APOCALYPTO DE MEL GIBSON
Ricardo Rangel
 
 

O cinema, antes de tudo, deve poder levar o espectador para uma outra realidade à qual ele vive, especialmente se a temática a ser abordada fizer parte de um universo totalmente diverso do seu: caso tiver alcançado minimamente este objetivo, terá cumprido, ao menos, este papel fundamental que tal obra de arte e de entretenimento busca retratar.

Pois Mel Gibson, o diretor do polêmico "A Paixão de Cristo", e eterno Mad Max para os mais antigos - seu clássico personagem que vivia num futuro apocalíptico -, consegue, de forma competente e inteligente, fazer isso no seu mais recente filme, "Apocalypto". Em sua obra, Gibson não é menos polêmico do que o já citado "A Paixão de Cristo": há violência também (que parece ser excessiva até para os mais avisados), e controvérsias históricas, além de algumas poucas "pilhadas", como se diz no jargão popular. Mas nada disso tira o valor dela: "Apocalypto" é visceral, envolvente do início ao fim (especialmente da metade em diante), se achando rodeado de uma magia que Mel Gibson soube e teve o talento de trazer ao espectador que é a colocação deste no selvagem e brutal mundo do império maia, apresentando não história apenas, como muitos críticos tentaram vender, mas sim entretenimento e vivacidade histórica, isso sim, em altas doses de emoção e aventura.

"Apocalypto" não é um filme histórico, um épico no sentido clássico: embora hajam algumas poucas referências a isto na sua narrativa, a experiência proporcionada por ele está muito mais para a aventura de um homem, um indígena solitário que, ao ver sua tribo dizimada e sua família correndo perigo, supera-se para salvar a si próprio e sua linhagem, não caindo no sentimentalismo barato e na pieguice - e se isso acontece, por pouco que seja, repito, não compromete de forma alguma o interessantíssimo e catártico resultado, uma experiência cinematográfica não-convencional até.

Para se chegar a este resultado, deve-se exaltar o trabalho da produção, desde a direção, passando pela montagem, direção de arte, figurino, maquiagem (indicada ao Oscar, juntamente com som e edição de som), fotografia, e a belíssima trilha sonora de James Horner - que até pode fazer inveja a Hans Zimmer, e resulta essencial para o produto final. Percebe-se intensamente isto assistindo ao filme, um minucioso trabalho técnico e formal, cujo espetáculo é garantido, com ação, vibração, captação de imagens que colocam o espectador dentro da narrativa, e com forma realista também no seu todo, já que é falado inteiramente em iucateque, um dialeto ancestral falado pelos nativos da península de Yucatán, no México, berço das civilizações maia e asteca, e a sonoridade de tal dialeto transmite-nos um aspecto poético, em que as palavras fluem com o vento, e cativam nossos ouvidos.

Há, aqui, um certo paradoxo: as cenas de violência, que de fato não são poucas, contrastam com esta sonoridade poética (que em muitos momentos lembra "O Novo Mundo", de Terrence Malick; mas Mel Gibson pareceu não querer na sua obra ser tão pretensioso quanto o recluso diretor norte americano, que pretendeu, utilizando-se do mito da índia Pocahontas, narrar na sua versão-visão da história da colonização americana), tanto pelo característica do próprio iucateque, quanto pela música. Mas é neste paradoxo, e neste aparente jogo de opostos, que reside a beleza e o idilismo de "Apocalypto": ao contrastar cenas de brutalidade, decapitações e bravas lutas de guerreiros indígenas, com seu modo de vida figurado pelo lirismo de suas palavras, a sensibilidade é preservada e enaltecida. O filme de Mel Gibson é, sim, tocante aos espíritos mais sensíveis; isto, aliado a toda uma superprodução bem-acabada e outros aspectos já comentados, faz dele um filme imperdível. Adentremos e nos interemos um pouco desta fascinante história, pois.

O jovem caçador Pata de Jaguar (Rudy Youngblood, um carismático nativo americano, de nome imponente e sonoro) tem o seu idílico cotidiano interrompido, juntamente com o de toda a sua tribo, pela invasão de uma tribo dos chamados maias urbanos, extremamente violentos e impiedosos na sua selvageria. Ao serem levados para um templo maia onde os cativos serão oferecidos como sacrifício em troca de dádivas do Deus Sol, Pata de Jaguar e seus companheiros são brutalmente espancados. Devido à invasão, a esposa dele e seu filho ficam presos em uma caverna, refugiados. O jovem índio não consegue retirá-los de lá a tempo, mas fica com esse compromisso quando livrar-se daquela situação. E que situação...ao chegarem no templo, o povo clama em frente ao mesmo, pelos sacrifícios, onde cabeças são decapitadas e roladas escada abaixo, para delírio dos fanáticos maias. Pode-se até questionar o excesso e a aparição de algumas cenas fortes de violência, mas elas estão em certa conformidade com a selvageria brutal e implacável desta tribo, em que seus membros são cruéis, mas crentes nos poderes da natureza e do Grande Espírito. Ao ser contemplado com uma "intervenção divina" (boa sacada de Gibson, que deve ter lido e se inspirado em "O Templo do Sol", de Hergé, em que Tintin está em maus lençóis nas mãos dos incas, e é salvo de forma semelhante), Pata de Jaguar tem a chance de fugir, não antes sem enfrentar seus covardes algozes numa arena de batalha. Ao "conseguir" a sua "aparente liberdade", Jaguar é implacavelmente caçado na floresta, e tem início uma caçada sem tréguas, de tirar o fôlego, o ponto alto do filme. O índio em fuga supera seus limites, está ferido, cansado, exausto, mas enfrenta bravamente seus inimigos, com coragem, astúcia, esperteza e sabedoria, usando sua grande aliada, a floresta, revelando-se um grande guerreiro que enfrenta os perigos em nome de sua honra, seu povo e sua família.

Não há pieguice aqui e sentimentalismo barato mascarado pela história, mas sim a luta incansável de um homem em busca de sua liberdade, de retornar ao seu mundo que viu dizimado em minutos, e fundamentalmente em busca pela sua identidade: a reafirmação da sua natureza de guerreiro. Este pode ser o legado do filme, e não seu aspecto histórico: Gibson nem toca nisso, a não ser no final, mas este funciona como metáfora, também, assim como o próprio título, de caráter dúbio: apocalypto, palavra grega cujo significado é "um novo começo"; no caso de Pata de Jaguar, esta conotação é extremamente relevante, e tem tudo a ver com sua jornada, sua alçada pela redenção.

"Apocalypto" configura uma experiência interessante, e não deve deixar de ser visto: é poético mesmo com violência (esta não se mostra, de forma alguma gratuita; é necessária, embora possa parecer um tanto exagerada), intenso, de tirar o fôlego nas cenas de perseguição na mata, com vivacidade e realismo impressionantes, bem filmado, produzido, fotografado, com excelente trilha sonora. Em suma, cinema com qualidade e entretenimento garantidos. Talvez Mel Gibson devesse ter feito como John Carpenter no seu "Vampiros", ou como Luc Besson em "Joana D'Arc": ter colocado seu nome no título. Nesse caso, não por presunção, megalomania ou egocentrismo, mas sim para enaltecer e elevar um grande trabalho da equipe por ele capitaneada, da produção como um todo, que nesse tipo de filme é essencial para o conjunto da obra, do resultado final, enfim - e isto tudo está representado pelo diretor, o responsável em estilo por tudo, já que todas as decisões criativas passam por ele. "Apocalypto de Mel Gibson" é, ou deveria ser, título justo para quem concebeu uma idéia interessante com uma equipe talentosa e que se esmerou bastante. Assim é uma das fórmulas do bom cinema, aliando os interesses da grande indústria - Hollywood - com uma certa dose de independência na produção. E isto Mel Gibson, com o seu time, soube fazer muito bem.

APOCALYPTO (idem, 2006)

Direção: Mel Gibson.

Elenco: Rudy Youngblood, Gerardo Taracena, Fernando Hernandez, Dalia Hernandez, Jonathan Brewer.

COTAÇÃO: ****