ALÉM DO ALÉM DE GUADALCANAL
Ricardo Rangel
 
 

Terrence Malick é daqueles cineastas que praticamente não filmam: realizou apenas três longas metragens em sua carreira, não gosta de ser fotografado, raramente é visto e não concede entrevistas; seu comportamento excêntrico, eremítico, de aversão ao convívio social talvez justifique, em parte, ter realizado um filme tão profundo e de natureza essencialmente introspectiva como é " Além da Linha Vermelha" ( " The Thin Red Line"), que concorreu ao Oscar de melhor filme em 1999: apenas alguém com esse perfil poderia ter realizado tal obra

"Além da Linha Vermelha" possui um elenco de primeira ( Sean Penn, Nick Nolte, Woody Harrelson, Elias Koteas, Adrien Brody), todos desejosos e curiosos em filmar com o estranho Malick, mas o personagem principal, se é que se pode dizer que ha um, é um ator até então desconhecido no meio cinematográfico, Jim Caviezel; digo "principal" porque o personagem dele, o soldado Witt, é protagonista no sentido de ser uma espécie de interlocutor de tudo que se passa.

O cenário é apocalíptico: na Segunda Guerra Mundial, um pelotão do exército norte-americano é enviado para a ilha de Guadalcanal, no Oceano Pacífico, para conquistar de vez o território que está nas mãos inimigas, a saber, sob o domínio dos japoneses. A tarefa é ingrata, pois os "japas" estão atocaiados em bunkers subterrâneos e prepararam emboscadas de dar inveja aos vietcongs (que viriam tempos depois a serem terríveis algozes dos americanos) nas matas da ilha; para piorar, há um general extremamente linha-dura no comando, interpretado por Nick Nolte, e a estratégia dos americanos não dá muito certo...mas o ponto aqui é que a guerra e as batalhas sangrentas que se travam entre norte-americanos e japoneses em Guadalcanal é apenas um pano de fundo em todo o contexto: as reflexoes existenciais sobre o horror da guerra, em meio a mortes sucessivas e brutais por explosões de granadas, bombardeios e disparos constantes, tambem com reflexões sobre o amor, a vida e os sentimentos humanos trazem um contraste soberbo a toda narrativa, tornando o filme de uma beleza rara e onírica, há poesia e vivacidade em meio ao caos e ao terror de uma guerra ( como qualquer uma, aliás, insana e irracional). Os personagens, a todo momento, convidam o espectador a penetrar nos seus mundos, nas suas idiossincrasias, convidam-lo a conhecer as suas dores e os seus medos e temores mais secretos, ocultos e escondidos nas suas mentes carentes e aterrorizadas por estarem, literalmente, em um inferno, tanto exterior como, principalmente, interior; dentre os muitos personagens profundos, destaca-se Caviezel, que com serenidade e sabedoria, vive intensamente as suas experiencias, e é possível, com um mínimo de sensibilidade, perceber isso ( há que se referir que o seu personagem é um desertor do exército, e já estava na ilha convivendo com os nativos ).

Poesia, lirismo, encantamento, sensibilidade...Terrence Malick, com a sua introspecção como ser humano, consegue mostrar às pessoas com este magnífico filme como ver a beleza no horror,de tocar até aos mais insensíveis, e para aqueles que possuem crenças profundas arraigadas em seu íntimo, a sua obra até poderá funcionar como um alento.

COTAÇÃO: *****

ALÉM DA LINHA VERMELHA (The Thin Red Line,1998)

Direção : Terrence Malick

Elenco : Jim Caviezel, Sean Penn, Nick Nolte, Elias Koteas, Adrien Brody, Woody Harrelson, Jared Leto.