MISCELÂNEA COSMOPOLITA
Ricardo Rangel
 
 
Globalização. Esta palavra e o conceito associado a ela, ambos tão em voga no mundo atual, podem apresentar distintas significações dependendo do mote e do ponto de vista a se abordar tal temática. As dificuldades de comunicação num mundo globalizado e ironicamente contraditório com o conceito de razão comunicativa de Habermas, pensador alemão egresso da Escola de Frankfurt (um grupo de filósofos e cientistas sociais de tendências marxistas do século passado), é uma tônica constante em nossas relações com outras pessoas e com o meio que nos circunda.

A teoria da razão (e da ação) comunicativa de Jürgen Habermas consiste em estabelecer um novo paradigma para a assim chamada pós-modernidade. A razão comunicativa é, grosso modo, uma teoria da ação, ação esta de comunicação, que tem relação com um outro conceito habermasiano, a saber, o de mundo da vida. A racionalidade, nesta perspectiva, adquire uma dinâmica de práxis científica, onde os indivíduos interagem através das relações sociais, políticas e humanas em que estão inseridos na esfera pública e privada.

O mundo globalizado: diante de tal cenário em desequilíbrio, não-uníssono com a harmonia social, o cinema não poderia ficar de fora ao buscar abordar e tematizar tal problemática, a saber, a falta de comunicação, seja no próprio sentido literal, seja no sentido metafórico. Pelo menos três filmes tratam, periférica ou mais diretamente, a questão central e outras semelhantes que orbitem tal assunto. Eles serão explorados mínima e brevemente aqui: "Albergue Espanhol"; "Um Filme Falado", do ativíssimo cineasta português Manoel de Oliveira, e "Encontros e Desencontros" de Sofia Coppola (cujo título original é bem sugestivo, "Lost in Translation", algo como "perdidos na tradução"). Embora pretendesse me concentrar mais na produção independente "Albergue Espanhol", uma interessante película sobre estudantes de diversas nacionalidades européias que são obrigados a dividirem um apartamento em Barcelona, também serão comentados, a título ilustrativo, os outros dois, numa tentativa rasa de traçar algumas congruências entre os três filmes, bastante distintos entre si em vários aspectos, mas próximos nessa questão da dificuldade de comunicação, além dos idiomas: a questão de se encontrar e de se entender num mundo onde cada vez mais todos se encontram e se entendem cada vez menos.

Em "Albergue Espanhol", dirigido por Cédric Klapisch, Xavier é um jovem estudante de economia recém ingressante na universidade, que vai a Barcelona estudar. Lá chegando, encontra vaga numa espécie de "república" de estudantes que vivem numa pensão, cada um com uma nacionalidade diferente (mas todos europeus): ele próprio é francês, e moram lá um italiano, uma inglesa, uma belga lésbica colega sua na universidade, uma espanhola, evidentemente, e um alemão. Afora as questões de dificuldades de relacionamento que o filme explora entre a juventude de classe média, e algumas historinhas paralelas, o interessante é a dificuldade comunicativa entre eles, tanto no que diz respeito ao entendimento entre os idiomas diferentes mesmo, quanto ao choque cultural e de costumes: quase tudo, no fundo, parece ser uma ode e propaganda semi-mascarada da comunidade européia, bem como de suas vantagens para o vislumbre de uma Europa globalizada, onde as cortinas que ainda separam as nações já não são, pelo menos em tese, de ferro. A idéia é quebrar e transcender fronteiras, se não no nível geográfico, mas pelo menos política, econômica, social e culturalmente.

Já em "Um Filme Falado", o diretor Manoel de Oliveira vai pelo viés da metáfora idiomática, ao colocar no seu navio e em sua aula de história oral, pessoas de diferentes países e línguas numa mesa cada qual falando em um idioma diferente, com direito a um antológico encontro entre a bela da tarde Catherine Deneuve e o Herr Doctor Myself John Malkovich: ninguém se entende, e estão todos em um cruzeiro em alto mar indo do nada a lugar nenhum - o que fica claro no final do filme, literalmente (?) bombástico e surpreendente. Em "Lost in Translation", os personagens de Bill Murray e Scarlett Johansson estão "perdidos na tradução" de uma Tóquio cosmopolita, com uma miscelânea cultural que funde tanto costumes tradicionais do oriente com a "necessária" e inevitável influência ocidental (leia-se estadounidense, como o jeans, uma rede de lanchonetes famosa e uma marca de refrigerante mais ainda, só para citar pelo menos três das coisas mais "universais" neste mundo (des)globalizado e (des)capitalizado...) no país do sol nascente. Ao estarem sempre se desencontrando, ambos buscam suas identidades perdidas como peixes fora d`água, ianques deslocados na terra dos samurais medievais e dos aparelhos eletro-eletrônicos da contemporaneidade.

Será que Habermas não tinha razão na sua razão comunicativa? Ninguém se entende... e o problema é bem mais complexo do que uma árida esperança, com o perdão do trocadilho, de estabelecer o esperanto como língua universal. Mas parece que temos somente a negação do entendimento e da compreensão através da linguagem e do idioma. Esperanças no esperanto e na boa vontade, quem sabe, só para começar a se entender, o primeiro passo para uma comunhão humana.



ALBERGUE ESPANHOL (L'Auberge Spagnole, 2002)

Direção: Cédric Klapisch.

Elenco: Romain Duris, Audrey Tautou, Kelly Reilly.

COTAÇÃO: ***



UM FILME FALADO (idem, 2003)

Direção: Manoel de Oliveira.

Elenco: Leonor Silveira, Catherine Deneuve, John Malkovich.

COTAÇÃO: ***



ENCONTROS E DESENCONTROS
(Lost in Translation, 2003)

Direção: Sofia Coppola.

Elenco: Scarlett Johansson, Bill Murray, Giovanni Ribisi, Anna Faris.

COTAÇÃO: ****