O "ALEXANDRE" DE OLIVER STONE
Ricardo Rangel
 
 

Já não se fazem mais épicos como antigamente. Depois do fracasso retumbante de "Tróia", que veio na tentativa de resgatar os filmes históricos, como por exemplo os grandes clássicos "Ben-Hur" e "Os Dez Mandamentos", ambos estrelados por Charlton Heston, só para citar duas obras magníficas da história do cinema, chega agora às telas o filme "Alexandre", dirigido por Oliver Stone ( de "Platoon" e "JFK" ), mais um esforço em vão de trazer para a atualidade um filme de época que retrate fidedignamente a história e cumpra a função de entretenimento que esse tipo de produto exige e necessita. É uma tarefa difícil e bastante complexa buscar esse equilíbrio, pois a indústria cinematográfica atual movimenta muito dinheiro, e as superproduções do gênero devem primar pelas cenas de batalhas e pelos efeitos especiais, muitas vezes em excesso, o que acaba maquiando muitas vezes um trabalho defeituoso em termos de roteiro e de uma boa história a ser contada.

Embora superior à "Tróia" em vários aspectos (bem, mas isso não é lá muito mérito, diga-se de passagem), "Alexandre" naufraga e desanda em alguns outros, e nem mesmo a pressuposta direção firme e segura de um diretor experiente e que teria cacife para erigir tal empreendimento, que se configurou como uma tarefa hercúlea, como Oliver Stone, foi suficiente para garantir a "Alexandre" um bom filme.

A trajetória de Alexandre, o Grande (ou Alexandre Magno), líder e guerreiro macedônico da época da Grécia Antiga, começou com o seu nascimento, em 356 A.C.; filho da rainha Olímpia da Macedônia, e do rei Filipe II, vinha a ser o primogênito herdeiro de um trono cobiçado, e já as circunstâncias do seu próprio nascimento foram marcadas por relatos mitológicos. Segundo o escritor grego Plutarco, no dia do nascimento de Alexandre, o templo de Artemis, em Éfeso, foi destruído por um incêndio, ardendo em chamas: em volta das labaredas, os magos de Éfeso anunciavam profecias de que feitos grandiosos e terríveis estariam para acontecer, e nesse meio-tempo Olímpia dava à luz à Alexandre, do outro lado do mar Egeu, envolta por várias serpentes. Alexandre foi educado para ser um conquistador, um guerreiro, assim como o pai, o caolho Filipe II da Macedônia, e na época a Grécia passava por um momento de crise, onde não havia coesão entre as cidades-estado gregas, ao passo que o Império Persa, no leste asiático, mantinha a sua unidade coesiva e o seu poder aumentava com o expansionismo crescente liderado pelo rei Dario III. Era o desejo de Filipe conquistar e invadir os territórios do Império Persa, e ir além; quando este foi assassinado por Pausânias, Alexandre, com apenas 20 anos, assume o trono e o poder, e realiza a vontade do pai, além das suas próprias, que iam muito além nos seus desígnios pessoais. Há muito de mito em torno da figura de Alexandre, é claro, mas a sua referência como líder, guerreiro e conquistador são uma referência e um marco na história da humanidade, aproximando a sua figura humana com a de um deus grego, tanto em termos de força e poder como em beleza, assim como Aquiles, o herói grego que invadiu Tróia e que era uma espécie de deus, um ser que estava entre o Olimpo e o mundo dos homens, e que a rainha Olímpia usava com um ícone de idolatria, um exemplo de guerreiro a ser seguido pelo seu filho Alexandre. No filme, algumas inverossimilhanças em relação aos personagens que interpretam essas figuras históricas: no papel de Olímpia está Angelina Jolie, que é bela, mas como atriz deixa a desejar (ainda que a linda filha de Jon Voight cercada de serpentes nos templos macedônicos é um apelo ao erotismo); como Filipe, Val Kilmer, gordo, barbudo e caolho para interpretar o fanfarrão e bêbado rei da Macedônia, não está a altura de papéis memoráveis por ele realizados, por exemplo, quando fez, e de forma perfeita, Jim Morrison em "The Doors" (coincidentemente, também dirigido, e muito bem, por Oliver Stone), parecendo pouco à vontade no papel. Mas o curioso é o seguinte: Colin Farrell, que interpreta (e bem, mas falaremos disso mais tarde) Alexandre adulto, tem quase a mesma idade de seus pais, o que provoca um certo estarrecimento no contexto do filme. A saga de Alexandre é contada por Ptolomeu (Anthony Hopkins, velho, barbudo, narrador da história, tipo de papel que ele vem fazendo seguido ultimamente...por quê será?), da biblioteca de Alexandria, no Egito, um dos tantos recantos conquistados pelo rei macedônico. Ptolomeu lutou no exército de Alexandre, e está agora passando seus ensinamentos para os seus alunos, daí o enorme flashback narrado por ele que é este filme.

No filme, há poucas cenas de batalhas (apenas duas, mas Alexandre liderou várias), mas essas valem a pena: Alexandre, cavalgando o seu famoso cavalo Bucéfalo, e liderando seu exército, invade a Pérsia, no deserto de Gaugamela, e trava uma batalha com os soldados do Rei Dario no meio do deserto, muito bem retratada no filme (boa fotografia e figurino), conquistando com isso nada mais nada menos do que a Babilônia. Em um momento posterior, no seguimento do seu expansionismo, que já se tornara uma obsessão para ele, Alexandre invade a Índia, o limite para os sábios gregos entre o mundo conhecido (e conquistado!) e os mares orientais, guiando-o a uma batalha sangrenta e digna de uma carnificina mortal contra o exército implacável do tirano rajá Paurava: o exército do soberano do Punjab, conhecido como rei Porus pelos gregos, possuía 23 mil homens, 300 carros de guerra e 85 elefantes. Oliver Stone consegue dar um impressionante realismo a essa batalha, em que Alexandre é ferido, decidindo retornar à Macedônia com seus homens, mas agora sem Bucéfalo, que morre bravamente em combate, talvez na melhor cena do filme, que mostra de forma brutal como foi esse massacre, resultando também em uma boa fotografia e efeitos sonoros (o ruído dos elefantes avançando pela selva é ensurdecedor, parece que estamos lá dentro da cena), dotada de um visual requintado também (é dada ao espectador a perspectiva de Alexandre e dos seus homens no enfrentamento do inimigo) e com toques oníricos em meio ao horror sangrento desta batalha em que o exército de Alexandre pede arrego.

No mais das vezes, a narrativa, quando não nas cenas de batalha, arrasta-se em demasia em alguns pontos (as três horas de duração do filme são excessivas, há cenas desnecessárias e enfadonhas que poderiam ser cortadas), mas a atuação de Colin Farrell surprende, até certo ponto: o ator emergente de Hollywood, que estrelou "Por um Fio" e "O Novato", onde neste contracena com Al Pacino, dá um tom dramático ao personagem, que assim o exige (a cena antes da batalha na Índia, em que Alexandre entra em conflito com os seus comandados e causa um "racha" no seu exército é forte e vibrante, e Farrell dá vivacidade à mesma, além de assim proceder em outros momentos). Já a suposta relação homossexual que teria com o seu amigo íntimo Héfestion (Jared Leto) é muito exposta, de forma desnecessária também, e mesmo que ela seja abordada em tons sutis e velados (em algumas cenas, nem tanto assim), isso não vem tanto ao caso, fora o fato de ser, do ponto de vista histórico, polêmica essa questão, causando com isso um mal-estar que não precisava em torno da produção (especialmente vindo dos gregos!).

Outro ponto bastante decepcionante é a relação de Alexandre com Aristóteles, que no filme é vivido por Christopher Plummer: embora o grande filósofo grego seja até bastante citado durante o filme, só há uma cena em que ele aparece, no melhor estilo peripatético, é verdade, ao dar uma aula para Alexandre ainda adolescente e outros aprendizes. Mas a importância histórica que Aristóteles teve, além da sua influência para o futuro conquistador do Oriente, é muito grande, pois foi o sábio tutor de Alexandre após a morte de Filipe, além de seu grande mestre, e isso é muito, mas muito pouco explorado no filme (infelizmente). Com uma exploração maior desse ponto, fundamental que seria, pois, teria se destacado mais o lado humano de Alexandre, interessado na sabedoria, no conhecimento e na arte, para não falar em temas tão importantes e essenciais para os gregos que dominaram a tradição helênica, como a ética, a política e a amizade, por exemplo. Alexandre não foi apenas um grande guerreiro e conquistador, como o filme mostra, indo muito além de considerar os outros povos como não sendo necessariamente bárbaros (seu casamento com Roxana mostra isso): foi, também, e acima de tudo, um homem de conhecimento, e o seu tutor Aristóteles teve uma influência decisiva no seu caráter como homem e no desenvolvimento da sua personalidade vencedora e guerreira.

ALEXANDRE (Alexander, 2004)

Direção: Oliver Stone.

Elenco: Colin Farrell, Angelina Jolie, Anthony Hopkins, Val Kilmer, Jared Leto, Rosario Dawson, Christopher Plummer.

COTAÇÃO: **