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O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA
Tentei puxar da memória: até pode ter ocorrido, mas
nunca um filme foi tão fiel ao livro quanto O Amor
Nos Tempos do Cólera (The Love in the Time of
Cholera, de Mike Newell, diretor de Quatro Casamentos
e Um Funeral, e Harry Potter e o Cálice de Fogo),
originário do romance genial de Gabriel Garcia
Márquez.
Se você quer encontrar um ator em sua plenitude, observe
o espanhol Javier Bardem no papel do apaixonado Florentino
Ariza. Ainda adolescente, em Cartagena, na Colômbia,
ele se apaixona pela jovem Fermina Daza (Giovana Mezzogiorno,
de O Último Beijo, excelente filme italiano de
2002). Como é impedido de se casar com ela, passa 53
anos de sua vida sofrendo por amor. Inclusive promete
se manter virgem para Fermina, mas para esquecer sua
frustração, a opção é se entregar às mulheres, chegando
a ir para a cama com mais de seiscentas. O objetivo
da vida de Ariza é, antes de morrer, ter sua amada nos
braços. O filme, se tratando de amor, por vezes, beira
a breguice. Mas o amor é brega e só quem sofreu por
ele entende isso.
O cuidado com o visual de época é primoroso. Encontraram
até um ator por demais semelhante a Javier Bardem,
o jovem Unax Ugalde. Só que os pecados do filme por
vezes são gritantes, como os erros cronológicos, a maquiagem
falha e, pasmem, numa das cenas, um dos personagens
pergunta a Ariza se ele gosta de música. "Sim. Carlos
Gardel", responde o protagonista. No entanto, a cena
se passa em meados da década de 1880 e Gardel só surgiria
para o mundo no século XX, afinal nasceu apenas em 1890.
Apesar de muita gente pensar em cólera como raiva, na
realidade, o cólera citado é a doença, que vitimava
muitas pessoas devido à falta de higiene naqueles idos
anos. Em meio a um elenco com vários atores de origem
latina, está Fernanda Montenegro, interpretando a dedicada
mãe de Florentino. Então se ela está lá, assista sem
medo.
COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO
Em Coisas que Perdemos pelo Caminho (Things
We Lost in The Fire), de Susanne Bier, a história
poderia facilmente se perder, com o perdão do trocadilho,
pelo trajeto. Porém, na tentativa de os personagens
de Halle Berry e Benicio del Toro recomeçarem suas vidas,
após tragédias pessoais, não existe espaço para a apelação,
para o dramalhão.
Audrey (Berry) é a mulher que fica viúva e com dois
filhos para criar, depois que o marido, interpretado
por David Duchovny (ele mesmo, o Fox Mulder, de Arquivo
X e agora em Californication) é assassinado.
Ela acaba aceitando na sua casa o melhor amigo do marido.
O problema está em que que Jerry (Del Toro) é
um junkie, ou seja, um viciado em drogas quase
incorrigível.
A dupla dá um show de atuação. Berry, com sua beleza,
nos faz sentir mais propensos a cuidar dela e de seus
fofíssimos filhos. Enquanto Del Toro, de Traffic,
rouba o filme, fumando sem parar, com uma expressão
torturada, a pele enrugada. As cenas em que seu personagem
passa pela crise de abstinência devem deixar qualquer
candidato a se drogar com a certeza de que o vício uma
grande roubada.
O filme, ainda por cima, é politicamente correto, mas
sem ser pedante. Ele prega a tolerância numa América
racista. Brancos e negros convivem harmoniosamente e
drogados recebem a solidariedade, ao invés da rejeição.
O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA (The Love in
the Time of Cholera, 2007)
Direção: Mike Newell.
Elenco: Javier Bardem, Giovana Mezziogiorno,
John Leguizamo, Fernanda Montenegro, Benjamin Bratt,
Catalina Sandino Moreno, Liev Schreiber.
COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO (Things We
Lost in The Fire, 2007)
Direção: Susanne Bier.
Elenco: Halle Berry, Benicio Del Toro, David
Duchovny.
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