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Aproximação:
uma questão de Identidade
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Luciano
Portela
Historiador e crítico de cinema
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Um filme, mesmo sem perceber, tem como finalidade 'mostrar'
por meio de imagens, expressões, e ideias, uma busca de
resultados. Sejam quais forem. As imagens põem à tona
contradições que são como um fio condutor a possíveis
reflexões em torno de uma sociedade ou mais ainda, em
torno de questões específicas que nela se encontram.
Daí poder-se-ia dizer a frase do historiador francês Marc
Ferro, "partir da imagem, das imagens", pois somente elas
podem trazer novas ideias dentro de um contexto social
específico. Sendo assim, a relação entre câmera e História
é intrínseca, deveras muito profunda, no entanto inseparável.
Em contrapartida fazemos parte de um mundo espetacularizado
em que naturalmente a imagem se encontra saturada, excessivamente
manipulada, facilmente causando dificuldades de uma 'reflexão'
mais aprofundada e principalmente crítica da sociedade.
Poucos autores têm a capacidade de extrair algo de reflexivo
dentro dessa situação. É o caso do cineasta Amos Gitai
em seu filme Aproximação (Disengagement,
2007) lançado nas salas de cinema esse ano.
Pouco se precisa dizer de um cineasta do calibre de Amos
Gitai, principal questionador da sociedade israelense
e em especial de suas complexidades, muito conhecido por
filmes como O Dia do Perdão (2000) e Kedma (2002),
colocando através da câmera momentos da vida israelense
dados à sua complexidade no mundo contemporâneo, transitando
da ficção a cenas que poder-se-ia dizer com profundo teor
documental. Na melhor forma e no mesmo estilo do chamado
cinema político (que tem o grego Costa-Gavras como o mais
conhecido diretor do gênero), Aproximação tem um
elenco de peso, vemos desfilar pela tela as atrizes Juliette
Binoche e Jeanne Moreau, a cantora Barbara Hendricks e
até o próprio Amos Gitai. Onde cada um representa uma
nação (essa pluralidade também é enfatizada pela quantidade
de línguas usadas no filme), uma questão política que,
cedo ou tarde, será levada em choque diante de nós.
O enredo a princípio é simples: um jovem guarda da polícia
de Israel, Uli, irá para a França e encontrará sua irmã
adotiva Ana (Juliette Binoche) para velar o corpo de seu
pai. Um dos pedidos na herança é que Ana vá para Israel
e leve a notícia para sua filha, que tem por direito ser
a principal detentora de toda a herança do avô; a princípio,
Ana se reluta a encontrar seu 'passado', mas sem ver outra
opção, engaja-se nessa aventura trágica e pessoal.
O momento político mostrado é o da retirada de israelenses
à força pela polícia local das proximidades da faixa de
Gaza. O que torna o filme mais impressionante são as cenas
em que vemos o conflito Estado versus Religião muito presente.
Mais ainda, a paranoia em relação ao 'outro' (palestinos),
fazendo de Israel um constante Estado de Sítio - sentido
por todos, sofrido por todos. Na cena inicial, onde as
questões de identidade e nacionalidade são discutidas,
vemos a audácia de Gitai colocando um Judeu e uma Palestina
se beijando (jocosamente falam "não é nada simbólico");
formam um complemento chave para a "peregrinação", o encontro
com o passado trágico que Ana faz, falas perante aos conflitos
que ela presencia, o sofrimento de uma mulher que vê a
desestruturação de seu próprio "ser". Também tem falas
profundas, dentre elas a mais destacada e repetida, "Eu
não falo Hebraico". Gitai põe em xeque a questão de
uma nacionalidade não existente, e mais ainda a impassividade
da Europa (Ana) frente aos conflitos políticos do país.
Algo muito próximo de uma "discussão de surdos".
"Escrever a História com a câmera" foi o que Gitai
disse uma vez. E é o que o mesmo o fez, com maestria.
APROXIMAÇÃO (Disengagement, Israel/França/Alemanha/Itália,
2007)
Direção: Amos Gitai.
Elenco principal: Juliette Binoche, Liron Levo,
Jeanne Moreau, Barbara Hendricks, Dana Ivgy, Hiam Abbass,
Tomer Russo, Israel Katorza, Yussuf Abu-Warda, Uri Klauzner,
Amos Gitai. |
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