Cinema cult com Ricardo Rangel

A AURORA DO AMOR
 
 

Conhecer o amor da nossa vida em uma longa viagem, aquela bela e simpática moçoila que vem a sentar no banco ao lado, seja de avião, ônibus ou trem, é um sonho alimentado por muitos corações solitários, apaixonados e idealistas. Quem nunca pensou nessa possibilidade, ao menos de passagem, levando realmente a sério o mito da alma gêmea e da paixão à primeira vista, do tipo aquela história "foi o destino que quis que nos encontrássemos", " tivemos muita sorte de nos conhecer ", e coisa e tal? Pode não ser tão impossível como se pensa, e deixando de lado uma certa pieguice desnecessária, o diretor Richard Linklater nos mostra, no seu delicado e suave filme "Antes do Amanhecer" ("Before Sunrise"), um encontro assim, e a química e empatia surgem logo de cara, prometendo uma grande amizade, uma intensa relação, um iminente romance, talvez o surgimento de uma grande paixão.

Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se conhecem em um trem indo para Viena, na Áustria; ele é norte-americano, e está de férias na Europa, ela é francesa e pretende voltar a Paris para a faculdade. Ambos jovens, cheios de vida e de planos, ao se abordarem inicialmente, percebem algo no ar: a conversa flui naturalmente, ambos não se importam muito com a impressão que irão causar um no outro, e deixam rolar esse clima que começa a se desenhar. Jesse, ao perceber tamanho envolvimento que lhe tomou naqueles poucos minutos em que trocaram idéias preliminares, e já encantado por aquela bela garota, convida Celine para lhe acompanhar na sua última noite em Viena, pois no outro dia ele irá retornar para a América. Ela aceita de bate-pronto, também já encantada por ele, e aí tem início uma pequena e intensa aventura de ambos pelas ruas de Viena, conhecendo pessoas, lugares, mas principalmente, conversando, e muito, sobre a vida, a existência em si, relacionamentos, casamento, as histórias pessoais de cada um, suas frustrações, sonhos, anseios, angústias...tudo com hora marcada, é bom lembrar, afinal quando raiar o dia, ambos irão partir e talvez nunca mais irão se ver, então devem aproveitar o máximo os momentos a dois até antes do amanhecer.

Aqui, surge um elemento interessante introduzido por Linklater na história, e que dá um certo fundamento a tudo: Jesse e Celine, ao conhecerem-se, fazem uma espécie de pacto: irão aproveitar ao máximo aqueles mágicos momentos juntos, e depois cada um vai para o seu lado na esperança de, algum dia, ambos reencontrarem-se novamente, para aí, sim, valer aquela história do destino, do amor escrito, do tipo "puxa vida, a gente tinha, mesmo, que ficar juntos...!!!"... ou seja, deixar nas "mãos do acaso" a história dos dois, que ficaria registrada, mesmo, por essa noite onírica em Viena.

Nos passeios de Jesse e de Celine pelas ruas da capital austríaca, alternando-se com seus papos e as suas reflexões existenciais, situações curiosas desenrolam-se, e talvez a mais emblemática e alegórica, que remeta ao sentimento que os envolvem, está na cena em que um mendigo, maltrapilho, vagabundo vienense, ao invés de lhes pedir dinheiro, solicita ao digníssimo casal que pronuncie uma palavra qualquer, e que, na posse desta, este poeta errante das ruas iria fazer um poema para eles (e se gostassem, lhes dariam algum dinheiro, é claro). Celine enuncia, na sequência: "Milk Shake", e, após alguns minutos, o andarilho das letras declama o maravilhoso poema "Delusion Angel", de David Jewell, às margens do rio, com jovem casal atento e absorto naquelas belas palavras. O teor deste poema retrata fielmente a situação em que estão, em que vivem, a do seu relacionamento, muito também pelas suas palavras finais ("don't you know me, don't you know me by now..."), e também por estarem indo no curso natural que os leva para algum lugar. Algo como, em uma livre tradução, "somos como galhos descendo o rio" ("branches in the river"), "apanhados pela corrente" ("caught in the current") , "corrente abaixo" ("flowing downstring"), guiados pelo amor, pela paixão, pelo sentimento, qual que fosse, que os carregava nesse rio abaixo, levados pela corrente, sabe-se lá em que direção e para onde.

No final, à medida em que a aurora se aproxima, que o amanhecer está por vir, talvez seja aí mesmo que esteja nascendo, de fato, um amor verdadeiro entre Jesse e Celine, que, após conhecerem-se um pouco nesta noite mágica e sagrada (ou talvez o suficiente para apaixonarem-se mesmo!), dão-se conta no que estão envolvidos, na enxurrada sentimental que encontram-se ao serem levados por essa corrente do amor, correnteza abaixo, como galhos descendo o rio, e conhecendo-se um ao outro... "cai a ficha", como diz-se na gíria, coloquialmente, e aí eles se desesperam. Mas será que o plano inicial, de deixar tudo nas mãos da sorte, será levado adiante, sem arrependimentos? Perguntem a Jesse e Celine após o embarque, após a despedida (haverá mesmo uma, ou será circunstancial, e não definitiva?) no seu "before sunrise".

Profundo e sutil, doce, suave e delicado, "Antes do Amanhecer" não é verborrágico, muito menos piegas, gratuito e choroso como o estilo "água com açúcar": o amor, a amizade, o sentimento entre dois jovens apaixonados e encantados um pelo outro está sedimentado em uma certa inocência, uma pureza dos personagens centrais, que são muito bem conduzidos o tempo todo por Ethan Hawke e Julie Delpy (não é simples carregar esse fardo, pois o filme todo consiste praticamente nos dois contracenando entre si em todas as cenas), que transladam para a tela a sua química também. Destaque para a amarração do roteiro, os diálogos inteligentes e pertinentes, e a boa e firme direção de Richard Linklater. Deveria ser dedicado a todos os apaixonados e àqueles que, ainda, acreditam no amor, especialmente do tipo à primeira vista.

ANTES DO AMANHECER (Before Sunrise, 1995)

Direção: Richard Linklater.

Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy.