo que eu gostaria de A Árvore da
Vida, se ele fosse dividido em 10 documentários
poéticos sobre a origem do Homem e do Universo, tendo
como plano de fundo a história de uma família contada
linearmente. A Árvore da Vida foi
concebido para exibição no Éden, e apenas Deus, seu
séquito de escolhidos e os seres celestiais, poderão
apreciar com total entrega e devoção (obrigatórios
para que se capte todo o conteúdo que desfila na tela)
essa obra que é puro exagero maneirista.
Pendurado em abstratismo transcendental,
Malick foi ovacionado em Cannes e segue arrebatando
espectadores nos países onde seu filme estreia. Para
mim, ele ainda é um grande diretor, e mantenho afirmação
de ele ser um dos raros cineastas que podem se orgulhar
de nunca ter feito um plano ruim, mas que em A
Árvore da Vida não fez nada demais além de
dar vida a um irmão manco de 2001: Uma Odisseia
no Espaço (Stanley Kubrick, 1968), esse sim,
uma reflexão legítima e madura sobre a existência
humana, Deus e a Criação.
A ÁRVORE
DA VIDA (The
Tree of Life, EUA, 2011)
Direção: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean
Penn, Jessica Chastain, Hunter McCraken, Laramie Eppler,
Tye Sheridan, Fiona Shaw, Jessica Fuselier, Nicolas
Gonda, Will Wallace, Kelly Koonce.
Cotação:
**