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UM
BOM RETRATO DE UMA DECADÊNCIA
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Pedro
Garcia
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Emil Jannings foi uma das figuras mais importantes do
cinema mudo alemão. Trabalhou com o diretor Paul Leni
em O Gabinete das Figuras de Cera (1924) e em três
filmes do aclamado Friedrich Murnau: Tartufo (1925),
Fausto (1926) e A Última Gargalhada (1925).
Esse último merece um destaque especial, não apenas por
ser uma das grandes obras da corrente expressionista,
mas também a principal referência do ator.
Com a chegada em 1927 dos filmes sonoros, sua carreira
em Hollywood, que ainda engatinhava, foi interrompida
devido ao seu acentuado sotaque alemão. Ainda assim, é
reconhecido por ter sido o primeiro a receber um Oscar
de melhor ator, por seu trabalho nos filmes Tentação
da Carne (1927), do americano Victor Fleming (o mesmo
de E o Vento Levou...), e O Último Comando (1928),
do austríaco Josef von Sternberg.
Sternberg também escolheu Jannings para estrelar O
Anjo Azul (1930), uma das poucas obras do cineasta
que não acabou esquecida. É improvável que essa escolha
tenha acontecido por acaso, pois trata-se de um filme
muito parecido com A Última Gargalhada. Nele, Jannings
interpreta o professor Immanuel Rath, que leciona com
austeridade em uma escola somente de garotos. Sua rigidez
é evidenciada logo em uma das primeiras cenas quando,
incomodado com a forma como um aluno pronuncia uma palavra
em inglês, ordena que todos a escrevam duzentas vezes
em seus cadernos.
Sua irritação aumenta quando começa a encontrar fotos
de mulheres seminuas entre os pertences dos jovens. Logo,
descobre que eles freqüentam uma casa de shows chamada
Anjo Azul. Decidido a corrigir o problema, Rath vai até
lá e conhece a cantora Lola Lola (Marlene Dietrich), a
grande atração das noites no local. Sedutora e espirituosa,
ela acaba conquistando a simpatia do professor e ele até
a defende de um velhote que tenta aliciá-la.
O problema surge quando os dois se envolvem de fato. Lola
passa a noite com Rath e este, delatado pelos alunos,
perde o emprego. É a partir desse ponto que o filme se
aproxima do clássico de Murnau. Para quem não está lembrado,
em A Última Gargalhada, Jannings é um porteiro
de um hotel de luxo que, após muitos anos de profissão,
é rebaixado de função por falta de condições físicas.
O deslocamento para o setor de limpeza o faz mergulhar
na depressão e vergonha.
Da mesma forma, a demissão de Rath torna-se o primeiro
passo em um caminho de decadência. Inicialmente, a paixão
por Lola parece blindá-lo do sofrimento. Os dois se casam
e ele passa a viajar com o grupo de artistas. Logo, é
obrigado a fazer parte das apresentações e a lidar com
problemas como a falta de dinheiro e o ciúme.
Tão triste quanto o porteiro que vê o botão de seu tradicional
uniforme cair no chão, é o professor que recolhe seu material
na sala de aula vazia. Da mesma forma, tão triste quanto
o porteiro que cai bêbado em delírio e sonha com seu antigo
emprego, é o professor que arranca risadas imitando o
canto de um galo. Tão triste quanto o porteiro que lustra
os sapatos de um engravatado no banheiro masculino, é
o professor que sobe a um palco vestido de palhaço para
que quebrem ovos em sua cabeça enquanto sua esposa está
escondida com outro nos bastidores.
A decadência de Rath, entretanto, é retratada de forma
muito mais sutil. Em vários momentos, Sternberg acertadamente
acrescentou pitadas de humor, como o professor assoando
o nariz antes de começar a aula e Lola se divertindo quando
ele a pede em casamento. Assim, o conjunto torna-se muito
mais digerível que o de A Última Gargalhada.
Está certo que as cenas longas e as interpretações exageradas,
que marcam o filme de Murnau, não são mais do que características
comuns a todos os expressionistas. Acontece que a soma
desses elementos ao enredo essencialmente dramático cria
uma narrativa cansativa demais. Sem falar no desfecho
inesperado (que agrada a tanta gente, mas nunca me convenceu):
um letreiro avisa que o roteirista, com pena do personagem
que afundava cada vez mais, resolveu dar a ele um outro
final. O porteiro herda uma fortuna em dinheiro e termina
rico e feliz.
Sternberg, a meu ver, foi muito mais inteligente e fez
com que a humilhação de Rath fosse perceptível por todo
o tempo ao espectador mas não a ele próprio, que permanecia
iludido com Lola. Ele só identifica a sua queda no final,
quando é obrigado a se apresentar no Anjo Azul e flagra
a esposa com outro. Não foi necessária a pena do roteirista
nesse caso, pois o choque veio na hora certa e o personagem
terminou como deveria terminar: triste e sozinho.
O ANJO AZUL (Der Blaue Engel, Alemanha,
1930)
Direção: Josef von Sternberg.
Elenco: Emil Jannings, Marlene Dietrich, Kurt Gerron,
Reinhold Bernt.
Cotação: **** |
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