MOTORISTA SEDUTOR
Ricardo Rangel
 
 

Os tempos são outros que os da década de 60, mas a arte da sedução não mudou, e continua viva e presente nas nossas vidas. "Alfie, O Sedutor" é uma refilmagem de "Alfie - Como Conquistar as Mulheres", de 1966, em que o papel do motorista de limusines sedutor foi vivido por Michael Caine. Nessa nova versão, quem interpreta Alfie é o bom ator Jude Law, que após "Cold Mountain" tem a oportunidade de mostrar o seu talento em um personagem que parece ser simples, mas que possui uma complexidade sutil. E Jude Law não decepciona: sua atuação é convincente, e com o seu charme e a sua elegância, consegue dar a vivacidade que o personagem requer. Alfie é um conquistador inveterado, que possui um ideal de vida hedonista, para quem a arte da conquista de belas mulheres e o prazer é tudo o que importa.

Diferentemente do Alfie de Michael Caine, este de Jude Law não vive em Londres, e sim em Nova York, e o recurso utilizado pelo diretor Lewis Gilbert no primeiro filme é reutilizado agora por Charles Shyer, em que Alfie fala olhando para a câmera, dirigindo-se ao espectador, convidando-o a compartilhar a sua vida, as suas conquistas, tecendo reflexões acerca da vida e dos costumes, dos relacionamentos humanos: querendo ou não, nos tornamos confidentes e cúmplices do motorista nesse jogo todo, que é o jogo da conquista e das suas artimanhas para conseguir uma mulher por uma noite. Alfie nos conduz por um passeio pela sua vida: seu apartamento simples de solteiro, onde raramente passa uma noite, os ternos de estilista comprados por uma ninharia, a empresa de limusines onde trabalha com o seu único amigo homem, Marlon (Omar Epps). Os bancos de trás dos carrões tem espaço de sobra para encontros com donas de casas solitárias, como Dorie (Jane Krakowski), por exemplo. Julie (Marisa Tomei) é a sua "quase" e eterna namorada, a quem recorre quando precisa de carinho, comida e roupa lavada. Já em Liz (Susan Sarandon, em participação especial), ele encontra alguém semelhante a si mesmo, uma mulher mais velha e experiente que entrega-se à prazeres libidinosos e relacionamentos efêmeros, descartando as pessoas com quem sai e os homens com quem mantém relações sexuais. Até a mulher do melhor (e único) amigo não escapa das garras do sedutor: ele transa com ela, Lonette (Nia Long), e a engravida, fazendo refletir, pelo menos temporariamente, sobre a sua vida e o seu estilo Don Juan.

Os questionamentos de Alfie são sempre apreciados e compartilhados pelo espectador, que vive consigo as suas angústias, os seus problemas e as suas crises existenciais. Há apenas um porém em "Alfie": na primeira metade, o filme prima pelo excesso de machismo, mostrando um conquistador calculista e determinado a ir à "caça", e na segunda metade, quando questiona-se sobre toda a sua condição e suas atitudes, a ótica passa a ser mais feminina, primando mais pelo sentimentalismo e deixando de lado esse lado mais cafajeste do conquistador. Fica evidente essa separação, mas isso não é necessariamente um demérito para o filme: "Alfie" é divertido e nos convida a uma reflexão, sejam homens ou mulheres, conquistadores ou não. E os trejeitos e a espontaneidade de Jude Law garantem o ingresso, além da trilha sonora, que tem nada mais nada menos do que Mick Jagger, além de Dave Stewart e John Powell.

ALFIE, O SEDUTOR (Alfie, 2004)

Direção: Charles Shyer.

Elenco: Jude Law, Marisa Tomei, Nia Long, Sienna Miller, Omar Epps, Susan Sarandon.

COTAÇÃO: ***