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O cinema, antes de tudo, deve poder levar o espectador
para uma outra realidade à qual ele vive, especialmente
se a temática a ser abordada fizer parte de um universo
totalmente diverso do seu: caso tiver alcançado minimamente
este objetivo, terá cumprido, ao menos, este papel fundamental
que tal obra de arte e de entretenimento busca retratar.
Pois Mel Gibson, o diretor do polêmico "A Paixão
de Cristo", e eterno Mad Max para os mais
antigos - seu clássico personagem que vivia num futuro
apocalíptico -, consegue, de forma competente e inteligente,
fazer isso no seu mais recente filme, "Apocalypto".
Em sua obra, Gibson não é menos polêmico do que o já
citado "A Paixão de Cristo": há violência também
(que parece ser excessiva até para os mais avisados),
e controvérsias históricas, além de algumas poucas "pilhadas",
como se diz no jargão popular. Mas nada disso tira o
valor dela: "Apocalypto" é visceral, envolvente
do início ao fim (especialmente da metade em diante),
se achando rodeado de uma magia que Mel Gibson soube
e teve o talento de trazer ao espectador que é a colocação
deste no selvagem e brutal mundo do império maia, apresentando
não história apenas, como muitos críticos tentaram vender,
mas sim entretenimento e vivacidade histórica, isso
sim, em altas doses de emoção e aventura.
"Apocalypto" não é um filme histórico, um épico
no sentido clássico: embora hajam algumas poucas referências
a isto na sua narrativa, a experiência proporcionada
por ele está muito mais para a aventura de um homem,
um indígena solitário que, ao ver sua tribo dizimada
e sua família correndo perigo, supera-se para salvar
a si próprio e sua linhagem, não caindo no sentimentalismo
barato e na pieguice - e se isso acontece, por pouco
que seja, repito, não compromete de forma alguma o interessantíssimo
e catártico resultado, uma experiência cinematográfica
não-convencional até.
Para se chegar a este resultado, deve-se exaltar o trabalho
da produção, desde a direção, passando pela montagem,
direção de arte, figurino, maquiagem (indicada ao Oscar,
juntamente com som e edição de som), fotografia,
e a belíssima trilha sonora de James Horner - que até
pode fazer inveja a Hans Zimmer, e resulta essencial
para o produto final. Percebe-se intensamente isto assistindo
ao filme, um minucioso trabalho técnico e formal, cujo
espetáculo é garantido, com ação, vibração, captação
de imagens que colocam o espectador dentro da narrativa,
e com forma realista também no seu todo, já que é falado
inteiramente em iucateque, um dialeto ancestral falado
pelos nativos da península de Yucatán, no México, berço
das civilizações maia e asteca, e a sonoridade de tal
dialeto transmite-nos um aspecto poético, em que as
palavras fluem com o vento, e cativam nossos ouvidos.
Há, aqui, um certo paradoxo: as cenas de violência,
que de fato não são poucas, contrastam com esta sonoridade
poética (que em muitos momentos lembra "O Novo Mundo",
de Terrence Malick; mas Mel Gibson pareceu não querer
na sua obra ser tão pretensioso quanto o recluso diretor
norte americano, que pretendeu, utilizando-se do mito
da índia Pocahontas, narrar na sua versão-visão da história
da colonização americana), tanto pelo característica
do próprio iucateque, quanto pela música. Mas é neste
paradoxo, e neste aparente jogo de opostos, que reside
a beleza e o idilismo de "Apocalypto": ao contrastar
cenas de brutalidade, decapitações e bravas lutas de
guerreiros indígenas, com seu modo de vida figurado
pelo lirismo de suas palavras, a sensibilidade é preservada
e enaltecida. O filme de Mel Gibson é, sim, tocante
aos espíritos mais sensíveis; isto, aliado a toda uma
superprodução bem-acabada e outros aspectos já comentados,
faz dele um filme imperdível. Adentremos e nos interemos
um pouco desta fascinante história, pois.
O jovem caçador Pata de Jaguar (Rudy Youngblood, um
carismático nativo americano, de nome imponente e sonoro)
tem o seu idílico cotidiano interrompido, juntamente
com o de toda a sua tribo, pela invasão de uma tribo
dos chamados maias urbanos, extremamente violentos e
impiedosos na sua selvageria. Ao serem levados para
um templo maia onde os cativos serão oferecidos como
sacrifício em troca de dádivas do Deus Sol, Pata de
Jaguar e seus companheiros são brutalmente espancados.
Devido à invasão, a esposa dele e seu filho ficam presos
em uma caverna, refugiados. O jovem índio não consegue
retirá-los de lá a tempo, mas fica com esse compromisso
quando livrar-se daquela situação. E que situação...ao
chegarem no templo, o povo clama em frente ao mesmo,
pelos sacrifícios, onde cabeças são decapitadas e roladas
escada abaixo, para delírio dos fanáticos maias. Pode-se
até questionar o excesso e a aparição de algumas cenas
fortes de violência, mas elas estão em certa conformidade
com a selvageria brutal e implacável desta tribo, em
que seus membros são cruéis, mas crentes nos poderes
da natureza e do Grande Espírito. Ao ser contemplado
com uma "intervenção divina" (boa sacada de Gibson,
que deve ter lido e se inspirado em "O Templo do
Sol", de Hergé, em que Tintin está em maus lençóis
nas mãos dos incas, e é salvo de forma semelhante),
Pata de Jaguar tem a chance de fugir, não antes sem
enfrentar seus covardes algozes numa arena de batalha.
Ao "conseguir" a sua "aparente liberdade", Jaguar é
implacavelmente caçado na floresta, e tem início uma
caçada sem tréguas, de tirar o fôlego, o ponto alto
do filme. O índio em fuga supera seus limites,
está ferido, cansado, exausto, mas enfrenta bravamente
seus inimigos, com coragem, astúcia, esperteza e sabedoria,
usando sua grande aliada, a floresta, revelando-se um
grande guerreiro que enfrenta os perigos em nome de
sua honra, seu povo e sua família.
Não há pieguice aqui e sentimentalismo barato mascarado
pela história, mas sim a luta incansável de um homem
em busca de sua liberdade, de retornar ao seu mundo
que viu dizimado em minutos, e fundamentalmente em busca
pela sua identidade: a reafirmação da sua natureza de
guerreiro. Este pode ser o legado do filme, e não seu
aspecto histórico: Gibson nem toca nisso, a não ser
no final, mas este funciona como metáfora, também, assim
como o próprio título, de caráter dúbio: apocalypto,
palavra grega cujo significado é "um novo começo"; no
caso de Pata de Jaguar, esta conotação é extremamente
relevante, e tem tudo a ver com sua jornada, sua alçada
pela redenção.
"Apocalypto" configura uma experiência interessante,
e não deve deixar de ser visto: é poético mesmo com
violência (esta não se mostra, de forma alguma gratuita;
é necessária, embora possa parecer um tanto exagerada),
intenso, de tirar o fôlego nas cenas de perseguição
na mata, com vivacidade e realismo impressionantes,
bem filmado, produzido, fotografado, com excelente trilha
sonora. Em suma, cinema com qualidade e entretenimento
garantidos. Talvez Mel Gibson devesse ter feito como
John Carpenter no seu "Vampiros", ou como Luc
Besson em "Joana D'Arc": ter colocado seu nome
no título. Nesse caso, não por presunção, megalomania
ou egocentrismo, mas sim para enaltecer e elevar um
grande trabalho da equipe por ele capitaneada, da produção
como um todo, que nesse tipo de filme é essencial para
o conjunto da obra, do resultado final, enfim - e isto
tudo está representado pelo diretor, o responsável em
estilo por tudo, já que todas as decisões criativas
passam por ele. "Apocalypto de Mel Gibson" é,
ou deveria ser, título justo para quem concebeu uma
idéia interessante com uma equipe talentosa e que se
esmerou bastante. Assim é uma das fórmulas do bom cinema,
aliando os interesses da grande indústria - Hollywood
- com uma certa dose de independência na produção. E
isto Mel Gibson, com o seu time, soube fazer muito bem.
APOCALYPTO (idem, 2006)
Direção: Mel Gibson.
Elenco: Rudy Youngblood, Gerardo Taracena, Fernando
Hernandez, Dalia Hernandez, Jonathan Brewer.
COTAÇÃO: ****
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