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Terrence Malick é daqueles cineastas que praticamente
não filmam: realizou apenas três longas metragens em
sua carreira, não gosta de ser fotografado, raramente
é visto e não concede entrevistas; seu comportamento
excêntrico, eremítico, de aversão ao convívio
social talvez justifique, em parte, ter realizado um
filme tão profundo e de natureza essencialmente introspectiva
como é " Além da Linha Vermelha" ( " The Thin Red Line"),
que concorreu ao Oscar de melhor filme em 1999: apenas
alguém com esse perfil poderia ter realizado tal obra
"Além da Linha Vermelha" possui um elenco de
primeira ( Sean Penn, Nick Nolte, Woody Harrelson, Elias
Koteas, Adrien Brody), todos desejosos e curiosos em
filmar com o estranho Malick, mas o personagem principal,
se é que se pode dizer que ha um, é um ator até então
desconhecido no meio cinematográfico, Jim Caviezel;
digo "principal" porque o personagem dele, o soldado
Witt, é protagonista no sentido de ser uma espécie de
interlocutor de tudo que se passa.
O cenário é apocalíptico: na Segunda
Guerra Mundial, um pelotão do exército norte-americano
é enviado para a ilha de Guadalcanal, no Oceano Pacífico,
para conquistar de vez o território que está nas mãos
inimigas, a saber, sob o domínio dos japoneses. A tarefa
é ingrata, pois os "japas" estão atocaiados em bunkers
subterrâneos e prepararam emboscadas de dar inveja aos
vietcongs (que viriam tempos depois a serem terríveis
algozes dos americanos) nas matas da ilha; para piorar,
há um general extremamente linha-dura no comando, interpretado
por Nick Nolte, e a estratégia dos americanos não dá
muito certo...mas o ponto aqui é que a guerra e as batalhas
sangrentas que se travam entre norte-americanos e japoneses
em Guadalcanal é apenas um pano de fundo em todo o contexto:
as reflexoes existenciais sobre o horror da guerra,
em meio a mortes sucessivas e brutais por explosões
de granadas, bombardeios e disparos constantes, tambem
com reflexões sobre o amor, a vida e os sentimentos
humanos trazem um contraste soberbo a toda narrativa,
tornando o filme de uma beleza rara e onírica, há poesia
e vivacidade em meio ao caos e ao terror de uma guerra
( como qualquer uma, aliás, insana e irracional). Os
personagens, a todo momento, convidam o espectador a
penetrar nos seus mundos, nas suas idiossincrasias,
convidam-lo a conhecer as suas dores e os seus medos
e temores mais secretos, ocultos e escondidos nas suas
mentes carentes e aterrorizadas por estarem, literalmente,
em um inferno, tanto exterior como, principalmente,
interior; dentre os muitos personagens profundos, destaca-se
Caviezel, que com serenidade e sabedoria, vive intensamente
as suas experiencias, e é possível, com um mínimo de
sensibilidade, perceber isso ( há que se referir que
o seu personagem é um desertor do exército, e já estava
na ilha convivendo com os nativos ).
Poesia, lirismo, encantamento, sensibilidade...Terrence
Malick, com a sua introspecção como ser humano, consegue
mostrar às pessoas com este magnífico filme como ver
a beleza no horror,de tocar até aos mais insensíveis,
e para aqueles que possuem crenças profundas arraigadas
em seu íntimo, a sua obra até poderá funcionar
como um alento.
COTAÇÃO: *****
ALÉM DA LINHA VERMELHA (The Thin Red
Line,1998)
Direção : Terrence Malick
Elenco : Jim Caviezel, Sean Penn, Nick Nolte,
Elias Koteas, Adrien Brody, Woody Harrelson, Jared Leto.
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