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Sidney Lumet estreou no cinema fazendo história. Seu
primeiro longa-metragem, Doze homens e uma sentença
(1957), é uma obra-prima, surgida na época em que o
cinema lutava contra a televisão, e experimentava novos
formatos de tela. Já nesse primeiro filme, é possível
identificar a forte influência do teatro na vida do
cineasta, nascido em uma família de artistas judeus,
em 1924.
Durante sua carreira, Lumet alternou trabalhos para
a TV e para as grandes telas. Sua trajetória no cinema
teve uma queda criativa dos anos 1960 até o início da
década seguinte, quando dirigiu um de seus primeiros
sucessos novaiorquinos, Serpico (1973), seguido
pelo memorável Um dia de cão (1975), ambos com
Al Pacino. A cidade de Nova Iorque é representada por
Lumet em seu cotidiano selvagem, sempre em locações
diferentes, e sob escrupulosos ângulos de câmera. Lumet
não vê poesia nas tardes quentes dos distritos, e nem
lirismo no que se passa atrás das portas enquanto a
cidade se movimenta incessantemente. A Nova Iorque do
cineasta é "podre", mesmo quando vista pelos olhares
e espaços de sua elite. Violência, transgressão de valores
e crime, são temas recorrentes em sua filmografia, embora
existam exceções, pois o diretor trabalhou com diversos
gêneros, tendo em seu currículo, inclusive, um musical
com Michael Jackson, The Wiz (1978).
Depois de Gloria (1999), Sidney Lumet ficou um
tempo longe das telas (tanto das grandes quanto pequenas),
retornando em 2004, com um trabalho para a TV, seguido
de um curta-metragem. Dois anos depois, voltaria aos
longas, com Find Me Guilty, e em 2007, aos 83
anos, presenteou-nos com o soberbo Antes Que o Diabo
Saiba Que Você Está Morto, obra que reflete uma
transformação social contemporânea, a desagregação da
unidade familiar[1], tema trabalhado no mesmo ano por
Woody Allen, em O Sonho de Cassandra.
[Que você esteja no paraíso por meia hora] Antes
que o diabo saiba que você está morto (2007) conta
a história de dois irmãos, Andy (interpretado pelo incrível
Philip Seymour Hoffman) e Hank (Ethan Hawke, numa atuação
memorável), que planejam roubar a joalheria dos próprios
pais, mas as coisas não funcionam como o planejado.
Pequenos "delitos ou descuidos paralelos" juntam-se
à bola de neve mafiosa dos dois irmãos, e o "simples
roubo" transforma-se em um filme que é digno de ser
comparado a uma tragédia grega moderna. A família, aqui,
é corroída completamente por ódio, vingança e crime.
O que primeiro impressiona o espectador atento, é o
perfeito funcionamento da forma e conteúdo do filme:
direção, montagem e roteiro. A organização invertida
e alternada dos planos-sequência alcançou um nível de
altíssima qualidade, e revisou o uso desta técnica que
pode ser a perdição de qualquer filme, se mal usada,
mas que gera trabalhos de qualidade única, quando manipulada
por diretores inovadores[2]. No filme de Sidney Lumet,
a montagem visita os seus mais diversos níveis. A planificação
e os movimentos de câmera também se destacam na composição
da forma, principalmente o zoom e as panorâmicas dramáticas
para frente e para trás.
A narrativa de Antes que o diabo saiba que você está
morto é atemporal, mas não se conclui como peças
de um quebra-cabeça encaixadas ao fim da história. O
diretor conseguiu decupar no processo da filmagem planos
em diferentes ângulos - as diferentes visões das personagens
- e Tom Swartwout os editou de modo a ligar ritmo, tom,
e reflexão (para citar a irretocável nomenclatura musical
dada à montagem, por Eisenstein), alcançando um resultado
inovador, porque cada "esquete" apenas complementa ou
enriquece a história do anterior, não fazendo-o refém
das sequências futuras com revelação de mistérios ou
visão global do todo: o que é para ser visto e entendido
está posto na tela, as surpresas finais são consequências
do processo da trama. O roteiro de Kelly Masterson é
muito exato, deixa a verborragia de lado e opta pelo
necessário, permite o construtivo silêncio, cortado
apenas pela contraposição da música de Carter Burwell,
um primor de partitura e um bom acerto na escolha das
canções. No filme, o uso musical segue a linha de "tema
e variações", e o efeito conseguido é dos mais impressionantes:
o suspense tem um ar de horror gerado pela música, a
alma do visual é estampada pelo áudio.
Andy "Caim" e Hank "Abel" são as personagens motores
desta nova tragédia familiar, onde, mesmo os que terminam
vivos, desaparecem do mapa. O núcleo familiar é completamente
extinto. Moral e perdão não existem na Nova Iorque ensolarada
e cinzenta dessas personagens. A necessidade de ganhar
dinheiro fácil e o ingênuo plano do roubo, trazem à
tona todas as faltas e sobras que rondavam as relações
entre os membros da família.
A fotografia de Christopher Nowak é irônica ao refletir
muita luz e saturar de brilho as sequências mais obscuras
do filme. Quanto mais nos aproximamos do final da obra
e os elementos trágicos ganham altas proporções, mais
saturadas ficam as imagens, até o ápice da última cena
do filme, que termina em uma explosão de luz.
O octogenário Sidney Lumet lida muito bem com o formato
digital, e tem o mérito de não transformar seu filme
em um poço de facilidades. A direção de Antes o diabo
saiba que você está morto é uma aula de cinema,
principalmente no que diz respeito à profundidade de
campo. A câmera se movimenta com exatidão pelo cenário,
como se estivesse assistindo a peças vivas de um jogo
de xadrez. A organização dos espaços internos e o trânsito
de atores é matematicamente captado. Além disso, a direção
de Lumet é sempre teatralmente deliciosa. O destaque
aqui é para a dupla protagonista, mas todo o elenco
de apoio brilha em suas participações.
Com tantos elementos a favor, guiados por uma mão precisa
e experiente, o resultado não poderia ser menos genial.
O filme é daqueles contemporâneos obrigatórios para
cinéfilos e espectadores menos exigentes - mais um trunfo:
por ser tão versátil em sua composição e tão atual em
sua trama, o filme alcança boa parte dos públicos cinema,
sendo o produto final uma obra de grandioso apuro estético
e artístico, e de formato comercial, algo que muitos
diretores, 50, 60 anos mais novos que Lumet, ainda não
entenderam como funciona ou como fazer.
[1]
- ...embora não seja um fato novo. Podemos identificar
o núcleo desse "evento" em meados do século passado,
fortemente representado nos anos 1960. Eu trabalho com
a "outra margem" dessa transformação no artigo Era uma
vez a família nuclear, publicado no blog Cinebulição.
[2]
- Alguns exemplos: Alejandro González Iñarrítu em Amores
Brutos; Brian De Palma em Olhos de Serpente;
David Lynch em Império dos Sonhos; Gaspar Noé
em Irreversível; Quentin Tarantino em Pulp
Fiction; Spike Lee em O Plano Perfeito. Observem
que eu procurei citar os mais diferentes estilos e meios
pelos quais as montagens invertida e alternada, ou qualquer
outra dupla de nomes que se possa dar à vertigem da
composição do material cinematográfico, foi feita.
ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before
the Devil Knows You're Dead, Estados Unidos, 2007).
Direção: Sidney Lumet.
Elenco principal: Philip Seymour Hoffman, Ethan
Hawk, Marisa Tomei, Albert Finney, Michael Shannon,
Amy Rian, Brian F. O'Byrne, Rosemary Harris.
Cotação: *****
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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