MICHELANGELO ANTONIONI (1912 - 2007)
Adriano de Oliveira
 
 
Mais um golpe do destino atinge o Cinema. Não bastasse o luto pela perda do grande cineasta existencialista Bergman, no mesmo dia, o recente 30 de julho, é registrado o óbito do genial Michelangelo Antonioni, o "poeta da incomunicabilidade".

Antonioni era economista de formação universitária, porém começou a se interessar por cinema a ponto de ingressar no Centro de Cinematografia Experimental da Cineccitá em Roma, onde travou contato com realizadores neo-realistas, o que influenciou seus primeiros trabalhos, como o curta "Gente do Pó" (1943). Embora se declarasse um marxista, não tardou para ele rodar filmes com histórias de temas mais identificados aos valores burgueses como "As Amigas" (1955), em um reflexo de suas abastadas origens. Um retorno ao neo-realismo se daria com "O Grito" (1957), uma esplêndida atuação de Steve Cochran.

Sua grande fase irrompe no final dos anos 50, abrindo a "trilogia da incomunicabilidade" com "A Aventura" (1960). Aqui se inaugura um estilo peculiar do diretor, começando pela sua capacidade de reverter expectativas: aquilo que parece ser um suspense se transforma numa análise dura do comportamento humano. É o que ocorre quando, na trama, uma jovem aristocrata desaparece em um passeio a uma ilha remota, e dois de seus amigos que a procuram (Monica Vitti e Gabriele Ferzetti) acabam se apaixonando - e se desentendendo, também - em meio a esse processo, onde a figura desaparecida acaba caindo no esquecimento geral, efeito da fugacidade e das necessidades emocionais mais imediatistas e escapistas do ser humano e também um flerte com o niilismo.

No exemplar seguinte, "A Noite" (1961), com Marcello Mastroianni, Monica Vitti e Jeanne Moreau, um casal em crise é o reflexo de uma burguesia sem rumos existenciais e dotada de um hedonismo corrosivo.

A trilogia, cuja essencial característica foi ecoar a falta de entendimento nas relações homem-mulher usando como instrumentos simbólicos, entre outros, os longos planos e o silêncio - fazendo valer o que uma torrente de palavras não poderia descrever -, se encerra com "O Eclipse", de 63. O materialismo que separa os personagens de Vitti (a musa do diretor) e Alain Delon faz coro às duas obras anteriores. Grande arremate: os minutos finais dessa projeção são de um silêncio tão eloqüente quanto perturbador.

Para alguns, seu filme pós-trilogia, "Deserto Vermelho" (1964), com Richard Harris, é um apêndice da tríade que o precedeu; para outros, um estudo existencial amparado pelo uso da cor.

"Blow-Up - Depois Daquele Beijo" (1966), rodado a seguir, deu origem a teses sobre os temas da percepção e da realidade. Brilha um jovem David Hemmings nessa sublime fita, a qual inclusive prima por uma notável cena final que surge como um caprichado resumo simbólico da idéia desenvolvida ao longo da projeção.

Depois do fracasso de "Zabriskie Point" (1970) e sua temática da contracultura, Antonioni retorna ao aplauso da crítica e inclusive recebe uma certa simpatia do público, a despeito de sua onipresente complexidade artística, com "O Passageiro - Profissão Repórter" (1975), estrelando Jack Nicholson e apresentando um dos mais belos planos-seqüência da história do Cinema.

Os trabalhos dos anos 80, "O Mistério de Oberwald" (1981) - baseado no romance "A Águia de Duas Cabeças", de Cocteau - e "Identificação de Uma Mulher" (1982), embora tidos por belos exercícios de estilo em Cinema, não mais impressionaram a maioria dos críticos e, para muitos, a fase descendente de Antonioni estava tendo seu início. O derrame sofrido em 85 interrompe alguns movimentos do diretor e prejudica seriamente sua capacidade de falar. Daí por diante, ele praticamente desaparece das atividades cinematográficas, surgindo de modo efetivo apenas em mais duas oportunidades. Uma delas ocorre quando, amparado por seu amigo, o cineasta alemão Wim Wenders, realiza o insatisfatório "Além das Nuvens", em 1995.

A aparição derradeira do mestre atrás das câmeras se dá com seu curta "Il Filo Pericoloso delle Cose", integrante do filme "Eros" (2004), do qual também constituem episódios dirigidos por Steven Soderbergh e Wong Kar-Wai. Os modistas insistem em apontar o segmento do "queridinho" da atualidade Kar-Wai como o melhor da trinca. Porém o curta de Antonioni, além de ser o que melhor coaduna com a proposta da obra em questão, se mostra o mais interessante e também representa uma maravilhosa síntese da obra completa de seu autor, uma pequena enciclopédia do grande cineasta.

Com o passamento do gênio, seus grandes silêncios cênicos (marca registrada do diretor) deram lugar ao insondável silêncio do infinito, este unicamente rompido pelo grito da Imortalidade, que aos mestres ecoa.