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Já não se fazem mais épicos como antigamente. Depois
do fracasso retumbante de "Tróia", que veio na tentativa
de resgatar os filmes históricos, como por exemplo os
grandes clássicos "Ben-Hur" e "Os Dez Mandamentos",
ambos estrelados por Charlton Heston, só para citar
duas obras magníficas da história do cinema, chega agora
às telas o filme "Alexandre", dirigido por Oliver Stone
( de "Platoon" e "JFK" ), mais um esforço em vão de
trazer para a atualidade um filme de época que retrate
fidedignamente a história e cumpra a função de entretenimento
que esse tipo de produto exige e necessita. É uma tarefa
difícil e bastante complexa buscar esse equilíbrio,
pois a indústria cinematográfica atual movimenta muito
dinheiro, e as superproduções do gênero devem primar
pelas cenas de batalhas e pelos efeitos especiais, muitas
vezes em excesso, o que acaba maquiando muitas vezes
um trabalho defeituoso em termos de roteiro e de uma
boa história a ser contada.
Embora superior à "Tróia" em vários aspectos (bem,
mas isso não é lá muito mérito, diga-se de passagem),
"Alexandre" naufraga e desanda em alguns outros, e nem
mesmo a pressuposta direção firme e segura de um diretor
experiente e que teria cacife para erigir tal empreendimento,
que se configurou como uma tarefa hercúlea, como Oliver
Stone, foi suficiente para garantir a "Alexandre" um
bom filme.
A trajetória de Alexandre, o Grande (ou Alexandre
Magno), líder e guerreiro macedônico da época da Grécia
Antiga, começou com o seu nascimento, em 356 A.C.; filho
da rainha Olímpia da Macedônia, e do rei Filipe II,
vinha a ser o primogênito herdeiro de um trono cobiçado,
e já as circunstâncias do seu próprio nascimento foram
marcadas por relatos mitológicos. Segundo o escritor
grego Plutarco, no dia do nascimento de Alexandre, o
templo de Artemis, em Éfeso, foi destruído por um incêndio,
ardendo em chamas: em volta das labaredas, os magos
de Éfeso anunciavam profecias de que feitos grandiosos
e terríveis estariam para acontecer, e nesse meio-tempo
Olímpia dava à luz à Alexandre, do outro lado do mar
Egeu, envolta por várias serpentes. Alexandre foi educado
para ser um conquistador, um guerreiro, assim como o
pai, o caolho Filipe II da Macedônia, e na época a Grécia
passava por um momento de crise, onde não havia coesão
entre as cidades-estado gregas, ao passo que o Império
Persa, no leste asiático, mantinha a sua unidade coesiva
e o seu poder aumentava com o expansionismo crescente
liderado pelo rei Dario III. Era o desejo de Filipe
conquistar e invadir os territórios do Império Persa,
e ir além; quando este foi assassinado por Pausânias,
Alexandre, com apenas 20 anos, assume o trono e o poder,
e realiza a vontade do pai, além das suas próprias,
que iam muito além nos seus desígnios pessoais. Há muito
de mito em torno da figura de Alexandre, é claro, mas
a sua referência como líder, guerreiro e conquistador
são uma referência e um marco na história da humanidade,
aproximando a sua figura humana com a de um deus grego,
tanto em termos de força e poder como em beleza, assim
como Aquiles, o herói grego que invadiu Tróia e que
era uma espécie de deus, um ser que estava entre o Olimpo
e o mundo dos homens, e que a rainha Olímpia usava com
um ícone de idolatria, um exemplo de guerreiro a ser
seguido pelo seu filho Alexandre. No filme, algumas
inverossimilhanças em relação aos personagens que interpretam
essas figuras históricas: no papel de Olímpia está Angelina
Jolie, que é bela, mas como atriz deixa a desejar (ainda
que a linda filha de Jon Voight cercada de serpentes
nos templos macedônicos é um apelo ao erotismo); como
Filipe, Val Kilmer, gordo, barbudo e caolho para interpretar
o fanfarrão e bêbado rei da Macedônia, não está a altura
de papéis memoráveis por ele realizados, por exemplo,
quando fez, e de forma perfeita, Jim Morrison em "The
Doors" (coincidentemente, também dirigido, e muito bem,
por Oliver Stone), parecendo pouco à vontade no papel.
Mas o curioso é o seguinte: Colin Farrell, que interpreta
(e bem, mas falaremos disso mais tarde) Alexandre adulto,
tem quase a mesma idade de seus pais, o que provoca
um certo estarrecimento no contexto do filme. A saga
de Alexandre é contada por Ptolomeu (Anthony Hopkins,
velho, barbudo, narrador da história, tipo de papel
que ele vem fazendo seguido ultimamente...por quê
será?), da biblioteca de Alexandria, no Egito, um dos
tantos recantos conquistados pelo rei macedônico. Ptolomeu
lutou no exército de Alexandre, e está agora passando
seus ensinamentos para os seus alunos, daí o
enorme flashback narrado por ele que é
este filme.
No filme, há poucas cenas de batalhas (apenas duas,
mas Alexandre liderou várias), mas essas valem a pena:
Alexandre, cavalgando o seu famoso cavalo Bucéfalo,
e liderando seu exército, invade a Pérsia, no deserto
de Gaugamela, e trava uma batalha com os soldados do
Rei Dario no meio do deserto, muito bem retratada no
filme (boa fotografia e figurino), conquistando com
isso nada mais nada menos do que a Babilônia. Em um
momento posterior, no seguimento do seu expansionismo,
que já se tornara uma obsessão para ele, Alexandre invade
a Índia, o limite para os sábios gregos entre o mundo
conhecido (e conquistado!) e os mares orientais, guiando-o
a uma batalha sangrenta e digna de uma carnificina mortal
contra o exército implacável do tirano rajá Paurava:
o exército do soberano do Punjab, conhecido como rei
Porus pelos gregos, possuía 23 mil homens, 300 carros
de guerra e 85 elefantes. Oliver Stone consegue dar
um impressionante realismo a essa batalha, em que Alexandre
é ferido, decidindo retornar à Macedônia com seus homens,
mas agora sem Bucéfalo, que morre bravamente em combate,
talvez na melhor cena do filme, que mostra de forma
brutal como foi esse massacre, resultando também em
uma boa fotografia e efeitos sonoros (o ruído dos elefantes
avançando pela selva é ensurdecedor, parece que estamos
lá dentro da cena), dotada de um visual requintado também
(é dada ao espectador a perspectiva de Alexandre e dos
seus homens no enfrentamento do inimigo) e com toques
oníricos em meio ao horror sangrento desta batalha em
que o exército de Alexandre pede arrego.
No mais das vezes, a narrativa, quando não nas cenas
de batalha, arrasta-se em demasia em alguns pontos (as
três horas de duração do filme são excessivas, há cenas
desnecessárias e enfadonhas que poderiam ser cortadas),
mas a atuação de Colin Farrell surprende, até certo
ponto: o ator emergente de Hollywood, que estrelou "Por
um Fio" e "O Novato", onde neste contracena com Al Pacino,
dá um tom dramático ao personagem, que assim o exige
(a cena antes da batalha na Índia, em que Alexandre
entra em conflito com os seus comandados e causa um
"racha" no seu exército é forte e vibrante, e Farrell
dá vivacidade à mesma, além de assim proceder em outros
momentos). Já a suposta relação homossexual que teria
com o seu amigo íntimo Héfestion (Jared Leto) é muito
exposta, de forma desnecessária também, e mesmo que
ela seja abordada em tons sutis e velados (em algumas
cenas, nem tanto assim), isso não vem tanto ao caso,
fora o fato de ser, do ponto de vista histórico, polêmica
essa questão, causando com isso um mal-estar que não
precisava em torno da produção (especialmente vindo
dos gregos!).
Outro ponto bastante decepcionante é a relação de Alexandre
com Aristóteles, que no filme é vivido por Christopher
Plummer: embora o grande filósofo grego seja até bastante
citado durante o filme, só há uma cena em que ele aparece,
no melhor estilo peripatético, é verdade, ao dar uma
aula para Alexandre ainda adolescente e outros aprendizes.
Mas a importância histórica que Aristóteles teve, além
da sua influência para o futuro conquistador do Oriente,
é muito grande, pois foi o sábio tutor de Alexandre
após a morte de Filipe, além de seu grande mestre, e
isso é muito, mas muito pouco explorado no filme (infelizmente).
Com uma exploração maior desse ponto, fundamental que
seria, pois, teria se destacado mais o lado humano de
Alexandre, interessado na sabedoria, no conhecimento
e na arte, para não falar em temas tão importantes e
essenciais para os gregos que dominaram a tradição helênica,
como a ética, a política e a amizade, por exemplo. Alexandre
não foi apenas um grande guerreiro e conquistador, como
o filme mostra, indo muito além de considerar os outros
povos como não sendo necessariamente bárbaros (seu casamento
com Roxana mostra isso): foi, também, e acima de tudo,
um homem de conhecimento, e o seu tutor Aristóteles
teve uma influência decisiva no seu caráter como homem
e no desenvolvimento da sua personalidade vencedora
e guerreira.
ALEXANDRE (Alexander, 2004)
Direção: Oliver Stone.
Elenco: Colin Farrell, Angelina Jolie, Anthony
Hopkins, Val Kilmer, Jared Leto, Rosario Dawson, Christopher
Plummer.
COTAÇÃO: **
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